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Bronquiolite fora de época: hospitais de SP registram alta de casos

No Hospital Israelita Albert Einstein, o número de testes positivos passou de 53 para 131 em cerca de duas semanas; quadro não é exclusivo de SP

Criança: hospitais de SP registram alta de casos de bronquiolite fora de época (Catherine Delahaye/Getty Images)

Criança: hospitais de SP registram alta de casos de bronquiolite fora de época (Catherine Delahaye/Getty Images)

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Estadão Conteúdo

5 de novembro de 2022, 13h05

Uma onda fora de época de bronquiolite causada principalmente pelo vírus sincicial respiratório (VSR) tem lotado alas pediátricas de hospitais públicos e privados da capital e preocupado equipes de saúde, que temem a ocorrência de surtos simultâneos de covid-19 e bronquiolite em crianças.

Ao menos dois hospitais da cidade tiveram de ampliar os leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) infantil. O vírus é mais perigoso para crianças de até 2 anos, especialmente aquelas com menos de 6 meses e prematuras.

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Tradicionalmente, o aumento da circulação do VSR e das internações por bronquiolite acontecem a partir de março e permanecem até julho. Neste ano, houve uma onda de bronquiolite no período esperado, mas um segundo período de aumento de casos teve início em outubro.

No Hospital Israelita Albert Einstein, o número de testes positivos para bronquiolite por VSR passou de 53 na segunda semana de outubro para 131 na última semana do mesmo mês.

"Quando começou essa curva de ascensão, no começo de outubro, tínhamos, em média, quatro pacientes internados ao mesmo tempo com bronquiolite. Agora, estamos chegando a 14. Por isso, tivemos de ampliar os leitos de terapia intensiva pediátrica", afirma Linus Pauling Fascina, gerente médico do Departamento de Maternidade e Pediatria do Einstein. A UTI pediátrica do hospital costuma operar com capacidade para 18 pacientes, mas, diante da onda fora de época, abriu mais dez leitos.

No Hospital Infantil Sabará, o quadro é semelhante. O número de pacientes internados com a doença em outubro dobrou em relação a setembro - foram 71 hospitalizações no último mês, ante 34 no mês anterior.

Na emergência da unidade, o total de atendimentos de quadros de bronquiolite passou de 100 para 130 no mesmo período, e o hospital também teve de ampliar sua estrutura. "Abrimos mais dez leitos de UTI. Além disso, mais da metade dos leitos de uma nova unidade do hospital, inaugurada em outubro, foi ocupada", conta Francisco Ivanildo de Oliveira Junior, gerente de qualidade assistencial e controle de infecção do Sabará.

O Hospital Samaritano, em sua unidade de Higienópolis, registrou em setembro e outubro aumento de 79% no número de internações por bronquiolite em comparação com os mesmos meses de 2021. Somente em outubro, foram 101 hospitalizações.

No Hospital Sírio-Libanês, houve um aumento de 50% de pacientes com o quadro no pronto atendimento e de 30% nas internações por bronquiolite nas três primeiras semanas de outubro em comparação com os dados de setembro.

Questionada sobre os números da rede pública da cidade de São Paulo, a Secretaria Municipal da Saúde disse que o Hospital Municipal Menino Jesus, referência em atendimento pediátrico, também registra aumento da doença, mas não detalhou os números de casos e internações.

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O quadro não é exclusivo de São Paulo. Boletim divulgado ontem pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta aumento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) associados ao (VSR) em crianças de 0 a 4 anos.

Para especialistas, ainda não está claro qual é a principal razão para um surto de VSR fora do período tradicional, mas há algumas hipóteses.

Para Linus Fascina, do Einstein, o abandono quase que completo do uso de máscara em ambientes fechados, como escolas, pode ter contribuído para a alta de casos. Ele lembra ainda que o aumento da circulação do vírus fora da época esperada deixa crianças mais vulneráveis mais sujeitas a um agravamento pela falta de um anticorpo que elas costumam tomar.

"Crianças com algumas condições, como as prematuras, têm indicação de tomar uma imunoglobulina, que é um anticorpo para ajudá-las a combater o vírus. Só que esse anticorpo é dado por cinco meses, justamente no período de maior circulação do VSR, no primeiro semestre. Como agora ele está aparecendo fora do período esperado, eles não têm essa proteção extra", explica o médico.

Oliveira Junior, do Sabará, destaca ainda que, no momento, há grande circulação do vírus sincicial no hemisfério norte e que, com a retomada das viagens internacionais pós-pandemia, isso pode estar contribuindo também para a alta no Brasil.

Os especialistas destacam que, diante do quadro e da alta também de casos de covid-19 observada nas últimas semanas no Brasil, é importante reduzir a exposição de crianças pequenas a ambientes fechados ou a pessoas com sintomas respiratórios e levá-las ao pronto-socorro em caso de desconforto para respirar.