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Entenda como a participação russa interfere nas negociações da Guerra do Irã

Moscou tem intermediado conversas sobre paz; professor vê envolvimento militar como improvável

Donald Trump e Vladimir Putin têm se falado bastante desde o retorno do republicano à Casa Branca. O russo é peça chave no futuro do conflito com o Irã (Olga MALTSEVA and SAUL LOEB/AFP)

Donald Trump e Vladimir Putin têm se falado bastante desde o retorno do republicano à Casa Branca. O russo é peça chave no futuro do conflito com o Irã (Olga MALTSEVA and SAUL LOEB/AFP)

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Publicado em 9 de maio de 2026 às 01h25.

Última atualização em 9 de maio de 2026 às 01h42.

Entre os desdobramentos que a guerra no Irã tem levado aos analistas de política internacional, a entrada da Rússia no conflito demonstra a pretensão de Vladimir Putin estender a influência do Kremlin pela mediação exercida por seu corpo diplomático desde o final de abril.

Desde que retornou à cadeira da Casa Branca em janeiro de 2025, Donald Trump e Vladimir Putin conversaram por ligação 12 vezes, segundo a agência estatal russa TASS. Os dois líderes têm semelhanças: ambos operam dentro de uma lógica de poder pessoal e de desconfiança profunda das instituições multilaterais.

Segundo o ministro das relações exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, Moscou tem compartilhado informações preciosas para o Irã combater as ofensivas dos norte-americanos. Além disso, de acordo com o jornal inglês The Guardian, um funcionário de um governo europeu confirmou, em anonimato, que há indícios de que os russos estejam oferecendo drones, medicamentos e suprimentos ao Irã.

“Envolvimento militar direto russo no conflito iraniano é improvável e estrategicamente contraproducente para Moscou. A Rússia já está sobrecarregada na Ucrânia, com recursos humanos e materiais comprometidos há mais de quatro anos”, explicou o professor Lucas Leite, doutor em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado e pesquisador do INCT/INEU (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos).

“É uma conveniência geopolítica mútua. Trump vê Putin como um interlocutor que fala diretamente, sem o filtro burocrático da diplomacia tradicional que ele despreza. Putin, por sua vez, reconhece em Trump uma janela histórica para redefinir a arquitetura de segurança europeia sem enfrentar os EUA unificado e resoluto”, contou Lucas.

Segundo ele, a Rússia tem importância real, mas assimétrica, com acesso a canais que Washington não tem. Moscou conversa com Teerã, com os Houthis no Iêmen, com o Hezbollah via Síria, e mantém relações com atores que os EUA não podem contatar oficialmente. Para o pesquisador, as intenções russas no conflito do Irã são fundamentadas por três fatores principais:

  • Manter o Irã como parceiro funcional: Teerã forneceu drones Shahed em escala industrial para a campanha russa na Ucrânia, e perder esse fornecedor seria um golpe logístico

  • Posicionar-se como potência indispensável nas negociações, recuperando o protagonismo diplomático que as sanções e a guerra tentaram suprimir

  • Aprofundar o desgaste americano: quanto mais os EUA se enredam no Oriente Médio, menos capacidade política e militar têm para sustentar Kiev e reforçar o flanco leste da OTAN.

“A interferência russa em relação ao Irã é instrumental em relação à própria posição de Moscou no tabuleiro global”, completou.

De acordo com o especialista, a entrada russa na guerra como mediador nas negociações de paz pode, a longo prazo, minar a credibilidade da ordem unipolar americana ao demonstrar que Washington não consegue resolver crises simultâneas sem sua cooperação. Além de ter efeitos a médio e curto prazo para Moscou.

“No plano imediato, preservam o fornecimento iraniano de armamentos e componentes eletrônicos que sustentam a guerra na Ucrânia. No plano médio, constroem capital diplomático ao se apresentarem como mediadores responsáveis”, analisou.

A Rússia é um dos países mais politicamente ativos da região e mantém boas relações com a maioria dos seus vizinhos de fronteira e regimes autoritários, sendo esse o fator fundamental para a contribuição russa nos conflitos da região.

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