ESG

Eventos climáticos extremos: as empresas podem fazer mais

Será necessária a união entre todos os setores para que sejam evitadas tragédias, tendo em vista as áreas de risco e as altas probabilidades de que eventos climáticos extremos continuem acontecendo 

será necessária a união entre todos os setores para que sejam evitadas tragédias semelhantes, tendo em vista as áreas de risco e as altas probabilidades de que eventos climáticos extremos continuem acontecendo (FERNANDO MARRON/Getty Images)

será necessária a união entre todos os setores para que sejam evitadas tragédias semelhantes, tendo em vista as áreas de risco e as altas probabilidades de que eventos climáticos extremos continuem acontecendo (FERNANDO MARRON/Getty Images)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 4 de março de 2023 às 08h03.

A alegria do feriado de Carnaval neste ano foi quebrada por mais uma tragédia sem precedentes envolvendo eventos climáticos extremos. Desta vez, a região do litoral norte de São Paulo, especialmente o município de São Sebastião, foi alvo de fortes chuvas em um volume jamais visto nos registros históricos brasileiros, que deixaram, até o momento, o triste saldo de mais de 60 mortos e mais de 4.000 pessoas desabrigadas ou desalojadas; bombeiros seguem na busca por pessoas desaparecidas, ao mesmo tempo em que uma forte corrente de solidariedade mobiliza a sociedade para arrecadar doações para os atingidos por mais essa catástrofe.

Não se trata de um evento pontual. Os volumes de água que atingiram as cidades do litoral norte paulista ultrapassaram os mais recentes registros de chuvas torrenciais e se configuram os maiores da história do país. De acordo com o Centro Nacional de Previsão de Monitoramento de Desastres (Cemaden), os acumulados de chuva alcançaram 683 mm em Bertioga, 627 mm em São Sebastião e 355 mm em Ubatuba dentro de um período de 24 horas. O acumulado de chuvas em São Sebastião superou o da cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio, que teve o acumulado de 530 mm em 24 horas em 2022 - ou seja, o evento extremo de agora superou o recorde anterior, que era de exatamente um ano atrás.

Antes, o maior índice havia sido registrado em Florianópolis, em 1991, com acumulado de 400 mm em apenas um dia. Em um intervalo de um ano, o recorde foi batido duas vezes.

Os alertas vêm sendo dados pela ciência. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU alertou, em um dos relatórios publicados no ano passado, que a população afetada por enchentes e deslizamentos pode crescer entre 100% e 200% no Brasil em um cenário de aquecimento global de 1,5ºC. Desde a Revolução Industrial, a temperatura da Terra já subiu 1,09ºC, favorecendo a ocorrência de eventos climáticos extremos, como as fortes chuvas registradas no litoral paulista.

No caso brasileiro, o quadro ainda é agravado pela geografia local, como a proximidade entre serra e mar nessas regiões litorâneas, e questões sociais, visto que as tragédias climáticas afetam de forma desproporcional a população mais pobre e vulnerável - segundo a Defesa Civil, em todo o Brasil existem 14 mil pontos com alto risco de deslizamento, onde vivem 4 milhões de pessoas. O risco de novas tragédias, semelhantes às de São Sebastião e Petrópolis, acontecerem em um cenário de mais eventos extremos é iminente.

Na resposta à catástrofe, o poder público se mobilizou rapidamente, na esfera municipal, estadual e federal, bem como as organizações da sociedade civil, que se uniram em uma corrente solidária para a assistência emergencial. Agora, será necessária a união entre todos os setores para que sejam evitadas tragédias semelhantes, tendo em vista as áreas de risco e as altas probabilidades de que eventos climáticos extremos continuem acontecendo.

O setor empresarial pode e deve contribuir com seu know-how e ser um parceiro do poder público na oferta de soluções e tecnologias que mitiguem as mudanças climáticas e também na adaptação a elas. Diversos setores da economia buscam incorporar essas variáveis em suas estratégias de negócios. Um exemplo são as seguradoras, importante segmento para avançarmos no cenário de adaptação: 57,1% das empresas que atuam no segmento no Brasil já consideram as mudanças climáticas no desenvolvimento de produtos e serviços, de modo a contribuir com a sociedade na superação desse enorme desafio.

O Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) reuniu seu Conselho de Líderes, com 29 CEOs de grandes empresas, e Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em fevereiro, para tratar de como os negócios e o governo podem atuar para a implementação de ações na esfera climática, entre outros pontos. Esses espaços podem ser ampliados para a construção de soluções, seja nos campos da governança climática, do mercado de carbono, da transição energética e da infraestrutura verde, que faz parte do conjunto de soluções baseadas na natureza (SbN).

Essa estratégia em especial, que inclui integrar ao planejamento urbano soluções como reflorestamento de áreas de encostas e margens de rios, criação de zonas úmidas, adaptação baseada em ecossistemas para combater ilhas de calor, parques e telhados verdes, pode contribuir tanto para a resiliência de nossas cidades aos eventos climáticos extremos quanto para a própria mitigação das emissões de gases de efeito estufa.

Os negócios nesse campo podem prover até 37% das reduções necessárias para limitar o aquecimento global a 2ºC e ainda são lucrativos, tendo potencial de gerar receitas de US$ 17 bilhões até 2030, segundo estudo do World Resources Institute (WRI).

A emergência climática já é percebida pelos cidadãos do mundo todo como um tema preocupante, conforme apontou recente pesquisa realizada pelo Edelman Trust Institute, que envolveu 14 mil entrevistados em 14 países - no total, 77% dos respondentes estão preocupados com as mudanças climáticas. No Brasil, apenas 39% dos entrevistados acreditam que o país está fazendo sua parte no combate à emergência climática.

Nesse recorte, as organizações da sociedade civil são as mais confiáveis nesse tema, para 65% dos brasileiros, seguidos de longe por mídia (52%), governo (49%) e empresas (48%). Há, portanto, uma baixa confiança na resposta dos agentes à crise climática que está cada vez mais evidenciada. Assim, é mais do que necessária a união de forças e de propósitos para reverter essa crise de confiança, dar respostas rápidas e assertivas especialmente no campo da adaptação e, assim, evitar que tragédias como a do litoral norte de São Paulo continuem a tirar o sono dos brasileiros, especialmente dos mais vulneráveis.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com mais de 100 empresas associadas cujo faturamento somado equivale a quase 50% do PIB brasileiro

 

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