Qual é a importância da cultura para a economia brasileira?

Ministro crê em "conscientização de que, em vez de se cortar recursos da Cultura em um momento de crise, é importante fazer o contrário”
 (Irene Nóbrega/Flickr)
(Irene Nóbrega/Flickr)
J
João Pedro Caleiro

Publicado em 05/04/2017 às 20:00.

Última atualização em 05/04/2017 às 20:31.

São Paulo – Uma nova iniciativa do governo pretende estimar o tamanho do “PIB da Cultura”.

O Ministério da Cultura lançou hoje em São Paulo os dois primeiros volumes de um Atlas que terá seis volumes, com conclusão prevista para abril de 2018.

“Cada vez mais a cultura vai ser central na formação da economia e desse mundo do futuro”, disse o ministro da Cultura, Roberto Freire, no evento.

Hoje nem tudo da economia criativa é medido, e os cálculos que acontecem usam fontes e metodologias diferentes, que agora devem ser harmonizados.

A grosso modo, o que o governo vai fazer é identificar o valor adicionado, consumo, exportações e importações do setor e colocar em uma Conta Satélite para a cultura – algo que já é feito para turismo e saúde, por exemplo.

O Banco Mundial estima que a cadeia produtiva da cultura foi responsável por 7% do PIB do planeta em 2008.

Segundo dados de 2016 da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN), esse número no Brasil é de aproximadamente 2,64% do PIB, com um crescimento acumulado de quase 70% nos últimos 10 anos.

“O Atlas vai mostrar o quanto do que se produz de riqueza vem da área cultural, o que levará à conscientização do Governo de que, em vez de se cortar recursos da Cultura em um momento de crise, é importante fazer o contrário: investir em Cultura para movimentar a economia e fazê-la crescer”, explica nota do ministro.

De acordo com o Atlas, a pioneira no estudo da economia criativa foi a Austrália, em 1994.

Hoje, 21 países já tem um sistema que mede o impacto da Cultura no PIB, entre eles 7 da América do Sul (Chile, Uruguai, Argentina, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia – a principal referência).

A definição não é fácil. Um dos modelos é de círculos concêntricos: no meio ficariam as atividades criativas mais puras (artes visuais e literatura, etc) que se diluem na medida em que se misturam com as atividades na sua órbita (o negócio dos museus ou da publicação, por exemplo).

A World Intellectual Property Organization (Wipo) foca, naturalmente, naquilo que gera direitos autorais.

No Reino Unido, pioneiro na criação de políticas próprias para economia criativa em 1997 no governo de Tony Blair, o foco é em indústrias onde passa de 30% a proporção de trabalhadores criativos sobre o total de empregados.

"Não há modelo certo ou errado das indústrias criativas, simplesmente maneiras diferentes de interpretar as características estruturantes da produção criativa”, diz um artigo do Atlas assinado pelos pesquisadores João Maria de Oliveira, Bruno Cesar Pino Oliveira de Araujo e Leandro Valério Silva.

A publicação usou como referência um modelo da Unesco e definiu cultura como aquilo que produz “conteúdos simbólicos”.

Entram na conta serviços de arquitetura, design, gestão cultural, parques de diversão e ensino de línguas junto com atividades artísticas como música e teatro.

Dois setores já apresentam dados mais consolidados. Um deles é o audiovisual, responsável por 0,44% do valor agregado da economia brasileira, e que tem experimentado crescimento expressivo.

Parte disso ocorreu pelo aumento dos recursos públicos federais ao setor, que mais que dobraram entre 2009 e 2014 (de R$ 149,1 milhões para R$ 356 milhões).

O número de estabelecimentos de produção e pós-produção, por exemplo, foi de 1.091, em 2007, para 2.495 em 2014.

Já o número de salas de exibição no país passou de 2.110, em 2009, para cerca de 3.005, em 2015. O público total também cresceu: 53% de 2009 a 2015.

Mas a concentração é forte: São Paulo e Rio de Janeiro somavam, juntos, 41,7% dos estabelecimentos, 52,9% dos empregos, e 70,4% da massa salarial do setor em 2014.

Outro mercado grande é o editorial, estimado em R$ 5,4 bilhões, o que faz dele um dos 10 maiores do mundo, segundo pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) de 2014.

Além do desafio das mudanças tecnológicas, como a ascensão dos livros digitais, esse mercado também precisa lidar com formação de público.

Uma pesquisa de 2011 apontou que apenas 50% dos brasileiros podem ser considerados leitores. Em 2007, esse número era de 55%.