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Mais de 280 voos cancelados e filas de passageiros; o que está acontecendo em Congonhas?

Desde domingo, já foram cancelados 286 voos e outros estão atrasados, segundo o último balanço da Infraero, divulgado às 15h

Aeroporto de Congonhas tinha 55 voos atrasados e 53 cancelados às 14 horas desta segunda-feira, 10 (Germano Lüders/Exame)

Aeroporto de Congonhas tinha 55 voos atrasados e 53 cancelados às 14 horas desta segunda-feira, 10 (Germano Lüders/Exame)

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Da redação, com agências

Publicado em 10 de outubro de 2022, 17h02.

Última atualização em 10 de outubro de 2022, 19h12.

No início da tarde de hoje, 10, o saguão do Aeroporto de Congonhas ainda estava lotado e com longas filas, reflexo da interdição da pista ontem, 9. Às 13h32 de ontem, um avião de pequeno porte estourou um pneu, mantendo a pista principal interditada até as 22h18, o que provocou o cancelamento de diversos voos.

Desde domingo, já foram cancelados 286 voos e outros estão atrasados, segundo o último balanço da Infraero, divulgado às 15h.

A influenciadora digital Letícia Kava disse que estava dentro de outro avião no momento do acidente. Segundo ela, a tripulação e os passageiros do voo com destino a Curitiba ficaram algumas horas dentro da aeronave sem informações se seria possível decolar ou não. “A gente ficou no avião desde o meio dia e pouco até as 15h. O piloto não recebia notícias”, disse.

Letícia teve que esperar mais 4 horas para conseguir a remarcação do voo para hoje, às 15h. “Voltamos para o aeroporto e ficamos até as 19h para resolver”, disse. O novo horário fará com que ela perca o ônibus para cidade onde mora, Irati, a cerca de 150 quilômetros de Curitiba.

A médica Tereza Barreto perdeu o voo que seguia ontem, às 20h10, para Salvador. No final da manhã, ela esperava em uma longa fila para os guichês da companhia aérea. “Fiquei ontem umas duas horas na linha [tentando falar com a empresa por telefone], e não consegui, desisti. Fiquei, hoje, mais 1 hora, só que a funcionária não conseguiu concluir o processo”, disse a passageira quando já estava há mais de 2 horas e 30 minutos em pé na fila. “Tinha agenda o dia todo de pacientes e tive que remarcar todo mundo”, disse.

O vendedor Murilo Tachine também tinha um voo por volta das 20h de ontem para o Aeroporto de Navegantes, em Santa Catarina. “Chegamos umas 19h e não dava nem para andar”, disse sobre a situação que enfrentou ao ir para o Aeroporto de Congonhas ontem. “A gente pegou um hotel por conta própria”, disse, acrescentando que diante do cenário nem tentou obter apoio da companhia aérea. “A gente até presenciou umas brigas”, lamentou ao descrever o clima no terminal na noite de ontem.

O que aconteceu?

Quando acontecem esses tipos de acidente, em que estoura o pneu ou há alguma falha que atrapalhe o fluxo na pista de decolagem, existem alguns processos necessários para a resolução do problema, incluindo perícias e averiguações de que o local já é seguro para o trânsito comum de aeronaves.

Nesse caso em específico, houve uma danificação da pista de concreto e, quando o pneu estourou, ele também espalhou os restos de borracha na pista — o que torna a decolagem de qualquer outro avião na pista perigosa. Afinal, se uma turbina por ventura "engole" esses pedaços de borracha ou concreto, ela pode explodir.

A Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), para esse acidente, precisa coordenar a investigação e avaliação da pista. Houve, no entanto, uma incomum demora para a resolução de todos os problemas envolvidos: desde a comunicação com o resto do aeroporto até a investigação por parte da CENIPA — órgão que investiga todo e qualquer acidente aéreo no Brasil.

A perícia já foi feita, mas o laudo ainda não foi liberado.

Voos atrasados

A Infraero informou que o Aeroporto de Congonhas tinha 55 voos atrasados e 53 cancelados às 14 horas desta segunda-feira, 10. Em nota, mais cedo, a empresa havia informado que as operações de pouso e decolagem no terminal haviam sido retomadas.

Desde domingo, já foram cancelados 286 voos e outros estão atrasados, segundo o último balanço da Infraero, divulgado às 15h. A pista principal do aeroporto ficou fechada por nove horas no domingo após o pneu de um Learjet estourar durante o pouso. As causas do incidente estão sendo investigadas.

"O caos já está instalado. A pior parte é a falta de informações. Mas não dá para julgar muito porque são centenas de pessoas buscando informações aqui no aeroporto", afirmou o ator Ítalo Laureano, de 39 anos, que perdeu o voo para Belo Horizonte na manhã desta segunda-feira.

"As acomodações da malha aérea estão ocorrendo ao longo do dia com a gestão dos voos pelas companhias aéreas", disse a Infraero em nota.

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Segundo a empresa, foram cancelados no domingo 116 voos que partiriam de Congonhas e outros 117 que aterrissariam no terminal.

O também ator Marcos Coletta, de 35 anos, que acompanhava Laureano, disse que os amigos chegaram cedo para o voo previsto para as 9h40, mas enfrentaram uma longa fila. "Nosso voo partiu sem a gente. Quando apareceu que tinha aberto o embarque no painel, perguntamos se deveríamos ir para outro local, mas disseram que era para continuarmos na fila", contou.

A arquiteta Viviane Rubio, de 59 anos, estava apreensiva quando foi abordada pela reportagem. Ela precisa estar em Recife até as 21h, na hora da abertura do portão de embarque para pegar o seu voo para Lisboa pela TAP. Em Congonhas, o voo está previsto para sair de São Paulo para a capital de Pernambuco às 16h10 pela GOL. No entanto, ela não consegue informações sobre sua viagem.

"Preciso chegar em Recife para embarcar ainda hoje para Lisboa, mas minha reserva não está aparecendo pela GOL. Eu paguei R$ 13 mil pelas passagens e não acho justo ficar com esse prejuízo e transtorno. Ninguém sabe me informar nada e estou sem saber o que fazer", afirmou.

Latam

A Latam informou em nota que o incidente com avião de pequeno porte em Congonhas já resultou no cancelamento de mais de 180 voos da companhia até a manhã desta segunda-feira, "trazendo prejuízos milionários para a empresa e alguns incalculáveis para os clientes".

"A companhia reforça que todos os seus esforços estão direcionados para acomodar, assistir, reorganizar as viagens de seus clientes e normalizar as operações", destacou a Latam.

A insatisfação com as regras atuais do aeroporto foi reforçada pelo CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, nas redes sociais. Em postagem no LinkedIn, o executivo questionou "o que mais deve acontecer em Congonhas" para que decidam não operar com aviões de pequeno porte.

"Aqui deixo minha pergunta final para vocês: o que mais deve acontecer em Congonhas para que decidam não operar com aviação de pequeno porte em um aeroporto tão central para toda a malha aérea do País?", questionou Cadier.

No texto, o CEO da companhia afirma que, só em função do incidente, entre ontem e hoje, foram mais de 180 voos cancelados o que impactou quase 30 mil pessoas.

Abear quer restrição de aviões pequenos em pista principal de Congonhas

Em nota, a Abear afirmou que a restrição de aeronaves de pequeno porte na pista principal, principalmente em horários de pico, é uma "preocupação antiga" da entidade.

A posição foi inclusive manifestada à Infraero no fim de setembro. De acordo com a associação, no último dia 29 foi enviado um ofício à estatal — que administra Congonhas —, em que a Abear recomendava a adoção "definitiva" da limitação dos aviões de pequeno porte na pista principal.

Na visão da entidade, a medida é necessária tendo em vista que os impactos causados por incidentes afetam "milhares de passageiros em todo o Brasil". A Abear estima prejuízos financeiros que "ultrapassam milhões de reais".

Para o contexto atual, após o incidente, além do pedido por uma atualização definitiva nas regras, a entidade quer uma priorização imediata da pista principal para agilizar a recomposição da malha nacional.

"E atender os milhares de passageiros que precisam ser transportados ainda hoje e nos próximos dias", disse a entidade.

Por que o pneu estourou?

O acidente está sendo investigado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes (Cenipa) da Aeronáutica. Cinco pessoas estavam no avião quando a aeronave saiu da pista e parou na área de taxiamento (deslocamento em solo das aeronaves) do aeroporto. Ninguém ficou ferido.

(Com Agência Brasil e Agência Estado)

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