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25% dos brasileiros acham que o desemprego é o maior problema do país

Pesquisa EXAME/IDEIA aponta que o desemprego de quase 14 milhões de brasileiros é o motivo de maior apreensão da população

 (Amanda Perobelli/Reuters)

(Amanda Perobelli/Reuters)

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Gilson Garrett Jr

11 de março de 2022, 11h15

Amabily Raissa Pereira dos Santos, de 20 anos, moradora da favela Marte, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, é uma das quase 14 milhões de pessoas que estão desempregadas no Brasil. O número, frio, não mostra que boa parte dessa população é exatamente como ela: mulher, jovem e que vive na periferia. Amabily Raissa, que sonha em ser médica veterinária, faz cursos gratuitos de capacitação com o auxílio das ONGs Gerando Falcões e Valquírias World, com o objetivo de mudar essa que é uma das suas maiores preocupações.

Ao lado da moradora de São José do Rio Preto está um quarto da população do país. A falta de um posto de trabalho formal é o maior problema do Brasil, na opinião de 25% dos brasileiros, segundo a mais recente pesquisa EXAME/IDEIA. A falta de saúde vem logo em seguida, com 18%, seguido de inflação, com 17% das pessoas que dizem ser o principal problema.

Os números fazem parte da sondagem que ouviu 1.500 pessoas entre os dias 18 e 22 de fevereiro. As entrevistas foram feitas por telefone, com ligações tanto para fixos residenciais quanto para celulares. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral com o número BR-05955/2022. A pesquisa EXAME/IDEIA é um projeto que une EXAME e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública. Leia o relatório completo aqui. 

(Arte/Exame)

Em todas as regiões do país, a percepção de que a falta de empregos é o principal problema do Brasil está na casa dos 20%, número similar ao geral. O cenário muda de figura quando se analisa por classe econômica. Entre as pessoas que estão na faixa A e B, o desemprego é o maior problema para 38% dos entrevistados. Nas classes D e E, este número cai para 6%. Entre os mais pobres, a falta de saúde é a maior queixa, com 48%.

(Arte/Exame)

O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), explica que antes de se preocupar com o emprego, a população mais vulnerável, sobretudo as que vivem nas periferias das grandes cidades, dão mais atenção a problemas relacionados a saúde e a fome. “A pessoa só vai arrumar emprego com um mínimo de vida saudável”, diz.

Outro ponto apontado pelo economista Renan Pieri, professor da Fundação Getúlio Vargas, é que a taxa de desemprego está estagnada no mesmo patamar desde 2015. E isso tem relação direta com o crescimento do país. "O Produto Interno Bruto é baseado no consumo, que depende do nível de renda e emprego. Sem trabalho, as pessoas compram menos", afirma. 

6ª maior taxa de desemprego do mundo

No último dado divulgado pelo IBGE na semana passada, a taxa de desemprego no Brasil caiu para 11,1% no quarto trimestre de 2021. Isso representa um recuo de 1,5 ponto percentual na comparação com o trimestre anterior.

Com 13,9 milhões de pessoas sem um trabalho de carteira assinada, o Brasil tem a sexta maior taxa de desemprego do mundo, segundo um ranking elaborado pela agência de classificação de risco Austin Rating. O levantamento é feito com dados de 42 países que divulgaram informações sobre o último mês de 2021.

Na lista, a Costa Rica aparece em primeiro lugar, com uma taxa de 15,6%, seguido de Espanha (13%), Grécia (12,7%), Colômbia (12,6%), e Turquia (11,2%). Os Estados Unidos ocupam a 32ª posição, com 3,9%, graças à criação de 467 mil vagas de emprego em janeiro, superando as expectativas dos analistas. Entre as sete maiores economias do mundo, o desemprego é de 4,3%

(Arte/Exame)

Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, esta alta taxa de desemprego pode ter consequências para o futuro. Isso porque o Brasil não está aproveitando o chamado bônus demográfico, quando há uma vantagem numérica de população economicamente ativa, em relação a idosos.

“Esse é um problema central do desemprego porque todos os países que enriqueceram aproveitaram o bônus demográfico. No Brasil, ficamos com uma alta taxa de desemprego nos últimos 12 anos. É uma década perdida. Começamos o bônus na década de 1970 e temos mais 10 ou 15 anos, no máximo. Se não enriquecermos neste período, pode ser que isso não ocorra nunca mais”, afirma.

José Eustáquio ainda lembra que além dos desempregados, há um número de 30 milhões de pessoas que estão na categoria de subutilização, aqueles que não estão ocupados ou nem estão procurando emprego. “É como se estivéssemos jogando fora uma força de trabalho equivalente à Espanha e Portugal juntos”, explica.

O economia Renan Pieri diz que uma política pública para estimular essas pessoas, sobretudo jovens, a entrarem no mercado de trabalho passa pela educação. Ele lembra que há setores, com o de tecnologia, em que há falta de mão de obra qualificada. Com uma capacitação ampla, o país aproveitaria esta força de trabalho para enriquecer.

Outras iniciativas evolvem também as organizações não governamentais. Um exemplo disso é um pacto firmado, na semana passada, entre as ONGs Gerando Falcões e Valquírias World com cerca de 150 empresários da região São José do Rio Preto. A meta estabelecida pelo grupo é empregar mais de 120 moradores da favela Marte. Apenas com esta ação, a estimativa é gerar 2 milhões de reis em renda por ano.

Influência nas eleições

O desemprego alto deve ter impacto direto nas eleições presidenciais deste ano. Questionado pela pesquisa EXAME/IDEIA qual deveria ser a prioridade do próximo ocupante do Palácio do Planalto, dois terços dos brasileiros dizem que é melhorar a saúde, criar mais empregos e investir mais em educação (nesta questão era possível dar mais de uma resposta).

(Arte/Exame)

Maurício Moura, fundador do IDEIA, explica que a população tende a culpar o governo federal por problemas nestas três áreas. “Para a opinião pública, o governo federal tem responsabilidade sobre a economia, para o bem e para o mal. E como temos percepção de que inflação e desemprego são temas muito urgentes e presentes, isso reflete na avaliação do governo”, diz.

A desaprovação de Bolsonaro chega a 50%, uma das mais altas da série histórica, desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019, mas inferior em relação à última pesquisa, quando 55% de brasileiros não aprovavam a maneira como Bolsonaro governa.

Em um eventual primeiro turno, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a corrida ao Palácio do Planalto, com  42% das intenções de voto, segundo EXAME/IDEIA. O presidente Jair Bolsonaro (PL) está em segundo lugar, com 27%, seguido de Sergio Moro (Podemos), com 10%, e Ciro Gomes (PDT), com 8%.