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João Marco Braga da Cunha: criptomoedas, a hora da pancada

Gestor de portfólio da Hashdex rebate comentários de ex-presidente do Banco Central sobre criptoativos: "conclusões fantasiosas e depreciativas"

Criptomoedas:  (Julia Trokur/Shutterstock)
Criptomoedas: (Julia Trokur/Shutterstock)
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João Marco Braga da Cunha

Publicado em 18 de fevereiro de 2022 às, 11h50.

Gustavo Loyola é um dos grandes economistas brasileiros de sua geração, tendo chegado à presidência do nosso Banco Central em duas ocasiões e com brilhante carreira, também, no setor privado. No último dia 15, em artigo no Valor, ele falou sobre criptoativos. Falou mal, tanto no sentido de que menosprezou os ativos digitais, quanto no sentido de que a qualidade dos seus argumentos deixou a desejar.

Desde 2018, venho escrevendo artigos sobre criptoativos, em diversos veículos, desmistificando muitos dos pontos levantados por Loyola. Com o devido respeito que ele merece, gostaria de revisitar alguns dos contrapontos e complementá-los com argumentos novos, seguindo a ordem do artigo do ex-presidente do BC.

No segundo parágrafo, Loyola alega que existe algo proposital por parte daqueles que chamam os criptoativos de criptomoedas. É difícil verificar tal afirmação. Porém, parece mais plausível que a confusão entre os termos criptoativos e criptomoedas deva-se ao fato de o primeiro e maior criptoativo, o bitcoin, ter sido criado para ser um meio de pagamento digital semelhante a uma moeda. Porém, esse é apenas um dos usos possíveis da tecnologia, e o termo criptoativo representa muito mais fielmente essa diversidade.

Em seguida, há uma menção vaga a “ofertas de produtos cada vez mais complexos, mirabolantes e opacos” associados aos criptoativos no mercado financeiro. Internacionalmente, o que se vê é exatamente o contrário. Os produtos financeiros oferecidos, como fundos de investimentos, ETFs e contratos futuros, tornaram o acesso ao investimento em criptoativos extremamente mais simples, seguro e transparente. O autor continua com “beneficiando-se (…) da lerdeza dos governos em regular a emissão e a negociação dessa categoria de ativos“. A emissão de criptoativos é irregulável do ponto de vista prático, pois trata-se, somente, de um tipo específico de código de computador. Já no caso da negociação, temos muitos exemplos de regulação ao redor do mundo. No estado de Nova York, por exemplo, a licença necessária para transacionar criptoativos existe desde 2014.

No parágrafo seguinte, Loyola fala sobre a “atraente narrativa” de que o bitcoin poderia substituir as moedas nacionais nas funções de “meio de troca, reserva de valor e unidade de conta”. Desde 2017, a comunidade do bitcoin decidiu privilegiar a função de reserva de valor em detrimento da função de meio de pagamento. Ou seja, a ideia é que o bitcoin seja como um ouro digital, e não como um dólar ou outro meio de pagamento. Como unidade de conta, o bitcoin funciona bem dentro da chamada “criptoeconomia” (serviços prestados através de blockchains), na qual os preços em bitcoin são significativamente mais estáveis do que em dólar. Para a economia real, os criptoativos ainda são uma péssima unidade de conta apesar de que, com o passar do tempo, seus preços têm se tornado mais estáveis.

O quarto e quinto parágrafos são uma tentativa de desconstruir a “atraente narrativa”, com algumas ilações fantasiosas e depreciativas a respeito da comunidade de criptoativos (simbolicamente falando, dada a natureza descentralizada e anônima da tecnologia). Além de focar na função de moeda, que, talvez, seja a menos interessante dentre as possíveis, Loyola parece superestimar a capacidade que os governos teriam de regular os criptoativos propriamente ditos.

A Deep Web é um exemplo de como o universo digital consegue escapar do alcance dos governos. Sou capaz de apostar que, mesmo na China, onde o governo controla a internet e proibiu os criptoativos, seguem acontecendo transações com os tais ativos. E, em relação às atividades periféricas e negócios reais constituídos com foco no segmento de criptoativos como mineração, negociação, custódia e gestão de ativos, estes já são regulados (e tributados) em boa parte do mundo.

Jamais conheci alguém do mercado de criptoativos que acreditasse que essas e outras atividades não seriam reguladas ou que o sucesso dos criptoativos dependesse da falta de regulação. Pelo contrário, a enorme maioria acredita que uma boa regulação é o caminho para a adoção em massa dessa tecnologia. É ingenuidade achar que os cypherpunks são maioria na comunidade de criptoativos nos dias de hoja.

No sexto parágrafo, o autor fala das CBDCs, moedas digitais emitidas por bancos centrais, como uma iniciativa governamental que tiraria o espaço das “moedas digitais privadas”. Ele ignora o fato de que, em essência, criptoativos e CBDCs são opostos no que diz respeito a centralização, resistência a confisco, anonimato, etc. As CBDCs não atrapalharão em nada o caminho dos criptoativos.

No parágrafo seguinte, Loyola repete a velha história de que os criptoativos são facilitadores de atividades criminosas e lavagem de dinheiro. Inegavelmente, há operações escusas envolvendo criptoativos. Entretanto, estudos que mapeiam todas as transações da rede do bitcoin mostram que apenas uma pequena fração envolve carteiras suspeitas.

Um possível risco sistêmico causado pelos criptoativos é o foco do oitavo parágrafo. Apesar de serem substancialmente mais voláteis que os ativos tradicionais, os criptoativos somam poucos trilhões de dólares em capitalização de mercado, uma parcela ínfima do total do mercado de ativos. O rabo não balança o elefante, não importa o quão agitado ele esteja. Além disso, os mercados tradicionais não aceitam criptoativos como colateral, o que limita o potencial de efeito dominó em caso de estresse dos ativos digitais.

Loyola acerta, no nono parágrafo, ao pontuar o fato de que os criptoativos têm apresentado correlações mais altas com os ativos tradicionais do que as observadas no passado. Porém, tirando o foco dos retornos diários e olhando para os grandes movimentos, a pior queda de 2021 foi acarretada pelo banimento da mineração na China, e o maior rali veio após a aprovação dos ETFs de futuros de bitcoin nos EUA. Ambos os eventos tiveram impactos negligenciáveis sobre os mercados tradicionais.

O autor abre o parágrafo derradeiro afirmando que “não há como se colocar o gênio de volta para dentro da garrafa” e fala sobre um “alerta urgente para os reguladores”. Os reguladores ao redor do mundo estão bastante antenados nos desenvolvimentos do mercado de criptoativos e o Brasil não é uma exceção. Não é por outro motivo que notícias referentes à regulação são bastante comuns nos veículos especializados em cripto e, por vezes, explicam grandes movimentos de preços.

“Levei muita pancada”, disse Loyola ao relembrar sua demissão do Banco Central. O bitcoin e demais criptoativos vêm levando pancadas de economistas renomados há muitos anos, especialmente em ocasiões de forte queda de preço. Após cada evento desses, os criptoativos retornam fortalecidos. Não será diferente com a queda atual. Como Rocky Balboa vaticinou, “não se trata de bater duro, se trata do quanto você consegue apanhar e seguir em frente. (...) É assim que se consegue vencer”.

Antes de encerrar, gostaria de convidar os leitores a mergulharem nessas questões, aqui apresentadas superficialmente devido à limitação de espaço, através de artigos meus e de outros autores, economistas ou não, que dedicamos a maior parte do tempo a entender o mercado e a tecnologia dos criptoativos.

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