ESG

Como os ‘greenglers’, os ‘googlers’ do ESG, pretendem usar o Google para preservar a Amazônia

Entre as iniciativas apresentadas, a empresa compartilhou detalhes sobre as ações de monitoramento de inundações, incêndios e desmatamento, rastreabilidade de madeira, e utilização da nuvem para preservação da Amazônia

Kate Brandt, diretora de sustentabilidade do Google: "Acho que todos concordam quando falamos que o combate às mudanças climáticas é a maior tarefa coletiva da humanidade" (Google/Reprodução)

Kate Brandt, diretora de sustentabilidade do Google: "Acho que todos concordam quando falamos que o combate às mudanças climáticas é a maior tarefa coletiva da humanidade" (Google/Reprodução)

Fernanda Bastos
Fernanda Bastos

Repórter de ESG

Publicado em 13 de abril de 2023 às 17h58.

Última atualização em 14 de abril de 2023 às 16h08.

Mangal das Garças, um parque zoobotânico criado em 2005 pelo governo do Pará, recebeu, na semana passada, o evento Sustentabilidade com o Google – Amazônia. O gigante das buscas compartilhou detalhes de suas iniciativas no campo do ESG (meio ambiente, social e governança, na sigla em inglês). “Esse é o DNA do Google, buscamos ajudar e empoderar cidadãos a tomarem melhores decisões em qualquer frente da sua vida”, afirmou Fábio Coelho, CEO do Google Brasil.

Na abertura do evento, Helder Barbalho, governador do estado do Pará, após os cumprimentos protocolares, exaltou a iniciativa, em um discurso que, de certa maneira, serve de treinamento para o político que pretende receber, em 2025, a COP30. “Festejo por compreender que, cada vez mais, desejamos construir soluções sustentáveis a partir da Amazônia, que busquem construir ações de compatibilização, combatendo ilegalidades ambientais, ao mesmo tempo que construímos soluções sustentáveis e sociais”, disse Barbalho. “É impossível construir sustentabilidade sem conhecimento, tecnologia e inovação”.

Para o Google, cujo negócio do Google é baseado em informações mais especificamente, no acesso às informações – a conexão entre a empresa e a sustentabilidade se dá por meio da tecnologia. Coelho repete à EXAME ESG o mantra da companhia: organizar as informações do mundo e torná-las universalmente acessíveis e úteis. “De muitas maneiras, a preocupação com um futuro sustentável está no centro de como realizaremos nossa missão nos próximos anos”, afirma o CEO. “Em nossa terceira década de ação climática, definimos a meta mais ambiciosa até agora: alcançar emissão zero em todas as nossas operações e cadeia de valor, incluindo nossos produtos de hardware de consumo, até 2030”.

As buscas na internet e o desmatamento na Amazônia

O que está acontecendo na Amazônia?” e “Quais são as consequências do desmatamento na Amazônia?”, estão entre as dúvidas mais buscadas no Brasil quando o assunto é a maior floresta tropical do mundo. Os dados estão em um levantamento do Google Trends, página de tendência sobre as pesquisas realizadas pelos usuários. O Brasil é o 2º país que mais procurou por temas climáticos em 2023, atrás apenas da Argentina. Nessa missão de organizar as informações na internet, com o adicional desse novo olhar sobre a sustentabilidade, o Google decidiu manter uma página do Trends só com temas ligados ao meio ambiente, como mudanças climáticas, Amazônia e outros assuntos correlatos.

Google Trends

O levantamento apresentado, que inclui dados desde 2004, mostra que o pico de interesse pelo termo “desmatamento na Amazônia” aconteceu em outubro, época dos debates para as eleições presidenciais brasileiras. O ano passado foi o que mais registrou interesse de buscas pelo tema no Brasil e no mundo nos últimos 15 anos. No Brasil, as buscas por clima aumentaram sete vezes em uma década (correspondendo a um aumento percentual de 670%). Já nos últimos cinco anos, o aumento foi de mais de 80%. Temas como chuvas e povos indígenas também estavam bem ranqueados nas buscas.

"Acho que todos concordam quando falamos que o combate às mudanças climáticas é a maior tarefa coletiva da humanidade e é essencial que trabalhemos em conjunto, negócios, políticos, pesquisadores e líderes comunitários, para ajudar a sustentar a Amazônia brasileira”, disse Kate Brandt, diretora de sustentabilidade do Google. “Essa é a parte que eu amo do que eu faço em sustentabilidade. E aqui no Brasil estamos fazendo parcerias com comunidades, organizações e governo para proteger a incrível biodiversidade que existe na Amazônia, como também auxiliar comunidades que já lidam com os impactos das mudanças climáticas”.

Sustentabilidade no Google

Um data center do Google usa 50% menos energia que um centro computacional tradicional, de acordo com a companhia, que anunciou ter atingido a neutralidade em carbono em 2007. Como de costume, a empresa criou apelidos, ou uma espécie de meme, para designar os profissionais que lidam com a sustentabilidade: Greenglers, uma mistura das palavras verde (do inglês, green) e googlers, como são chamados os funcionários do Google. Na pandemia, o grupo propôs iniciativas de educação com workshops de reciclagem para que os funcionários ampliassem o conhecimento de como lidar com os resíduos domésticos.  

“É importante olhar para o consumidor e ajudar a fazer escolhas sustentáveis. Hoje, no Google Maps, oferecemos rotas de bicicleta; no Booking, mostramos os voos que emitem menos carbono; o Google Assistente dá 365 dicas de como ser mais sustentável. Nós fortalecemos nossos parceiros a olharem para fora”, comentou Maia Mau, diretora de marketing do Google para a América Latina e uma das greenglers.

Utilização da nuvem para preservação da Amazônia

Essa cultura greengler está sendo exportada para o combate ao desmatamento, e mesma lógica de olhar para os produtos do Google com um olhar sustentável se volta para a criação de soluções de preservação. Uma delas é o Earth Engine, plataforma de análise geoespacial baseada em tecnologia de nuvem que nasceu da contribuição de diversos cientistas e pesquisadores. Com ela, qualquer pesquisador poderá detectar mudanças na superfície, e identificar focos de desmatamento. Marco Bravo, head de Google Cloud no Brasil, explica que o monitoramento é feito a partir de uma infraestrutura robusta e aberta do Google Clound.

O MapBiomas, rede que produz mapas anuais sobre desmatamento, utiliza a tecnologia do Google Cloud desde 2015, sendo um dos maiores cases de uso do Earth Engine. Assim, a entidade já validou e refinou 280 mil alertas de desmatamento – sendo 190 mil alertas sobre o bioma amazônico. A ferramenta também é usada para identificar mineração, garimpo e pistas de pouso ilegais com o projeto Mapa das Pistas, que já encontrou 2,8 mil pistas clandestinas apenas no Amazonas, sendo mais de 70 em terras Yanomami.

Já o projeto Onçafari usa inteligência artificial para monitorar os movimentos das onças com um processo automatizado de identificação por vídeo. A plataforma usa o AppSheet, plataforma de desenvolvimento sem código do Google, e o próximo passo é gerar um sistema de gestão de ativos digitais para acompanhar e organizar os vídeos de forma automática.

Monitoramento de inundações, incêndios e desmatamento

Google Earth

Pensando em oferecer ajuda à população para lidar com os desastres naturais, como chuvas, além dos incêndios e o próprio desmatamento na região Amazônica, o Google lançou a ferramenta Earth Timelapse, que disponibiliza um mapa interativo em 4D feito a partir de milhões de imagens de satélite capazes de captar as mudanças na Terra nas últimas décadas. O serviço une inteligência artificial a uma tecnologia de computação geoespacial para contribuir com entidades públicas e ONGs no combate ao desmatamento e na prevenção de efeitos das queimadas e inundações. Com ele, qualquer pessoa pode ampliar e explorar a superfície do planeta entendendo, de forma visual, as causas dessas transformações desde 1984. O monitoramento é uma parceria com entidades como o Imazon e o MapBiomas.

“Com a ajuda da inteligência artificial, por exemplo, podemos entender e organizar melhor grandes conjuntos de dados e assim construir novas ferramentas para acelerar desde o desenvolvimento de energia limpa até a proteção do ecossistema. E podemos desbloquear descobertas científicas que abrem caminho para soluções que ainda nem imaginamos”, disse Coelho.

Desde a semana passada, a plataforma adicionou globalmente as imagens dos últimos dois anos, trazendo um panorama mais atualizado da situação. Além disso, a partir de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Google lançou um projeto piloto que usará aprendizagem de máquinas, imagens de satélites e outras variáveis para detectar incêndios florestais em estágios iniciais, o que ajuda autoridades públicas locais e nacionais em planos de combate.

Tecnologia acessível a todos (ou seria melhor não?)

A inteligência artificial será aplicada na busca e no Google Maps para alertar sobre previsões de inundações ribeirinhas. Esta é uma parceria com o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM). A iniciativa foi lançada em novembro do ano passado. A tecnologia organiza dados como os níveis dos rios, indicadores meteorológicos e imagens de satélite.

Na região Amazônia, o sistema emite alertas para os municípios de Manaus (AM), Porto Velho (RO), Boa Vista e Caracaraí (PR), Rio Branco e Xapuri (AC), entre outros. Segundo a empresa, foram emitidos mais de 50 alertas de enchentes em tempo real com o potencial de impacto de 4,4 milhões de pessoas. O Google emite mais dois tipos de avisos: os Alertas Públicos, em parceria com o CENAD e o INMET, e os Alertas S.O.S, criados após os deslizamentos no litoral de SP.

Google - Alerta de enchentes ribeirinhas antes, durante e depois da crise

“A gente utiliza o Google para a proteção dentro do nosso território e para descobrir novos desmatamentos que existem. Hoje, estamos criando uma plataforma dentro da nossa organização para fazer isso, em proteção também dos povos isolados. Acho interessante porque podemos usar essa tecnologia para definir esses territórios”, disse o líder indígena Bitate Jupaú. “Muito grato pelo trabalho do Google, mas acho que seria legal se o Google tivesse um cuidado melhor, porque os invasores também usam o Google para vender o nosso território. E isso é muito preocupante. Fizemos um levantamento que eles tão usando 1/3 do nosso território e temos essa preocupação. Da mesma forma que a tecnologia nos apoia, ela nos afeta de alguma forma”.

Fabio Coelho, Presidente do Google Brasil

Fábio Coelho, CEO do Google Brasil: "Temos trabalhado em diferentes iniciativas para combater a disseminação de informações falsas" (Google/Reprodução)

Rastreabilidade de madeira ilegal 

De acordo com a The Nature Conservancy (TNC), empresas e consumidores vêm pressionando que carnes, soja e outras commodities sejam produzidas em áreas livres de desmatamento, mas a cobrança é relativamente menor quando se trata do setor madeireiro que conta com a venda irregular de madeira a baixo custo. Pensando nessa realidade, também foi anunciado o projeto Digitais da Floresta, em parceria com a TNC, a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e a Trase. O projeto tem como objetivo usar tecnologia de inteligência artificial para identificar e rastrear a origem da madeira comercializada na Amazônia – se é de origem autorizada ou ilegal.

A ação propõe que a identificação seja feita tendo como base a composição química e isotópica das árvores nativas. Frineia Rezende, diretora executiva da TNC Brasil, explica que é como se cada árvore tivesse uma “impressão digital”, tal qual a do ser humano. Mas no caso das árvores, essa digital conta com uma quantidade única de isótopos estáveis de carbono, oxigênio e nitrogênio – características que não permitem a falsificação. A flora tem uma composição semelhante ao local em que vivem, dependente da quantidade de solo e chuva disponíveis.

A primeira parte do projeto já está em curso com as frentes do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (CENA/USP) e da TNC, processando as amostras. Já foram processadas mais de 250 amostras de árvores nativas em 20 regiões, além disso, a iniciativa tem pretensões de se tornar uma plataforma de inteligência, disponível nos formatos de aplicativo e site. Para isso, o Google.org irá doar R$ 5,5 milhões à TNC, sendo 50% em dinheiro e os outros 50% restantes em créditos de divulgação. O Google também disponibilizará mais de 10 especialistas em machine learning, geolocalização e gerenciamento de projetos para atuarem diretamente com a TNC no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial para a plataforma. Essa parte terá duração de seis meses.

Já a segunda fase, que conta com o auxílio da Imaflora, será focada na construção de uma API aberta para que qualquer pessoa possa rastrear a origem geográfica da madeira. A criação da plataforma online, segundo a TNC, poderia reduzir as emissões do Brasil em 178 milhões de toneladas de gases de efeito estufa – correspondendo a 13% da meta brasileira de redução de emissões até 2030.

Apoio ao empreendedorismo de mulheres indígenas

Qual é o resultado do diálogo entre instituições e lideranças locais? A resposta para essa pergunta é a criação de um programa de apoio a empreendedoras indígenas. Chamado Fortalecimento e Protagonismo Empreendedor das Mulheres Indígenas do Amazonas, a iniciativa da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), tem como objetivos centrais a qualificação digital e o apoio financeiro a empreendimentos de indígenas que valorizam a economia sustentável no local. Agora, o projeto contará com uma doação de R$ 2,5 milhões por parte do Google.org, braço filantrópico da companhia, para apoiar o desenvolvimento da ação. O cronograma foi iniciado em fevereiro de 2023 e tem previsão de finalização para julho de 2024

A doação da empresa será usada na construção de três centros de inclusão digital, que fornecerão treinamentos em design de projetos, finanças, vendas e marketing digital para mulheres indígenas líderes de pequenas e médias empresa. Além disso, dinheiro ajudará no processo de incubação, financiamento e ampliação dos empreendimentos participantes.

O projeto também financiará o mapeamento de organizações indígenas formais ou informais lideradas por mulheres, e a identificação de investimentos em bioeconomia. O projeto irá selecionar até 5 organizações indígenas – independentemente do nível de formalidade – para receber apoio financeiro. É importante ressaltar que as metas da Fundação são adaptadas para o contexto amazônico e realidades das populações indígenas e ribeirinhas.

Combate à desinformação

O Pacto Global da ONU no Brasil, braço da ONU que congrega o setor empresarial, se juntou ao YouTube e selecionou ONGs, entre elas a TNC e o Idesam, para produzir conteúdo educacional e informativo sobre questões socioambientais, como as consequências das mudanças climáticas. Todo o material será publicado nos canais de YouTube das organizações.

Com isso, o YouTube pretende fomentar a produção de conteúdo de qualidade com fontes confiáveis. Segundo o Google, o Brasil é o primeiro país no mundo quando se trata do interesse de buscas sobre o tema ‘Amazônia’ no Youtube. Nos últimos 12 meses, as pesquisas sobre o assunto aumentaram 300%, de acordo com a instituição. Coelho comenta que o combate à desinformação exige inúmeras soluções:

“Temos trabalhado em diferentes iniciativas para combater a disseminação de informações falsas. Por exemplo, temos políticas rígidas em todos os nossos produtos, que aplicamos vigorosamente e revisamos constantemente. Também trabalhamos para que conteúdos de qualidade e confiáveis ganhem destaque nos nossos produtos. A parceria anunciada entre o YouTube e Pacto Global da ONU é um exemplo desses esforços. O objetivo é incentivar a produção de vídeos educativos por meio de fontes que têm autoridade no assunto, contribuindo para garantir que informações úteis e de qualidade cheguem até nossa comunidade”, afirmou Coelho.

Ainda segundo Fábio Coelho, CEO do Google Brasil, a importância de um evento como esse em Belém se dá na possibilidade de reforçar a contribuição do Google no Brasil e do Google global para a preservação ambiental, ao lado de parceiros, outras empresas, órgãos públicos, academia e ONGs criando, assim, uma solução para este grande desafio global. Com bilhões de pessoas usando os produtos e plataformas da marca, Coelho acredita que essa é uma posição única para ajudar. Segundo o executivo, através da colaboração é possível ir mais longe quando em direção a um futuro sustentável.

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