Tempo de olhar para dentro

A readequação de orçamentos na pandemia levou empresas a investir mais em saúde mental — e executivos celebram os bons resultados

“Mente sã, corpo são”, escreveu o poeta romano Juvenal, numa de suas Sátiras sobre o desleixo com as angústias da alma entre seus contemporâneos — para ele, um sinal de decadência moral. Com a pandemia, mais empresas estão vendo os benefícios de uma “mente sã”. Numa pesquisa da consultoria Willis Towers Watson com 200 líderes no Brasil, 58% revelaram o desejo de incluir ou reforçar programas de saúde mental, como sessões de terapia online, para ajudar os funcionários a lidar com o estresse.

Em algumas empresas, os recursos para programas de saúde mental vieram de economias em outras áreas. É o caso da RSI Informática, empresa de informática de Osasco, na Grande São Paulo. Com o trabalho remoto dos 1.000 funcionários, o consumo de itens do escritório, como luz, água e cafezinho, caiu drasticamente. Essa verba agora custeia sessões de terapia vir­tuais. Antes da crise sanitária, a RSI já oferecia análise a 40 executivos. Com a pandemia, o benefício foi estendido para todos os empregados e dependentes enfrentarem os desafios da vida em quarentena. Neste ano, a RSI pretende investir cerca de 200.000 reais em benefícios de saúde mental. “Hoje, vejo que os funcionários têm tomado melhores decisões e estão mais assertivos”, afirma Marcio Tierno, presidente da RSI.

A adesão ao benefício exigiu um convencimento, promovido por Tierno, para superar o estigma de fazer terapia. O desafio foi menor na gestora de investimentos Warren, que tem muitos jovens na equipe. “Há uma ideia de que quem faz terapia é fraco. Pelo contrário: é corajoso”, diz Kelly Gusmão, vice-presidente de pessoas da Warren. Por lá, o benefício deve ficar disponível no pós-pandemia. “Saúde mental requer manutenção eterna.”

A tendência movimentou os negócios da Vittude, startup que é uma espécie de “Uber dos psicólogos”. Com a pandemia, tudo cresceu na Vittude. O número de psicólogos cadastrados aumentou 50% — hoje são 6.000. A carteira de clientes corporativos saltou de 20 para 78. “Existe empresa que investe 1 milhão e economiza o triplo”, afirma a fundadora Tatiana Pimenta. “Há redução de sinistro em pronto-socorro, de internações psiquiá­tricas de longa duração e até em questões jurídicas.”

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