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Vacina, economia e a ética

“Com o início da vacinação, temos mais uma vez episódios de afronta à ética, com poderosos furando a fila e idosos sendo enganados com vacina de vento”

No início da pandemia ninguém tinha ideia sobre a extensão que essa contaminação pela Covid-19 teria. Imaginávamos que, como ocorrera com outras epidemias, não haveria consequências muito profundas e que logo seriam identificados seus limites.

Entretanto, a situação tomou um rumo assustador, com o crescimento geométrico de doentes e mortes, afetando duramente a saúde e a economia mundial. As difíceis e necessárias medidas indicadas pela ciência foram adotadas, determinando o isolamento, o uso de máscara e a higiene constante das mãos como as únicas ações capazes de mitigar os riscos.

A saúde de todos, como deve ser, foi a prioridade, e governantes de todo o mundo, com pontuais exceções negacionistas, assumiram posturas inéditas de lockdown com forte impacto na economia, afetando a produção, o comércio, serviços e causando a perda de empregos.

Já em terras brasileiras, as primeiras reações foram desde o incentivo às ações humanitárias até críticas às medidas de contenção indicadas, passando por ações criminosas de alguns que tiraram proveito do momento delicado - empresários que falsificaram produtos, superfaturaram preços e políticos que aproveitaram para ganhar com a desgraça.

Essas foram as iniciais demonstrações de que a ética estava sendo afrontada e que a sociedade precisava reagir diante de tamanha desumanidade. Diversos políticos foram denunciados e um governador teve seu processo de impeachment iniciado.

As medidas de isolamento no Brasil foram, em comparação com outros países, mais brandas, mas causaram grande impacto no comércio, turismo, bares e restaurantes, com a indústria e os serviços essenciais mais preservados. Entretanto, o avanço da contaminação em ondas, causando milhões de infectados e mortes, demonstrava que só com uma vacina - na verdade, muitas - seria possível viabilizar a chamada imunidade de rebanho pelo combate à contaminação e não pela morte, como alguns absurdamente defendiam.

Tivemos nesse momento de urgência a demonstração de que famosa frase “O Brasil não é para amadores” não é acertada. O Brasil, em termos de planejamento, especialmente em alguns setores públicos, é de amadores, que perderam a oportunidade de estruturar, com antecedência, a aquisição de vacinas em volume adequado e fortalecer a ação do reconhecido SUS, com equipamentos, leitos e, pasmem, oxigênio.

Em total contradição, há movimentos irresponsáveis que, ao mesmo tempo que defendem a economia acima de tudo, surpreendem, de um lado, com ataques, sem qualquer fundamento, às vacinas com insumo ativo chinês - que, ironicamente, são as únicas que foram negociadas pelos governos federal e de São Paulo - e, de outro, combatem todas as medidas de isolamento, ainda que não tão profundas.

Uma verdadeira sandice tropical, um delírio insustentável: não ao isolamento, não às máscaras, não às vacinas, mas sim à economia. Ou seja, nenhuma seriedade, restando um vergonhoso veredicto: morram, mas preservem a economia, afinal, assim é a vida.

É evidente que só a vacinação em massa viabiliza a retomada do ritmo da economia.

Felizmente, a sociedade, de modo avassalador, entendeu que a vacina é o único caminho, porém, as teses absurdas, o total descaso e o cansaço das medidas de isolamento fizeram estragos e todos os alertas foram menosprezados, fomentandoo crescimento da contaminação.

Não bastasse tanto descalabro, mais uma vez, com o início da vacinação, temos a afronta à ética, com poderosos furando a fila, e inovamos com a vacinação sem vacina, ludibriando criminosamente os idosos.

A situação, antes de melhorar, está piorando. A retomada da economia na velocidade necessária está atrelada à vacina, que deve ter acelerada a sua produção e distribuição, não há outro caminho.

Em meio a esse quadro insano o Brasil está diante do espelho, mostrando a nossa cara pasma. Em um momento que exige absoluta necessidade de termos coesão e lideranças firmes e responsáveis, nos deixamos levar por crendices, por teorias da conspiração que afetam o julgamento, desperdiçando tempo precioso e recursos que não temos em ações atabalhoadas. Triste retrato.

Resta saber se, em meio a tanta dor e perdas, vamos aprender. Oxalá!

 

*Edson Vismona é advogado, presidente do Instituto ETCO (Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial) e do FNCP (Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade). Foi secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo.

 

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