Todos perdem — uns mais que outros

Em meio à pandemia, o retorno às aulas ainda é incerto — enquanto isso, o ensino remoto aprofunda as desigualdades

O sonho de ser médico começou aos 11 anos para o estudante Cauê Vitorasso, depois de seu irmão nascer com uma doença respiratória grave e as frequentes idas ao hospital entrarem na rotina da família. Desde então, ele se prepara para disputar uma vaga em um dos cursos mais concorridos do ensino superior brasileiro.

A maratona de vestibulares estava planejada para acontecer no final de 2020, quando Cauê concluiria o 3º ano do ensino médio, mas a chegada da pandemia do novo coronavírus dificultou seus planos. Aluno em uma escola pública de tempo integral em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, o jovem de 17 anos estuda desde março por meio de aulas remotas.

São 9 horas diárias de aulas ao vivo pela internet — o mesmo tempo que per­maneceria dentro da escola. Apesar de contar com o auxílio de um tutor, ele reconhece que a suspensão das aulas presenciais poderá adiar sua entrada na faculdade — e, por consequência, no mercado de trabalho. “Comecei o ano com foco total no vestibular, mas quando algo tão inesperado acontece há um desequilíbrio emocional e acadê­mico”, afirma Cauê.

Foto: Marcio Vasconcelo

Foto: Marcio Vasconcelo (Getty Images/)

As angústias do aspirante a médico são compartilhadas por outros 7,5 milhões de estudantes brasileiros que estão no ensino médio e a caminho do mercado de trabalho. Mesmo antes da pandemia, essa etapa escolar já era a que os alunos mais abandonavam e na qual os resultados de aprendizagem eram piores. No Ideb, índice que mede a qualidade da educação básica, a nota do ensino médio foi de 3,8 pontos no último levantamento, a pior entre todas as etapas e a que menos evoluiu nos últimos 15 anos.

Um estudo recente do Insper mensurou o possível impacto do fechamento das escolas durante a pandemia no decorrer da vida dos estudantes da rede pública. Liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros, um dos principais especialistas em desigualdade social no país, o trabalho considera a influên­cia do conteú­do perdido durante o ano letivo de 2020 na renda futura dos alunos.

Quem cursa o ensino médio hoje, por exemplo, pode ter uma perda média anual de renda na vida adulta entre 11.000 e 70.000 reais, dependendo das respostas dadas pelo poder público para recuperar os tópicos prejudicados no período de suspensão de aulas. Mesmo os alunos do ensino fundamental, ainda longe de ingressar no mercado de trabalho, podem sofrer no futuro o efeito da perda de conteúdo — um prejuízo anual que pode chegar a 36.000 reais por indivíduo.

Considerando-se o impacto da pandemia nos 35 milhões de estudantes da rede pública, a perda para a economia do país pode variar de 350 bilhões a 1,4 trilhão de reais, distribuídos ao longo do tempo — recursos que equivalem, respectivamente, a 5,3% e 23% do PIB brasileiro. “É melhor um jovem que está concluindo o ensino médio adiar em um ano a entrada no mercado de trabalho do que sacrifica­r seu estoque de conhecimento necessário para a vida adulta”, diz Paes de Barros.

Os custos e os riscos da pandemia para a educação têm sido dimensionados em diversos lugares. Mais de 1,5 bilhão de estudantes no mundo foram atingidos pela pandemia, segundo a Unesco. Uma projeção de pesquisadores da Universidade Brown, nos Estados Unidos, com base em testes realizados por 5 milhões de alunos, mostra que os estudantes podem chegar às aulas no segundo semestre com no máximo 68% do conteúdo normalmente absorvido em leitura e com 50% do conteúdo de matemática ministrado no primeiro semestre. E o que a experiência internacional tem revelado é que a pandemia aprofunda desigualdades que já existiam, afetando, sobretudo, os mais pobres.

A consultoria McKinsey projeta que, se as aulas continuarem no modelo híbrido até meados de 2021, alunos americanos mais pobres poderão perder, em média, 12 meses de escolaridade na comparação com as aulas presenciais — o dobro dos alunos mais ricos. O maior risco é a evasão: se os alunos deixarem a escola, a perda individual­ poderá ultrapassar 21% da renda ao longo da vida, segundo a McKinsey. Tudo somado, a geração impactada pela covid-19 poderá levar, em 2040, a um rombo de até 271 bilhões de dólares na economia americana.

A educação sempre foi um terreno em que imperam desigualdades mundo afora. Análise da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo que reúne os países mais ricos, com base em dados de alunos do Pisa, mostra que apenas um terço dos alunos de 15 anos na América Latina tem acesso a uma plataforma eficaz de apoio à aprendizagem online na escola, ante quase dois terços nos países-membros da OCDE. “A pandemia pode dizimar todos os ganhos que os países mais pobres levaram duas décadas para conseguir”, diz a professora Carol Anne Spreen, especialista em desigualdades na educação na Universidade de Nova York.

No Brasil, a batalha educacional da pandemia começou nas semanas seguintes ao fechamento das escolas, o que já dura cerca de quatro meses. Todas as secretarias estaduais conseguiram oferecer pelo menos um método de ensino remoto, segundo monitoramento do Conselho Nacional de Secretários de Educação. Estados como São Paulo e Maranhão avaliam a possibilidade de implementar um quarto ano opcional no ensino médio, como estratégia para recuperar o conteúdo perdido. “Não dá nem para começar do zero completamente nem para considerar que essa matéria foi dada. É preciso equilíbrio”, afirma Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas.

No Ceará, estado que se tornou uma referência na melhora dos índices de aprendizado, um plano para tirar parte do atraso imposto pela pandemia — e não perder os avanços obtidos na última década — vem sendo discutido com escolas e municípios. “Estamos verificando juntos quais turmas precisam voltar primeiro e quais adaptações serão feitas no conteú­do”, diz Eliana Estrela, secretária de Educação do estado.

É fato que levar escolas cujas estratégias de aprendizado se resumiam ao professor e à lousa para o ambiente digital exigido pela quarentena não foi tarefa fácil. Quando as aulas pararam, a supervisora Mirian Bernardo, do Colégio Municipal Doutor José Vargas de Souza, em Poços de Caldas, Minas Gerais, foi com o próprio carro até a casa de dezenas de alunos, porque a família deles simplesmente não respondia aos contatos e, assim, não era possível repassar as atividades. “Não queremos perder os alunos”, afirma a supervisora. “Nossos alunos têm sonhos, os mais velhos querem fazer vestibular, e é nosso dever tentar fazer o melhor”, diz a diretora do colégio, Angela Borba.

Escolas públicas atendem mais de 80% dos alunos brasileiros. Mais de 90% deles têm renda média familiar menor que dois salários mínimos. Na rede mineira, onde há 1,7 milhões de alunos nas escolas públicas estaduais, há conteúdos impressos, professores tirando dúvidas or WhatsApp, centro de mídia e transmissão pela TV. “Sabíamos que, se tivéssemos só material digital, não chegaríamos a muitos alunos”, diz a secretária de Educação de Minas Gerais, Julia Sant’Anna.

André Pereira Mazini

 (Germano Lüders/Exame)

A necessidade de diversificar as estratégias de conteúdo para contemplar o maior número possível de alunos se repetiu em todo o Brasil. Em São Luís, a estudante Leanny Pinheiro, que está no 2o ano do ensino médio na rede pública do Maranhão, acompanha desde o início da quarentena as aulas transmitidas via rádio. Lá, a Secretaria de Educação, que responde por 1,8 milhão de alunos na rede pública, também oferece conteúdo pela internet, mas Leanny não tem computador e o celular da família conta com acesso restrito à internet. Acompanhar as aulas pela Rádio Timbira, que pertence ao governo do estado, foi a forma mais efetiva que ela encontrou para não ficar sem estudar por tanto tempo. “É preciso se concentrar bastante para escutar direito, porque, como não dá para voltar, é fácil perder o conteúdo”, diz.

Educação -- Infográfico "Mais Difícil do que Parece"

 (Arte/Exame)

O aprendizado remoto é um desafio mesmo para as escolas privadas, nas quais as barreiras tecnológicas são menos frequentes. Só 9% dos alunos das escolas privadas não têm acesso a computador ou tablet em casa, ante 39% dos estudantes da escola pública, segundo dados do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb). Lucia Dellagnelo, diretora-presidente do Cieb e ex-consultora do Banco Mundial, afirma que o uso da tecnologia na educação pode ajudar a entender e a contemplar as especificidades de cada aluno. Mas ela precisa ser incorporada corretamente, acompanhada de uma visão sobre por que usá-la, competência de professores e gestores, recursos digitais de qualidade na escola e infraestrutura em casa. “Por melhores que sejam as plataformas, a tecnologia não tem um impacto positivo sem essas quatro dimensões atuando simultaneamente”, diz.

As irmãs Fernanda e Gabrielly Cordeiro, de 9 e 14 anos, estão, respectivamente, no 4º e no 9º ano do ensino fundamental em uma escola particular na Vila Matilde, zona leste de São Paulo. As aulas ao vivo duram várias horas por dia, e cada uma as acompanha no próprio computador. “Eu consigo tirar as dúvidas, falar com a professora, não tive dificuldade”, diz Fernanda. Gabrielly, a mais velha, que tem uma carga de trabalho maior em casa, afirma que o mais difícil é organizar o tempo. “Na aula presencial, o professor consegue até ver nos seus olhos se você está com dúvida, e isso é algo que eu gosto”, conta. “Em casa, tenho de identificar sozinha o que não aprendi direito. Aí pergunto aos professores e meus colegas.”

Uma pesquisa de entidades educacionais, como a Unesco e o Instituto Porvir, que ouviu 33.000 alunos constatou que, mais do que a eventual falta de infraestrutura e tecnologia, aspectos como organização do tempo e saúde mental são alguns dos principais desafios dos alunos na pandemia. “As escolas vinham dizendo que ensinam as crianças a ser flexíveis e a pensar criticamente. Mas, quando chegou a hora de as próprias escolas se organizarem em um cenário mais complexo, nem todas estavam preparadas”, afirma Thamila Zaher, diretora executiva do Grupo SEB, que tem mais de 200.000 alunos e mais de 300 escolas, entre unidades próprias e franqueadas.

Fernanda e Gabrielly Cordeiro

 (Leandro Fonseca/Exame)

Entre uma plataforma e outra, o papel dos professores ficou ainda maior durante a quarentena. Uma pesquisa do Instituto Península com professores na pandemia mostrou que 88% não tinham experiência anterior com ensino à distância e que mais da metade deseja ajuda com a saúde mental. “A ponte entre o sistema escolar e o aluno ficou restrita quase unicamente ao professor, o que é uma responsabilidade muito grande”, afirma Heloísa Morel, diretora do Península. O professor de geografia André Pereira Mazini, que leciona há 20 anos, vem dedicando cada vez mais tempos a adaptar as atividades — entre aulas gravadas, ao vivo, reuniões e plantões de dúvidas — aos diferentes perfis dos estudantes que atende nas redes pública e privada na zona sul de São Paulo. Ele se preocupa sobretudo com a evasão de seus alunos da escola pública. “A rotina mudou completamente”, diz Mazini.

Com 2,2 milhões de professores no Brasil e a maioria com mais de 40 anos de idade, as novas demandas da educação na quarentena jogam luz sobre outros problemas históricos da formação e da carreira docente no país. Ao contrário do professor Mazini, que concluiu um mestrado na área em que leciona, apenas 36% dos professores da rede pública cursaram pós-graduação, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. A carreira é também pouco atraente para os jovens. Menos concorridos, os cursos de licenciatura são alguns dos que têm as menores notas de corte dos vestibulares. No Brasil, os professores ganham, em geral, 75% da remuneração média obtida por profissionais com ensino superior. “O momento deixou claro que, assim como ocorre com os profissionais da saúde, o país precisará valorizar os professores e sua formação”, diz Tatiana Klix, diretora do Instituto Porvir.

Ensino híbrido

Apesar de todos os desafios que este período impôs à educação mundial, as mudanças vieram para ficar. As medidas de distanciamento social, de higiene e de controle de aglomerações já são uma realidade e não mudarão enquanto não houver uma vacina disponível. Países como China, França e Coreia do Sul, que começaram a retomar as aulas em meados de maio, foram forçados a fechar algumas unidades após um novo aumento do número de casos de contágio de coronavírus. Com o risco iminente de novas levas de infecção, a tendência é que prevaleça a modalidade de ensino híbrido, com uma mescla de aulas presenciais e aulas online. No estado de São Paulo, a expectativa é que as escolas reabram a partir de 8 de setembro, mas há uma série de parâmetros relacionados à doença que precisam ser atingidos, o que poderá adiar os planos do governo paulista.

Nesse cenário incerto, algumas soluções apresentadas durante a suspensão das aulas devem se manter no plano de retomada. No Rio Grande do Sul, a Secretaria de Educação antecipou um projeto de tecnologia nas salas de aula que seria implementado ao longo de três anos. No retorno, todos os professores poderão usar a plataforma Google for Education como ferramenta de aprendizado. “Conseguimos pôr no ar 37.000 turmas virtuais, que espelham o funcionamento das turmas físicas. Entrarão também plataformas educacionais de apoio, como uma biblioteca virtual que terá 35.000 livros”, afirma Faisal Karam, secretário de Educação da rede gaúcha. No colégio Marista, rede privada com 35.000 alunos, distribuídos em mais de 40 unidades, a diretora educacional, Viviane Flores, diz que as escolas foram preparadas para continuar atendendo de forma remota e adaptando o uso da tecnologia às necessidades de cada turma. “Não vamos voltar para o mundo que existia em março”, afirma.

Viabilizar essa transformação educacional exige um investimento maciço em soluções tecnológicas, infraestrutura e formação de professores. O dramático cenário econômico no pós-coronavírus vai atingir em cheio o setor educacional. No ensino público, 72% do financiamento depende de recursos vinculados à arrecadação de impostos, principalmente do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços, um dos mais afetados pelo fechamento da economia do país. Um estudo da ONG Todos pela Educação projeta que o conjunto das redes estaduais deverá perder neste ano de 9 bilhões a 28 bilhões de reais em tributos vinculados à manutenção e ao desenvolvimento do ensino, a depender do agravamento da crise econômica. “Com as restrições orçamentárias, os gestores terão de reavaliar os gastos, mas também serão obrigados a investir em tecnologia. É uma equação difícil”, afirma João Marcelo, diretor do Todos pela Educação.

Desigualdade na Educação -- Infográfico

 (Arte/Exame Hoje)

A resposta educacional durante a pandemia ficou concentrada nos estados, em parte pelas características do próprio modelo federativo brasileiro, que delega a eles e aos municípios a responsabilidade pela gestão da educação básica. Mas, embora não gerencie escolas diretamente, o governo federal será demandado também na retomada das aulas: no Brasil, mais de 60% dos impostos estão concentrados na União, o que reforça o argumento dos estados de que Brasília precisa participar mais do financiamento.

Após a saída de Abraham Weintraub do Ministério da Educação, ninguém havia assumido o cargo definitivamente até o fechamento desta edição, no dia 29 de junho. O presidente Jair Bolsonaro havia escolhido o professor Carlos Alberto Decotelli para o posto, mas, após questionamentos sobre seu currículo, a nomeação não havia sido confirmada. O próximo ministro vai assumir o cargo com o desafio de guiar a retomada das aulas. Com a perda de arrecadação, circula no Congresso uma proposta de socorro emergencial voltado para a área. A renovação do Fundeb, fundo da educação básica, que expira neste ano, é considerada pauta prioritária da agenda e trará outro embate: atualmente, a União complementa 10% do orçamento do fundo, mas há propostas de que a uma fatia seja de até 50%.

Para o setor privado, o futuro também é nebuloso. O faturamento das escolas particulares de pequeno e médio porte caiu 50% em maio, segundo um levantamento da consultoria Explora. Só no mês passado, mais de 95% das escolas perderam alunos, numa evasão que está em torno de 10%. Da educação infantil ao ensino médio, os impactos da pandemia recairão de forma desigual sobre os estudantes. É uma corrida contra o tempo e contra o orçamento. A pior conta, a das eventuais decisões ruins e da inação nas medidas tomadas agora, poderá perdurar por décadas.

(Contribuiu Carolina Ingizza)


CORRIDA CONTRA O TEMPO

Especialista em desigualdades nos sistemas educacionais, a professora Carol Anne Spreen alerta para a necessidade de um financiamento global da educação no pós-pandemia | Carolina Riveira

Carol Anne Spreen, professora da Universidade de Nova York: as escolas terão de lidar com os traumas emocionais dos alunos após a pandemia | Divulgação

Carol Anne Spreen, professora da Universidade de Nova York: as escolas terão de lidar com os traumas emocionais dos alunos após a pandemia | Divulgação (Reprodução/Facebook/)

Enquanto lidam com a crise na saúde gerada pela pandemia, os países precisam traçar planos para amenizar os possíveis efeitos sociais ­— ou a conta sairá alta para o desenvolvimento no longo prazo. É o que diz Carol Anne Spreen, professora na Universidade de Nova York e na Universidade de Joanesburgo, na África do Sul. Spreen estuda há mais de uma década as desigualdades nos sistemas educacionais e, segundo ela, assim como a pandemia mudou diversos setores da economia, não será possível pensar em soluções para a educação da mesma forma que antes. Leia a seguir trechos de sua entrevista à EXAME.

Os efeitos da pandemia sobre a  educação podem ampliar a lacuna entre países ricos e pobres?

Não dá para lidar com a covid-19 como se fosse apenas uma crise de saúde. Há projeções de que mais de 200 milhões de crianças poderão sair da escola porque os pais perderam o emprego e os jovens vão precisar trabalhar. A crise poderá acabar com avanços conquistados nos últimos 20 anos. E a divisão digital poderá se acentuar entre países que investiram na educação durante a recuperação da pandemia e os que não investiram.

Com a crise econômica, os países serão capazes de investir mais em educação?

Nos Estados Unidos, por exemplo, o orçamento para a educação vem sobretudo dos estados, mas a arrecadação deles foi dizimada pela pandemia. Então, é preciso haver um esforço maior também do governo federal. As crianças mais pobres já estão sendo as mais afetadas pela pandemia. E, quando há cortes na educação, são também as que mais sofrem. Esse debate tem de incluir a comunidade internacional. As soluções devem ser locais, mas é necessário haver um financiamento global da educação. A pandemia precisa levar as instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, a tomar medidas reais: o que será feito, quais países necessitam de ajuda. Assim como em outros setores, na educação não poderemos investir nas mesmas coisas de antes.

Qual deve ser o papel das escolas no pós-pandemia?

Haverá uma massa gigante de famílias desempregadas. Teremos de lidar com questões sociais maiores, programas de alimentação, acesso à saúde e à internet. As escolas precisam ficar abertas mais tempo e ajudar nesse processo. Em primeiro lugar, para lidar com o aprendizado das crianças que foi perdido, mas também para ser esse ponto de apoio à comunidade, para que as famílias usem os computadores, a biblioteca e para que a comunidade dialogue e troque conhecimento com a escola. Teremos também de investir nas necessidades emocionais dos alunos. Não dá para colocá-los diante de uma tela e esperar que o trauma que viveram passe. Historicamente, ficamos muito tempo pensando em como monitorar e fazer mais provas. Mas a verdade é que notas não são as únicas coisas importantes agora.

E como fica a tecnologia nessa retomada?

Precisamos, sim, reduzir as lacunas de acesso à tecnologia entre ricos e pobres. Mas algo que a covid-19 deixou claro é que as estruturas de aprendizado remoto que temos hoje são inadequadas. Ninguém quer o modelo desta pandemia para seus filhos, nem nas melhores escolas. A tecnologia é só uma ferramenta. Existe um monte de informações online, mas uma tela não ajuda a costurá-las nem a resolver problemas.

Como ajudar os professores a mitigar os efeitos da pandemia?

É preciso mais apoio para que eles usem a tecnologia. E não só usar mas também pensar em boas atividades e desenvolver coisas novas. Hoje, os professores fazem aulas online e gravadas, demanda que surgiu da noite para o dia. E ainda pagam a própria internet. A pandemia mostrou como, sem eles, não iremos a lugar algum. Nos Estados Unidos, ficou claro que os estados que valorizam mais a carreira têm melhores professores e podem exigir padrões mais elevados ­— e alcançam melhores resultados.

*Uma versão anterior desta reportagem apontava que o professor André Mazini havia concluído um doutorado, em vez de um mestrado. A informação foi corrigida. 

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