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Bolsonaro ataca Bachelet e seu pai, torturado pela ditadura no Chile

Ao rebater críticas de alta comissária da ONU, Bolsonaro criticou o pai de Bachelet, que morreu sob custódia da ditadura chilena

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Bolsonaro ataca alta comissária da ONU, Michelle Bachelet (Montagem/Exame)

Bolsonaro ataca alta comissária da ONU, Michelle Bachelet (Montagem/Exame)

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João Pedro Caleiro, de EXAME, com Reuters e Estadão Conteúdo

Publicado em 4 de setembro de 2019 às, 11h05.

Última atualização em 4 de setembro de 2019 às, 14h48.

São Paulo - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira (04) que a a alta comissária de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet, se intromete na soberania e nos assuntos internos do Brasil e atacou o seu pai, que morreu após tortura em 1974.

A reação vem após a ex-presidente do Chile apontar um aumento da violência policial e uma redução do "espaço cívico e democrático" no país em resposta a um jornalista brasileiro durante entrevista coletiva em Genebra, na Suíça.

Bachelet apontou um aumento expressivo no número de mortes cometidas pela polícia no Rio de Janeiro e em São Paulo, o que é comprovado por números oficiais dos próprios estados, e destacou que eles ocorrem principalmente contra negros e moradores de favelas.

"Temos visto um aumento marcado na violência policial em 2019 em meio a um discurso público que legitima execuções sumárias e a uma ausência de responsabilização. Também estamos preocupados com algumas medidas recentes como a desregulamentação das regras de armas de fogo, e propostas de reformas para reforçar o encarceramento e levando à superlotação de prisões, aumentando ainda mais as preocupações de segurança pública", disse.

"Obviamente, também é importante para nós quando ouvimos negações de crimes passados do Estado que se exemplificam com celebrações propostas do golpe militar, combinadas com um processo de transição jurídica que pode resultar em impunidade e reforçar a mensagem de que os agentes do Estado estão acima da lei e estão, na prática, autorizados a matar sem serem responsabilizados."

Segundo Bolsonaro, Bachelet segue a mesma linha do presidente da França, Emmanuel Macron, com quem o líder brasileiro travou um embate sobre questões ambientais em decorrência de críticas do mandatário francês sobre o aumento do desmatamento e das queimadas na Amazônia.

"Michelle Bachelet, comissária dos Direitos Humanos da ONU, seguindo a linha do Macron em se intrometer nos assuntos internos e na soberania brasileira, investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos), atacando nossos valorosos policiais civis e militares", escreveu Bolsonaro em publicação nas redes sociais.

 

"Diz ainda que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à época", acrescentou Bolsonaro.

Foi uma referência ao ano de início da ditadura militar chilena de Augusto Pinochet que governou o país com mão de ferro até 1990.

Alberto Bachelet, pai de Michelle, foi um brigadeiro-general chileno da Força Aérea do Chile que se opôs ao golpe. Ele foi preso e submetido a tortura por vários meses até sua morte por ataque cardíaco sob custódia, em 1974.

Na manhã desta quarta-feira, ao sair do Palácio da Alvorada para cumprir uma agenda em Anápolis (GO), Bolsonaro disse que Bachelet "defende direitos humanos de vagabundos" e se dirigiu a ela:

"Senhora Michelle Bachelet, se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 1973, entre eles o teu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Eu acho que não preciso falar mais nada para ela. Quando tem gente que não tem o que fazer, vai lá para a cadeira de Direitos Humanos da ONU".

"A única coisa que tenho em comum com ela é a esposa que tem o mesmo nome. Fora isso, fora isso, meus pêsames a Michelle Bachelet", disse o presidente.

Bolsonaro tem um longo histórico de defesa da ditadura e da tortura ao longo da sua carreira política. Em julho, atacou o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, morto pela ditadura militar brasileira, com informações falsas.

As críticas a Bachelet foram replicadas por Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente, indicado para a embaixada em Washington DC, considerado o principal posto da diplomacia brasileira.

Bachelet foi presidente do Chile em duas oportunidades, de 2014 a 2018 e de 2006 a 2010. Ela assumiu o posto de alta comissária da ONU para os Direitos Humanos em setembro do ano passado.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, disse que Bachelet está mal informada e que o que encolhe é o "espaço da esquerda".

Araújo deve se encontrar amanhã com o ministro das Relações Exteriores do Chile, Teodoro Ribera, que fará uma visita a Brasília já previamente agendada. "Os ministros discutirão os principais temas da agenda bilateral", segundo o Itamaraty.

O governo atual do Chile, de Sebastian Piñera, é do campo da direita, mas não endossou manifestações anteriores de Bolsonaro em favor do regime de Pinochet.

Bolsonaro não é o primeiro líder latino-americano que ataca Bachelet recentemente. Em junho, a alta comissária foi para a Venezuela e denunciou violações de direitos humanos, incluindo torturas e esquadrões da morte, após entrevistas com dezenas de pessoas.

O relatório foi atacado pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro, que o considerou "profundamente lesivo à dignidade do povo venezuelano" e "cheio de falsas afirmações, tergiversações e manipulações no uso de dados e fontes".

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