Economia

Importação de aço chinês bate recorde na América Latina e cresce pressão do setor por tarifas

Em 2023, foram 10 milhões de toneladas exportados da China para a região. Há 20 anos, volume era de apenas 85 mil. Setor gera muito empregos no Chile, no México e no Brasil

Aço da China: no ano passado, foram 10 milhões de toneladas exportados da China para a região (Oliver Bunic/Bloomberg/Getty Images)

Aço da China: no ano passado, foram 10 milhões de toneladas exportados da China para a região (Oliver Bunic/Bloomberg/Getty Images)

AFP
AFP

Agência de notícias

Publicado em 18 de abril de 2024 às 12h51.

Dez milhões de toneladas de aço chinês entraram na América Latina no ano passado, um recorde que ameaça a indústria siderúrgica regional.

— Fechar Huachipato seria uma bomba atômica — diz Carlos Ramirez, funcionário da principal usina siderúrgica do Chile, que está sofrendo com a concorrência feroz da China.

A Huachipato, em Talcahuano, a 500 quilômetros ao sul de Santiago, anunciou a suspensão gradual das operações, sobrecarregada pela avalanche de aço chinês que está inundando os mercados e é vendido no Chile 40% mais barato do que o aço local.

A interrupção das atividades ocorre num momento em que o governo chileno avalia uma petição para impor uma taxa de 25% sobre as importações de aço. Se as operações na fábrica forem suspensas, estarão ameaçados 2.700 empregos diretos e 20 mil indiretos.

No Brasil, o maior produtor de aço da região, também há preocupação. No ano passado, as importações da China aumentaram 50% e a produção caiu 6,5%, de acordo com o Instituto Aço Brasil.

A Gerdau, uma das maiores siderúrgicas do país, já demitiu 700 trabalhadores. Os últimos, em fevereiro, deixaram a usina de Pindamonhangaba, em São Paulo, devido ao "cenário desafiador enfrentado pelo mercado brasileiro diante das condições predatórias das importações chinesas de aço ", informou a empresa, que não quis responder às perguntas da AFP.

Devido à forte concorrência da China, a Gerdau decidiu colocar funcionários da sua fábrica em São José dos Campos em layoff (suspensão temporária do contrato de trabalho ou tempo de inatividade) por cinco meses, a partir deste mês.

As siderúrgicas brasileiras também estão exigindo uma tarifa de 25%, como a imposta pelo México sobre 205 tipos de produtos siderúrgicos, alinhando suas tarifas com as dos Estados Unidos, seu principal parceiro comercial.

No México, o aço é responsável por 1,4% do PIB e gera 700 mil empregos. De acordo com dados oficiais, 77,5% das exportações vão para os Estados Unidos.

O governo americano, que anunciou nesta quarta-feira que vai encaminhar um pedido de aplicação de sobretaxa sobre o aço chinês, quer coibir as brechas para que o produto da China entre no mercado americano via uma triangulação com o México.

China está 'presente demais'

Nas últimas duas décadas, a China aumentou sua participação no mercado mundial de aço de 15% para 54%, de acordo com a Associação Latino-Americana de Aço (Alacero).

Na América Latina, as importações cresceram em um recorde de 44% em 2023, para mais de 10 milhões de toneladas. Duas décadas atrás, a China exportava apenas 85 mil toneladas de aço.

— A China está muito presente na América Latina — lamenta Alejandro Wagner, diretor executivo da Alacero. — Ninguém é contra o comércio entre países, mas sempre falamos de comércio justo.

As preocupações com o excesso de capacidade da indústria siderúrgica chinesa cresceram nos últimos anos, devido à crise no setor de construção civil do país, que reduziu sua demanda por aço.

Em uma recente visita à China, a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, expressou preocupação com o "excesso" de produção chinesa e disse que os Estados Unidos "não aceitarão" que o mundo seja inundado por produtos do país vendidos abaixo do custo. Em 2018, os EUA impuseram uma tarifa adicional de 25% sobre o aço chinês.

Doloroso 'terremoto social'

O fechamento do Huachipato, de propriedade do grupo privado CAP, seria um duro golpe para Talcahuano, um porto do sul do Chile, onde o Huachipato tem sido o principal pilar há 70 anos e onde desempenha um importante papel social. O clube de futebol Huachipato, atual campeão chileno, nasceu sob suas asas.

Carlos Ramirez está envolvido com a empresa desde criança. Primeiro como jogador nas divisões inferiores, depois como profissional e, quando se aposentou do esporte, como diretor de um dos sindicatos da empresa.

— O que estamos passando é muito doloroso — disse o homem de 56 anos, que viajou a Santiago com outros líderes para expor o "terremoto social" que se aproxima.

Em último esforço para se manter à tona — após perdas de mais de US$ 1 bilhão desde 2009 — Huachipato solicitou à Comissão Antidistorção do Chile uma tarifa de 25% sobre o aço importado.

A Comissão encontrou "provas suficientes para apoiar a existência de dumping" — venda de um produto abaixo do custo — por parte da China e recomendou uma taxa de 15%, considerada "insuficiente" por Huachipato.

— Não estamos pedindo subsídios ou resgates. A Huachipato tem a capacidade de ser lucrativa em um ambiente competitivo — disse seu gerente, Jean Paul Sauré.

Para o governo do esquerdista Gabriel Boric, a Huachipato é uma empresa estratégica, especializada em insumos essenciais para a mineração: barras e esferas de aço para moagem de cobre, do qual o Chile é o maior produtor mundial.

Durante a pandemia, quando o comércio mundial foi interrompido, "foi a Huachipato que manteve o fornecimento de aço do país", disse o ministro da Economia, Nicolás Grau.

A decisão de impor medidas de proteção não é fácil. O Chile assinou um Tratado de Livre Comércio com a China em 2006, o que o expõe a possíveis retaliações comerciais.

Na América Latina, o aço gera 1,4 milhão de empregos, que são altamente especializados e de difícil reconversão.

O impacto a curto prazo na região dependerá da adoção de medidas pela China para reduzir seu excesso de produção e, em nível local, de iniciativas para restringir a entrada de aço, disse José Manuel Salazar-Xirinachs, secretário executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Acompanhe tudo sobre:América LatinaacoChinaMetais

Mais de Economia

Análise: após ata do Copom, apostas migram para fim do ciclo de cortes entre 10% e 10,5% ao ano

Haddad diz que racha no Copom tinha mais rumor do que verdade: ‘Está tudo tranquilo lá’

Dilma anuncia liberação de R$ 5,750 bilhões do banco dos Brics para o RS

PPI dos EUA sobe 0,5% em abril ante março, superando previsão

Mais na Exame