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Novas gerações estão transformando o mercado imobiliário

Com estilo de vida mais equilibrado, engajado e sustentável, millenials e Gen Z devem ditar tendências do setor pelos próximos anos

É preciso atualizar continuamente a lista de atrativos dos empreendimentos, tendo em vista esse novo consumidor que trabalha mais de casa, consome menos, não se desloca de automóvel (Google Maps/Reprodução/Reprodução)
É preciso atualizar continuamente a lista de atrativos dos empreendimentos, tendo em vista esse novo consumidor que trabalha mais de casa, consome menos, não se desloca de automóvel (Google Maps/Reprodução/Reprodução)

MARCELO DADIAN*

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.”O verso imortal de Camões pode ser lido como expressão de um conflito geracional que marca todas as épocas. Os mais novos têm preferências, ambições, objetivos de vida, valores e modelos de felicidade diferentes daqueles de seus pais, e é esse movimento permanente de renovação que mantém as sociedades e as culturas vivas, além de garantir à humanidade a chance de corrigir erros do passado, ou de se adaptar a desafios inexistentes há uma ou duas gerações.

Vivemos um desses períodos de transição entre dois “tempos”. Pesquisa atrás de pesquisa confirma que as novas gerações têm preocupações e desejos próprios. Uma das mais recentes, a Millennial & Gen Z Survey 2023, da Deloitte, apontou, por exemplo, que construir uma relação mais equilibrada entre vida pessoal e trabalho é visto como prioridade.

A própria definição de “trabalho” vem sendo repensada: dentre os mais de 22 mil jovens ouvidos, 75% dos millenials (nascidos entre 1983 e 1994) e 77% dos geração Z (nascidos entre 1995 e 2003) que hoje trabalham remotamente ou em esquema híbrido afirmam que buscariam um novo emprego caso fossem obrigados a trabalhar presencialmente todos os dias.

A pesquisa ainda aponta um crescimento na preocupação com a crise climática. Embora fatores financeiros sejam primordiais, seis em cada dez dos entrevistados se dispõem a pagar mais por um produto ou serviço sustentável. Há também fortes sinalizações de que hábitos mudarão pelos próximos anos: 33% dos millenials e 35% dos geração Z não dirigem, e outros 26% de cada faixa pretende abandonar o carro no futuro próximo; 44% e 41%, respectivamente, querem comprar um carro elétrico; e mais de 40% de ambos os grupos pretendem tornar o consumo de energia em suas casas mais eficiente.

O mercado imobiliário não pode ficar indiferente a esse realinhamento de expectativas. É preciso atualizar continuamente a lista de atrativos dos empreendimentos, tendo em vista esse novo consumidor que trabalha mais de casa, consome menos, não se desloca de automóvel ou possui um carro elétrico e valoriza mais seu tempo de lazer. Mas, sobretudo, é preciso “falar a sua língua”, compreender verdadeiramente suas prioridades.

Gosto muito de uma expressão usada por Kristina Rogers, executiva da Ernst & Young, para definir esse novo consumidor: alguém que “quer menos, mas exige mais”. Cai a importância do acúmulo de bens e riquezas, cresce a preocupação com a qualidade e o grau de personalização dos serviços. Essa ideia sintetiza bem o desafio dos corretores imobiliários, que precisam se ajustar a um público que pesquisa, escolhe e adquire imóveis de um jeito diferente.

Esse é um movimento que já está ocorrendo, mas seu ritmo precisa ser acelerado. Millenials e Gen Z são justamente os grupos que mais entrarão no mercado imobiliário nos próximos anos, seja porque conseguiram construir riqueza, seja porque irão herdar o patrimônio adquirido por seus pais e familiares. É crucial que essas gerações encontrem um mercado que saiba acolher suas expectativas ou, dito de outro modo, que conheça bem sua lista de prioridades.

O desafio não vale só para os profissionais da linha de frente, mas também para o mercado como um todo. Estima-se que o setor imobiliário seja responsável por 42% das emissões globais de carbono, segundo a ONG Architecture 2030, graças à cadeia produtiva de materiais como o concreto e ao consumo energético de equipamentos prediais como elevadores, aquecedores e ares-condicionados. Nesse contexto, construções que utilizam materiais sustentáveis, que captam energia solar e que investem em equipamentos mais verdes devem se diferenciar.

No ambiente corporativo, nas relações de consumo ou na agenda climática, os tempos já mudaram. As novas gerações parecem ter uma atitude nova perante o mundo, uma atitude mais sustentável e socialmente responsável, algo bem sintetizado por siglas como ESG, que vieram para ficar. Agora é preciso que o mercado imobiliário também se atualize, para que seja capaz de atender às novas vontades que acompanham essa transformação global.

*Marcelo Dadian é VP de Novos Negócios e Incorporadoras do Grupo OLX