Dario Durigan: ministro da Fazenda afirma que aplicação da Lei da Reciprocidade não configura retaliação aos EUA (Washington Costa/Ministério da Fazenda/Divulgação)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 17 de julho de 2026 às 13h27.
Última atualização em 17 de julho de 2026 às 13h30.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira, 17, que o governo federal avalia aplicar a Lei da Reciprocidade à nova tarifa de 25% que os Estados Unidos aplicarão ao Brasil a partir da próxima semana. Em coletiva de imprensa, ele afirmou, no entanto, que a medida não é uma forma de retaliação ao governo de Donald Trump.
O ministro da Fazenda afirmou que a eventual aplicação da Lei da Reciprocidade está sendo analisada em conjunto com representantes dos setores afetados pelas novas tarifas americanas. Segundo Durigan, o governo pretende avaliar os impactos sobre cada segmento antes de tomar qualquer decisão.
"Não cabe falar em retaliação aos EUA por tarifas, estamos falando de avaliar os mecanismos de reciprocidade", disse o ministro durante a coletiva.
Durigan ressaltou que o governo atua com cautela para evitar que qualquer medida prejudique a economia brasileira. Segundo ele, a prioridade é proteger empresas e empregos, sem transformar a disputa comercial em um embate político.
"Estamos tomando muito cuidado com isso. E o cuidado não é em relação aos Estados Unidos, e sim em relação à nossa economia. A gente não pode entrar nessa ótica de usar o momento político-eleitoral para fazer ataques político-eleitorais, prejudicando a economia", afirmou.
De acordo com o ministro, as discussões sobre uma eventual resposta às tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos continuarão em conjunto com o setor produtivo, utilizando os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira que "não há justificativa" para o tarifaço dos EUA.
Em publicação nas redes sociais, Lula disse que o governo brasileiro buscou negociar desde o início das discussões e reafirmou que não abrirá mão de temas considerados estratégicos para o país.
"Desde o primeiro momento, buscamos o diálogo e enfatizamos nossa disposição de negociar. Apontamos que não há justificativa para as tarifas anunciadas. Não vamos abrir mão de defender o nosso Pix, a nossa soberania e os produtores brasileiros", escreveu o presidente.
Desde o primeiro momento, buscamos o diálogo e enfatizamos nossa disposição de negociar. Apontamos que não há justificativa para as tarifas anunciadas. Não vamos abrir mão de defender o nosso Pix, a nossa soberania e os produtores brasileiros. pic.twitter.com/xriwo45mYy
— Lula (@LulaOficial) July 16, 2026
Em outra publicação, Lula afirmou que o governo dará prioridade aos setores afetados pela medida americana.
"Nosso governo está e sempre estará ao lado do povo brasileiro. Diante de uma tarifação injusta e ilegal, seguimos firmes no apoio aos setores atingidos", afirmou.
Nosso governo está e sempre estará ao lado do povo brasileiro. Diante de uma tarifação injusta e ilegal, seguimos firmes no apoio aos setores atingidos. Eles terão atendimento prioritário e contarão com medidas para proteger os empregos, fortalecer a produção e garantir que quem… pic.twitter.com/pZZlZ6YQEw
— Lula (@LulaOficial) July 17, 2026
Também nesta quinta-feira, o presidente compartilhou uma imagem com a mão sobre a bandeira do Brasil e escreveu que "o Brasil não vacilará no dever de defender e preservar nossa soberania".
Na madrugada desta quinta-feira, o Palácio do Planalto divulgou uma nota em que repudiou a decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), anunciou que poderá recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade e criticou a decisão do governo americano.
À tarde, ministros do governo, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, concederam uma entrevista coletiva para detalhar a estratégia do Executivo.
Geraldo Alckmin: vice-presidente afirmou que Lei de Reciprocidade poderá ser utilizada (Ricardo Stuckert/PR)
Segundo dados apresentados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a nova tarifa atingirá cerca de 18% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, o equivalente a US$ 7,4 bilhões com base nos embarques de 2024. Considerando os dados de 2025, a parcela afetada corresponde a 15% das exportações, ou US$ 5,8 bilhões.
Alckmin afirmou que a Lei de Reciprocidade poderá ser utilizada "no momento adequado", mas ressaltou que o instrumento não tem caráter retaliatório.
"O governo, no momento adequado, saberá como implementá-la. Não é retaliatória. O que existe é uma lei defendendo o interesse nacional, da economia brasileira", disse o vice-presidente.
Pela legislação, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) poderá suspender concessões comerciais e de investimentos, além de adotar outras medidas contra países que prejudiquem a competitividade dos produtos brasileiros. Antes disso, porém, o governo deverá tentar uma negociação direta e recorrer a organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Durante a coletiva, o presidente do Banco Central também respondeu às críticas feitas pelos Estados Unidos ao Pix, apontado pelo USTR como um dos fatores que motivaram a tarifa de 25%.
Galípolo afirmou que o sistema continuará sendo oferecido de forma "gratuita, segura e instantânea" e classificou os argumentos americanos como uma tentativa de justificar a medida comercial.
Galípolo: o presidente do BC faz defesa do Pix e rebate as críticas do governo norte-americano (Lula Marques/Agência Brasil)
"Os argumentos contra o Pix configuram o caso mais flagrante que tentam criar uma lógica para aplicar tarifas. Vamos seguir fornecendo o Pix como algo gratuito, seguro e instantâneo", afirmou.
Segundo o presidente do Banco Central, o Pix não prejudicou o mercado de cartões de pagamento. Pelo contrário: desde sua implementação, o setor teria crescido cerca de 150%. De acordo com Galípolo, quem perdeu espaço foi principalmente o uso de cheques e dinheiro em espécie.
Ele também afirmou que o modelo brasileiro se tornou referência internacional e informou que o Banco Central já firmou mais de 47 acordos de cooperação técnica com outros bancos centrais interessados em desenvolver sistemas de pagamentos instantâneos semelhantes.
Com O Globo