Um marco no tempo para lembrarmos da urgência de um novo pacto coletivo

Até que o mês da luta pelos direitos das mulheres seja só uma celebração, precisamos agregar aos símbolos a urgência para um novo pacto coletivo
 (Ponomariova_Maria/Getty Images)
(Ponomariova_Maria/Getty Images)
Por Daniela GrelinPublicado em 18/03/2022 14:50 | Última atualização em 18/03/2022 14:50Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Por Daniela Grelin*

Dois símbolos, poderosamente justapostos nesta semana, nos convocam à urgência de um novo pacto pela vida. No mês em que comemoramos o Dia Internacional da Luta pelos Direitos da Mulher, nos deparamos com as imagens pungentes do ataque ao hospital infantil e maternidade em Mariupol, durante a vigência de um cessar fogo na invasão da Ucrânia pela Rússia.

As violações aos direitos humanos em mais uma guerra com consequências globais na mesma semana em que o mundo observa um símbolo de reconhecimento, reflexão e engajamento pela valorização da vida das mulheres, nos interpela com algumas questões:

Como podemos nos apropriar da parcela que nos cabe na tarefa de resgatar uma sociedade mais humana, mais equilibrada e movida por propósitos comuns?

Como nos conectarmos a outras instituições, em arranjos inovadores e movimentos, criando inovação e influência em uma escala que nenhum de nós poderia alcançar sozinho?

Um aspecto específico me chama atenção na invasão russa à Ucrânia, em meio a tantas notícias e imagens estarrecedoras das últimas três semanas: a entrada das marcas na arena do conflito.

Dentre as muitas reações subestimadas que se manifestam como barreiras entre o projeto de expansão imperialista do Presidente Putin e a realidade, uma delas é a mobilização de poderosas empresas globais como atores relevantes que se somam às sanções econômicas para tornar o custo econômico, social e reputacional da guerra ainda mais insustentável.

Gigantes dos mais diversos setores se posicionaram prontamente desmobilizando cadeias de valor inteiras, críticas para o funcionamento de diversos setores econômicos do país invasor. A título de exemplo, apenas no setor de transporte aéreo, Boeing, Airbus e Embraer suspenderam serviços de manutenção e fornecimento de peças deflagrando a contagem regressiva para uma possível paralização de boa parte do transporte aéreo de passageiros civis no país.

Movimentos análogos em diversos outros setores – tecnologia, alimentação, etc – vão criando múltiplas frentes de desestabilização, tornando cada vez mais difícil a sustentação política, econômica e social das ambições fadadas ao revés de um líder abertamente hostil aos direitos humanos.

As marcas de fato têm se apropriado cada vez mais do protagonismo na busca de soluções e arranjos inovadores (movimentos, coalizões, alianças) para problemas que ameaçam a nossa existência – mudanças climáticas, ataques à democracia e inequidades sociais.

Seja por uma questão de proteção e resgate de condições mínimas para o funcionamento de uma sociedade próspera – justiça social, democracia e consciência ambiental – seja pela apropriação de oportunidades de negócio ou mesmo pela necessidade de salvaguardar a licença social para operar, a miopia social pode se tornar um revés incontornável na arena dos negócios.

No Brasil, o protagonismo das marcas se manifesta em múltiplos palcos e articulações. No dia 09 de março, na Câmara dos Deputados, um Ato Público pela Ratificação da Convenção 190, tratado internacional da OIT que propõe definições, diretrizes e responsabilidades para a erradicação do assédio e violência no ambiente de trabalho conseguiu reunir marcas protagonistas, lideranças políticas, sindicais e do sistema de justiça exemplificando mais uma dessas instâncias que nos fazem acreditar que existem, de fato, pontos de luz em um cenário tão turbulento.

Naquele dia intenso de múltiplas manifestações na casa do povo, reuniram-se, movidos por um propósito comum, grupos de interesse que nem sempre ocupam o mesmo lado da arena: o Ministério Público do Trabalho, parlamentares, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, a Organização Internacional do Trabalho e a Coalizão Empresarial pelo Fim da Violência contra a Mulher, representada no ato pelo Instituto Avon, Avon, Instituto Nelson Williams, Fundação Dom Cabral e Accor Hotéis.

Quando o setor privado se manifesta publicamente propondo compromissos coletivos e exortando o poder executivo a tomar medidas concretas pela justiça social, ele confirma, conforme pesquisa da Edelman[1],  as expectativas de 86% das pessoas, que esperam que seus CEO’s tomem a liderança em questões ambientais e de justiça social, tornando-se indutores de novos pactos coletivos. Eis um motivo para celebrar o Dia Internacional da Luta pelos Direitos das Mulheres.


[1] A new Mandate to Lead in An Age of Anxiety”, Edelman. http://www.edelman.com/trust/2021-trust-barometer/insights/age-of-anxiety.

*Daniela Grelin é diretora executiva do Instituto Avon.