O multilinguismo amplia a capacidade de inovação e o posicionamento do país no cenário global. (Brasil não fala inglês/Shutterstock)
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Publicado em 28 de abril de 2026 às 10h00.
Por Santuza Bicalho*
O dia 28 de abril marca o Dia Mundial da Educação, criado durante o Fórum Mundial de Educação de 2000, em Dakar, no Senegal, com a participação de 180 países.
Uma data para reafirmar prioridades e reforçar a importância de ampliar o acesso e a qualidade da educação para todos.
Mas que tipo de formação queremos promover?
No debate sobre educação no Brasil, ainda discutimos acesso, qualidade e financiamento — temas essenciais, mas insuficientes.
Há uma agenda menos visível, porém cada vez mais decisiva para a competitividade do país: a capacidade de formar cidadãos aptos a operar em um mundo multilíngue.
Em uma economia globalizada, na qual negócios, tecnologia e conhecimento circulam sem fronteiras, o domínio de mais de um idioma deixou de ser diferencial.
É infraestrutura básica de capital humano. Países que avançaram nessa agenda colhem resultados concretos.
A Holanda, por exemplo, combina educação bilíngue amplamente com um dos maiores níveis de proficiência em inglês do mundo.
Isso contribui para sua forte inserção em cadeias globais de valor e alta atração de investimento estrangeiro.
Já Singapura estruturou sua política educacional sobre o bilinguismo — inglês como língua de instrução e língua materna como base cultural.
Hoje o país figura entre as economias mais competitivas e inovadoras do mundo. O Brasil, por outro lado, ainda opera com uma limitação estrutural: fala pouco e se conecta pouco.
O multilinguismo, entendido como a capacidade de aprender, utilizar e transitar entre dois ou mais idiomas de forma integrada ao processo de aprendizagem, tem impacto direto na formação de capital humano.
No nível individual, desenvolve flexibilidade cognitiva, pensamento crítico e capacidade de resolver problemas.
No nível sistêmico, amplia a capacidade de um país de participar de cadeias globais de valor, inovação e conhecimento.
Nos últimos anos, houve avanços importantes. A demanda por educação bilíngue cresceu, impulsionada por famílias que enxergam o idioma como um ativo estratégico para o futuro de seus filhos.
Esse movimento também já se reflete na alocação de capital no setor educacional brasileiro.
Algumas das escolas que mais atraíram investimento vêm ampliando seus programas bilíngues — têm em comum a incorporação consistente do multilinguismo como parte central de sua proposta de valor.
O mercado já sinaliza: educação com visão global é um ativo valorizado.
Esse é um ponto central. Não se trata apenas de ensinar inglês, mas de ensinar em inglês — ou em outro idioma — integrando linguagem e conteúdo.
Esta abordagem acelera a fluência, mas, principalmente, desenvolve uma competência mais profunda: a capacidade de pensar em contextos culturais distintos.
Outro vetor relevante é a tecnologia. Plataformas digitais, conteúdos interativos e conexões em tempo real com outras partes do mundo ampliam o acesso e tornam o contato com outros idiomas mais contínuo.
Quando bem integrada ao projeto pedagógico, a tecnologia reduz barreiras e escala o impacto do ensino bilíngue.
Mas talvez o fator mais crítico seja a intencionalidade. O desenvolvimento do multilinguismo exige consistência ao longo do tempo.
Idealmente começando na educação infantil e avançando de forma estruturada ao longo da trajetória escolar. Sem continuidade, os ganhos se perdem.
Com planejamento, o idioma deixa de ser uma disciplina e passa a ser uma ferramenta de pensamento.
Mais do que uma tendência educacional, o multilinguismo é uma agenda econômica.
Ele influencia diretamente a qualidade da força de trabalho, a capacidade de inovação e o posicionamento do País no cenário global.
Colocar essa discussão no centro da agenda educacional é, em última análise, uma escolha estratégica: formar uma geração preparada para participar do mundo — ou continuar assistindo de fora.
*Santuza Bicalho é Managing Director da International Schools Partnership - ISP no Brasil.