Lula vence em 97% das mil cidades menos desenvolvidas e Bolsonaro, nas mais ricas

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) segue tendo seu desempenho em eleições fortemente correlacionado ao subdesenvolvimento dos municípios do Brasil
A apuração mostra que a estratégia do governo Bolsonaro de usar o benefício do Auxílio Brasil para angariar votos para o candidato à reeleição não funcionou como o planejado (Alexandre Schneider/Getty Images)
A apuração mostra que a estratégia do governo Bolsonaro de usar o benefício do Auxílio Brasil para angariar votos para o candidato à reeleição não funcionou como o planejado (Alexandre Schneider/Getty Images)
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Estadão ConteúdoPublicado em 04/10/2022 às 19:29.

Ainda que contasse com um arco amplo de alianças mais ao centro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) segue tendo seu desempenho em eleições fortemente correlacionado ao subdesenvolvimento dos municípios do Brasil. No último domingo, 2, o petista foi vitorioso em 97% das mil cidades mais pobres.

Essas são cidades vulneráveis em que o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) não passa de 0,58. Dentre esse grupo, Lula venceu em 977 delas e obteve uma média de votos que chega a 75%. Já o presidente Jair Bolsonaro (PL) ganhou em apenas 26 desses municípios (2,59%), com uma média de 37% dos votos. A apuração mostra que a estratégia do governo Bolsonaro de usar o benefício do Auxílio Brasil para angariar votos para o candidato à reeleição não funcionou como o planejado.

O cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, destaca que, mesmo que exista uma correlação aparente entre a pobreza da cidade e a votação para Lula, não é possível avaliar esse fator como o único determinante, uma vez que outras variáveis, como religião, devem ser consideradas.

Ele lembra a análise do professor André Singer, da USP, sobre a trajetória do lulismo, demonstrando que houve uma mudança de padrão de voto no decorrer do tempo. Ao longo das candidaturas de Lula, o PT deixou de ser um movimento fortemente associado à classe média e à chamada esquerda universitária para, a partir de 2006, depois das políticas de transferência de renda, como Bolsa Família, passar a representar o voto de boa parte da população mais vulnerável.

Contudo, há um forte caráter de identificação personalista. "É o voto no Lula e não necessariamente no PT. E foram três candidaturas petistas, duas da Dilma Rousseff e uma do Fernando Haddad. Agora, com a volta do Lula como o rosto do PT, essa associação ressurge", comenta. Para Consentino, a baixa votação de Bolsonaro nas cidades mais pobres pode significar uma rejeição por parte dos mais vulneráveis, que não se sentiram representados por suas políticas.

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O fenômeno, entretanto, se inverte quando se olha para as cidades onde a qualidade de vida é maior — retratada com um IDHM maior ou igual a 0,73. Nessas localidades, Bolsonaro foi o escolhido entre os eleitores de 869 das mil cidades (86%). Nesse grupo de municípios desenvolvidos e concentrados no Sul e Sudeste, Lula foi o escolhido em apenas 148 (14,74%).

Em São Caetano do Sul (SP), cidade com maior IDH do País, o atual presidente venceu com 50,3% dos votos — em 2018, a sua vitória foi com 75,1% dos votos. Já em Melgaço (PA), município com menos de 10 mil habitantes e o menor IDH do País, a vitória foi de Lula com 64% dos votos — há quatro anos, Haddad também vencia na cidade, mas com 75,6% dos votos.

Do ponto de vista geográfico, o professor do curso de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ricardo Luigi ressalta que a ideia de desenvolvimento medida pelo IDH também inclui indicadores que vão além da perspectiva econômica, como a qualidade de vida, a saúde e a educação. Entram nesse contexto a possibilidade dos moradores exercerem a própria cidadania, por exemplo.

"O Brasil tem um desenvolvimento complexo em que coexistem avanços e retrocessos. Esse recorte das regiões mostra que o Brasil não pode ser determinado de forma simplista", afirma. Segundo o geógrafo, o aumento da desigualdade divide as demandas dos grupos sociais. Em uma ponta, pode existir a ideia de que o Estado atrapalha as liberdades individuais e, portanto, sua ausência seria celebrada; enquanto, na outra, a ausência de políticas públicas leva à insatisfação.

Regiões com menor IDH, portanto mais dependentes de equipamentos públicos, podem ser mais sensíveis ao sentimento de redução do bem-estar, por exemplo. Isso eleva a insatisfação com o governo e pode levar o voto ao candidato da oposição. Já as cidades mais ricas possuem outras demandas. "Dá lugar a uma ideia de que quanto maior a atuação do Estado, maior o entrave ao desenvolvimento da liberdade individual", aponta. Como o presidente Jair Bolsonaro representa um recorte determinado desse pensamento liberal, o voto nele pode se associar a essa visão e ser predominante nos locais de maior IDH.

Para cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Bruno Bolognesi, o voto dos mais pobres em determinados candidatos costuma ser baseado em interesses diretamente ligados às necessidades cotidianas.

"Há uma racionalidade nisso. É preconceito sugerir que seja ignorância", comenta. O cientista político argumenta que a votação de Lula em cidades com baixo IDH pode ser referente a um processo de memória de tempos mais fartos, que é reforçado pela campanha petista. Já em cidades mais desenvolvidas, com uma classe média maior e necessidades materiais parcialmente resolvidas, outros aspectos, como a religião, passam a pesar mais. Ele reitera que padrões geográficos são comuns em eleições presidenciais e não são uma exclusividade brasileira. "Na França, Emmanuel Macron teve mais votos nos centros e Marine Le Pen na periferia", destaca.

Bolognesi também lembra da virada registrada na eleição de 2006, a partir das políticas de transferência de renda, como um ponto de atenção na trajetória de Lula. Ele destaca que na votação para o primeiro mandato como presidente, em 2002, Lula teve mais votos concentrados no bloco Sul e Sudeste, mas esse perfil vai mudando ao longo do tempo. Também Bolsonaro, em 2018, teve uma votação mais expressiva no Nordeste, por exemplo.

Cidades

O ex-presidente foi o candidato que venceu em mais cidades. Ao todo, 3.376 municípios brasileiros optaram pela volta do petista ao poder; dentre eles 11 capitais: Salvador, Fortaleza, São Luís Belém, João Pessoa, Recife, Teresina, Natal, Porto Alegre, Aracaju e São Paulo.

Bolsonaro foi vitorioso em 2.194 cidades — sendo elas 16 capitais: Rio Branco, Maceió, Manaus, Macapá, Brasília, Vitória, Goiânia, Belo Horizonte, Campo Grande, Cuiabá, Curitiba, Rio de Janeiro, Porto Velho, Boa Vista, Florianópolis e Palmas.

Nova Pádua, no Rio Grande do Sul, continua sendo a cidade mais bolsonarista do Brasil, só que dessa vez deu apenas 86% dos votos para o presidente. Em 2018 tinha dado 93%. Em Guaribas, no Piauí, atingiu 92% de lulismo ferrenho. Em 2018, a mesma cidade tinha revertido 98% dos votos para Haddad.

Maioria absoluta

No primeiro turno, Lula e Bolsonaro atingiram, juntos, maioria absoluta (50% dos votos mais um) em 85% dos municípios brasileiros. O petista alcançou esse patamar em 3.013 municípios enquanto o seu adversário direto atingiu a mesma maioria em 1.761 cidades. Em 2018, Bolsonaro tinha a maioria absoluta em 1.987 municípios, enquanto Haddad atingiu a mesma maioria em 2.010 cidades.

Metodologia

O Estadão calculou a correlação entre o domínio de votos petistas e bolsonaristas em cada município para o primeiro turno utilizando dados do Tribunal Superior Eleitoral, do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 2010 e cálculo de Pearson para correlação linear.

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