Cidades do ABC paulista já descartam aulas presenciais em 2020

Nenhum município da região deve seguir o calendário do governo estatual. Em Santo André, 94% dos pais e responsáveis se declararam contrários à retomada

Cidades do ABC paulista já descartam aulas presenciais em 2020 (Rodolfo Santos/Getty Images)

Cidades do ABC paulista já descartam aulas presenciais em 2020 (Rodolfo Santos/Getty Images)

Isabela Rovaroto

Isabela Rovaroto

Publicado em 5 de agosto de 2020 às 11h17.

Última atualização em 5 de agosto de 2020 às 16h19.

Mesmo que o Estado de São Paulo se mantenha na fase amarela por 28 dias consecutivos e as aulas presenciais recebam o sinal verde para voltar no dia 8 de setembro, ao menos seis dos sete municípios que compõem o ABC paulista não pretendem seguir o calendário. Em Santo André, Mauá, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires, os prefeitos já anunciaram até que a reabertura das escolas na rede pública municipal está totalmente descartada no ano letivo de 2020. Diadema e São Bernardo do Campo caminham na mesma direção.

A decisão em Santo André, segundo comunicado oficial, tem por base consulta pública que ouviu mais de 21 mil pais e responsáveis - 94% se declararam contrários à retomada. O município registra 11.743 casos e 379 óbitos pelo novo coronavírus, com taxa de letalidade de 3,23%. "Ainda não há por parte dos pais e mães segurança para o retorno das aulas presenciais. Estamos criando ferramentas para que as alunos possam ter acesso ao conteúdo pedagógico, sem presença em sala", explicou pelas redes o prefeito Paulo Serra (PSDB).

A Prefeitura de Rio Grande da Serra foi pelo mesmo caminho: 80% dos pais e responsáveis não querem a volta das aulas presenciais. Na segunda-feira, o boletim epidemiológico da cidade apontava 341 pessoas contaminadas e apenas 17 óbitos pela covid-19. "O isolamento social ainda é a atitude mais eficiente para evitar o alastramento da pandemia. Quando falamos em 200 mil alunos na rede municipal, significa um universo de mais de 800 mil cidadãos, se considerarmos quatro pessoas por família. A atitude é ríspida, mas responsável", disse ao Estadão o prefeito Gabriel Maranhão (Cidadania).

A preocupação pelo risco de poderem transmitir o vírus aos familiares é um dos principais motivos citados pelos prefeitos. Em Mauá, mesmo com os "baixos índices de evolução da doença" - apenas 2.082 casos e 207 mortes -, o prefeito Átila Jacomussi (PSB) disse em nota que está "em desacordo com o Plano São Paulo" e pediu que o governo do Estado crie protocolos diferentes para as redes pública e privada. "Se eu pudesse dar um conselho ao governador, seria o de suspender tudo", comenta Átila. Ele lembra que seu município tem um agravante: muitos servidores estão acima dos 60 anos ou têm comorbidades. "A nossa merenda é própria, não terceirizada, e cerca de 30% a 35% da rede de merendeiras estaria inapta a voltar", observa, acrescentando que 98% dos pais e responsáveis ouvidos não querem o retorno tão cedo.

Contraproducente

Mesmo as cidades do ABC ainda sem uma previsão exata de volta às aulas presenciais, como Diadema e São Bernardo do Campo, já indicaram que não devem seguir o calendário do governo. Em Ribeirão Pires, cerca de 82% dos pais já se declararam contrários ao retorno presencial.

"Entendemos que voltar no dia 8 de setembro para ter dois ou três meses de aulas é contraproducente e totalmente inviável, diante de todo o tempo que as crianças ficaram fora da sala de aula", argumenta o prefeito Kiko Teixeira (PSDB). Para ele, a maior preocupação vem da rede privada, que teme uma grande evasão para instituições de cidades vizinhas, por pais que não têm onde deixar os filhos no momento. Para ele, o foco atual é pensar como recuperar, em 2021, o tempo e aprendizado perdidos este ano. "Não podemos deixar que as crianças sejam estigmatizadas como a ‘geração da covid’." Ele considera adotar aulas de reforço e período integral no ano que vem.

Em São Bernardo do Campo, o prefeito Orlando Morando (PSDB) admite a possibilidade de retorno em outubro, dependendo do que disser o inquérito epidemiológico da cidade. "Mas não abriremos mão de segurança dos profissionais e da escola", declara. Segundo ele, "não é responsável acabar com o semestre agora, sabendo que a epidemia não é estática". "Se há uma pressão à qual eu não vou ceder é a de garantir a preservação das vidas." Em São Caetano, José Auricchio Junior (PSDB) também é categórico ao descartar o retorno em setembro. "Não temos condições sanitárias para isso, pois precisamos criar uma série de medidas que estarão em um plano próprio" - que, segundo ele, "vai abordar de questões jurídicas a administrativas". Ele se preocupa com a ideia de tratar os alunos do ensino básico e do médio com a mesma régua, "o que não é o correto".

Merenda

Apesar da queda geral nas receitas, todos os prefeitos ouvidos se comprometeram a manter o auxílio alimentar para alunos da rede pública, decisivo para quem sempre contou com a merenda escolar. "A epidemia social também é muito crítica. O impacto fiscal é gigante, mas a covid é a prioridade absoluta", afirma Auricchio. "Não se faz economia sem vida e minha decisão é pela vida", reforça Jacomussi, de Mauá.

Acompanhe tudo sobre:Escolassao-paulo

Mais de Brasil

Conflitos por terra batem recorde no Brasil no primeiro ano do governo Lula

Cármen Lúcia mantém condenação de Deltan por Power Point contra Lula

Risco fiscal está 'drenando oportunidades' do Brasil, diz Tarcísio

Fluxo de passageiros para o exterior cresce pelo 24º mês seguido mostra Anac

Mais na Exame