Pressão sobre peso cresce no governo Milei e investidores antecipam desafios após desvalorização

Enquanto a equipe econômica de Milei se prepara para uma reunião com representantes do FMI, o peso recua nos mercados

Milei: presidente implementou forte desvalorização do peso em sua primeira semana no cargo (JUAN MABROMATA/AFP)

Milei: presidente implementou forte desvalorização do peso em sua primeira semana no cargo (JUAN MABROMATA/AFP)

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Agência de notícias

Publicado em 5 de janeiro de 2024 às 12h16.

Última atualização em 8 de janeiro de 2024 às 16h53.

Investidores antecipam uma pressão crescente sobre a moeda argentina semanas depois de o novo presidente Javier Milei ter desvalorizado o peso em 54%, em um sinal de que o mercado está insatisfeito com as medidas iniciais.

Enquanto a equipe econômica de Milei se prepara para uma reunião com representantes do Fundo Monetário Internacional nesta sexta-feira com o objetivo de renegociar o programa de US$ 44 bilhões do país, o peso recua nos mercados paralelos usados para contornar os controles cambiais. Na última quinta-feira, a moeda atingiu uma nova mínima, com o risco de alimentar a inflação, já estimada em mais de 200% no mês passado.

Milei implementou uma forte desvalorização do peso em sua primeira semana no cargo e desmantelou os controles de preços de milhares de produtos, o que levou a reajustes. Apesar dessa alta, o banco central alterou sua ferramenta de referência para a política monetária na tentativa de reduzir os juros, efetivamente diminuindo as taxas de 133% para 100%, de modo a liberar pesos para os bancos locais e fortalecer a demanda por títulos do Tesouro.

Autoridades também continuaram a desvalorizar o peso — cujas flutuações estão sob seu controle — em 2% ao mês, uma taxa que, segundo analistas, não se sustentará por muito tempo, considerando o aumento dos preços dez vezes acima desse nível.

“A partir de meados de janeiro, as pressões começarão a aparecer no mercado cambial”, escreveu Adrian Yarde Buller, economista-chefe da Facimex em Buenos Aires, em nota aos clientes. “Acreditamos que a taxa contínua de 2% mensais proposta pelo banco central não é mais sustentável”, acrescentando que investidores tendem a “dolarizar os portfólios”.

Migração para o dólar

Alguns investidores locais já começam a migrar para o dólar. A taxa paralela desvalorizou pela quinta sessão consecutiva na quinta-feira, atingindo a marca de 1.070 pesos por dólar — a taxa oficial é de 811 pesos. A redução das taxas também teve um efeito indireto nos depósitos bancários de 30 dias, um dos instrumentos de poupança mais comuns na Argentina e que atualmente pagam juros de 186% ao ano. Como resultado, os argentinos têm retirado dinheiro de depósitos e transferido para suas contas-correntes, aumentando a liquidez em peso, o que também eleva a pressão sobre a moeda.

De acordo com dados do banco central até 27 de dezembro, os mais recentes disponíveis, os valores mantidos em contas-correntes e de poupança pelos argentinos cresceram 43% nos primeiros 17 dias do governo Milei, enquanto o dinheiro em depósitos em prazo fixo subiu apenas 3%.

“As pessoas não estão fazendo a rolagem de seus certificados de depósito, colocando-os em contas de liquidez imediata, encurtando o vencimento de suas poupanças”, disse Melina Eidner, economista da corretora local PPI, em entrevista por telefone. “A maior liquidez representa um risco para a inflação.”

Embora o FMI tenha elogiado as primeiras ações de Milei, as perdas iminentes do peso voltam a trazer à tona os debates sobre a política monetária, que foram o calcanhar de aquiles da saga mais recente do país com o órgão financeiro, iniciada em 2018.

Exportadores e importadores, amplamente atados à taxa de câmbio oficial, também começam a prever uma nova desvalorização da moeda. Exportadores venderam, em média, US$ 147 milhões por dia nesta semana, 40% menos do que nas primeiras três semanas do governo Milei. Importadores também têm evitado repetidamente leilões de títulos do governo com o objetivo de ajudá-los a liquidar dívidas com fornecedores no exterior.

Isso representa uma grande mudança de tom em relação às duas primeiras semanas do governo Milei, marcadas por uma valorização dos títulos soberanos e pela calma nos mercados cambiais. A diferença entre as taxas de câmbio diminuiu muito, os títulos subiram para as máximas em dois anos e o governo conseguiu realizar uma venda recorde de dívida em pesos.

O banco central aproveitou a tranquilidade e aumentou suas reservas externas em US$ 3 bilhões — um alívio para um país com cerca de US$ 1 bilhão em pagamentos de juros devidos a detentores de títulos na próxima semana —, embora seus passivos ainda superem o dinheiro disponível.

“O peso paralelo vai se enfraquecer novamente nos próximos meses”, disse Mateo Reschini, estrategista sênior de portfólio local da Inviu. “O banco central terá de fazer outra desvalorização acentuada do peso quando quiser sair das restrições cambiais. E isso, sem dúvida, terá um impacto na inflação”.

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