Revista Exame

Esqueceu a senha? Não faz mal (ou melhor, não fará)

Uma nova geração de sensores que analisam partes do corpo humano está aposentando o uso de códigos numéricos. Em breve, esquecer a senha não será problema para mais ninguém

Agência do Bradesco, em São Paulo: a palma da mão substitui o cartão no saque nos caixas eletrônicos (Germano Lüders/EXAME.com)

Agência do Bradesco, em São Paulo: a palma da mão substitui o cartão no saque nos caixas eletrônicos (Germano Lüders/EXAME.com)

DR

Da Redação

Publicado em 16 de outubro de 2012 às 20h33.

São Paulo - Há uma contradição curiosa do mundo moderno: quanto mais se tem acesso a tecnologias criadas para facilitar a vida dos seres humanos, mais é preciso gastar a memória (do cérebro, não a do computador) para guardar um incontável número de senhas. Faça os cálculos: o banco pede uma senha para o cartão de débito e outra para acessar a internet.

Há uma senha para o cartão de crédito, para o e-mail pessoal e o do trabalho. Se quiser uma passagem aérea ou fazer supermercado online, lá está ela novamente. Mas há boas notícias para quem se sente refém desses códigos secretos. A era dos passwords  está chegando ao fim. 

A responsável pelo feito é a nova geração de sistemas de controle de identidade baseados em biometria, que substituem as letras e os números pela verificação de partes do corpo. Segundo um estudo da consultoria americana Global Industry Analysts, o faturamento desse mercado deverá triplicar nos próximos cinco anos, chegando a 17 bilhões de dólares.

Um bom parâmetro para medir o potencial dessa tecnologia é o interesse das instituições financeiras. Neste ano, os principais bancos brasileiros estão dando seu maior passo em direção ao uso da biometria para substituir senhas numéricas. Por enquanto, quem lidera a corrida é o Bradesco, que investiu um total de 80 milhões de reais em sistemas de reconhecimento.

O banco tem hoje 90% de sua base de 34 000 caixas eletrônicos no país com sensores que reconhecem a palma da mão. Até o final de outubro, metade dos 26 milhões de correntistas do Bradesco já poderá aposentar o cartão do banco nas transações feitas nos caixas de autoatendimento.

No lugar do código armazenado no chip do cartão, o sistema usará as veias da mão como senha. “É a maior mudança na forma como as pessoas sacam dinheiro desde a chegada do caixa eletrônico ao Brasil, em 1982”, diz Candido Leonelli, diretor executivo do Bradesco. 

Entusiasmado com as novidades, o banco está testando para seu call center um sistema de reconhecimento de clientes baseado na frequência da voz, algo já usado pela Bell, maior operadora de telecomunicações do Canadá.

Presente na corrida tecnológica, o Itaú instalou leitores de impressão digital em 6 000 caixas eletrônicos e pretende ter 100% de suas agências com a tecnologia até o final de 2013 (o banco anunciou investimentos de 700 milhões de reais em canais de atendimento, mas não revela o valor aplicado em biometria). No Banco do Brasil, o plano é ter 5 000 terminais com leitores biométricos até o final deste ano. 


Para os bancos brasileiros, a transição veio em boa hora. Os aparelhos de biometria são uma importante arma para combater as fraudes, que causaram perdas de 1,5 bilhão de reais em 2011, um aumento de 60% em relação ao ano anterior. O uso da nova tecnologia nos caixas eletrônicos reduz — pelo menos por enquanto — os golpes tradicionais aplicados nas agências para roubar senhas dos clientes.

“Os prejuízos com fraudes nos terminais que já operam com biometria diminuíram 45%”, afirma Leonelli, do Bradesco. Um estudo divulgado no início de outubro pela Symantec, empresa americana de softwares de segurança, mostra que o Brasil tem um prejuízo anual de 16 bilhões de reais com falcatruas eletrônicas. Boa parte da responsabilidade está na negligência com as senhas.

Quase 40% dos usuários de internet no país não seguem a orientação de criar “senhas fortes”, alternando números, letras e códigos. Nos Estados Unidos, um levantamento recente mostrou que 10% dos americanos que usam cartão de débito escolhem a senha “1234” para autorizar compras.

Além da melhoria da segurança, as empresas ganharão agilidade. Um correntista leva 25 segundos para fazer um saque usando biometria, uma redução de 70% em relação ao processo tradicional. Essas vantagens já eram conhecidas pelos bancos. O que permitiu que eles fizessem a transição agora foi a queda nos custos.

Segundo o italiano Federico Casalegno, diretor do laboratório de experiências móveis do renomado Massachusetts Institute of Technology, a biometria segue a mesma lógica de barateamento de custos de outras áreas da tecnologia, conhecida como Lei de Moore. Essa lei, cunhada por Gordon E. Moore, fundador da fabricante de chips Intel, diz que a cada dois anos o preço dos componentes eletrônicos cai à metade. 

Uma prova da popularização da biometria aconteceu no primeiro turno das eleições para prefeito, realizado no início de outubro. Mais de 7,7 milhões de brasileiros votaram em urnas eletrônicas com leitor de impressão digital ­— em termos tecnológicos, o primeiro degrau de um setor que já conta com softwares que analisam o formato do rosto.

O que deverá impulsionar ainda mais a adoção da tecnologia são os smartphones. Nos aparelhos com o sistema Android, lançados recentemente no Brasil, a senha para desbloquear o telefone foi trocada pelo rosto do usuário. Para acessar o telefone, basta apontar a câmera para a face que o sistema reconhece o dono do aparelho.


Se no Android a tecnologia do reconhecimento de face tem um efeito quase lúdico, no Departamento de Defesa dos Estados Unidos ela virou uma grande aliada no combate ao crime e ao terrorismo. Em setembro, o FBI anunciou um investimento de 1 bilhão de dólares em um sistema de reconhecimento facial para identificar criminosos em aeroportos e pontos turísticos.

“Das tecnologias recentes, o reconhecimento da face é uma das que causarão maior impacto na nossa rotina por causa da popularização das câmeras de segurança e dos smartphones”, afirma o indiano Vijayakumar Bhagavatula, professor da escola de engenharia da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh.

Ele participou do projeto BioSole, um dos mais ousados na área de biometria. A ideia do projeto foi instalar um chip na sola de um calçado para registrar o padrão do caminhar. Dependendo dos movimentos, seria possível reconhecer se pessoas que sofrem de determinadas doenças estão piorando de saúde.

“Estamos testando o sistema no acompanhamento de pacientes com o mal de Parkinson”, diz Todd Gray, fundador da Autonomous ID, empresa que criou o BioSole. 

Em um futuro próximo, tecnologias como o BioSole serão o padrão para a indústria de biometria. São sistemas que deixam de analisar “o que você é”, como as impressões digitais e as veias da mão, para verificar “o que você faz”. “O ser humano tem padrões exclusivos até na forma como digita em um teclado de PC”, afirma o inglês Ant Allan, vice-presidente de pesquisas do Gartner, consultoria americana especializada em tecnologia.

Já há sistemas que conseguem verificar se uma pessoa está sob o domínio de um assaltante, com sensores que captam alterações no tamanho da pupila e nos odores em situações de nervosismo. Nesse ritmo, vai ser difícil explicar para as próximas gerações por que o botão “Esqueceu a senha?” era uma das ferramentas mais úteis para o ser humano nas primeiras décadas do século 21.

Acompanhe tudo sobre:BancosBradescoEdição 1026EmpresasEmpresas abertasEmpresas brasileirasEnsino superiorFaculdades e universidadesMITseguranca-digitalTecnologia da informação

Mais de Revista Exame

Melhores do ESG: os destaques do ano em energia

ESG na essência

Melhores do ESG: os destaques do ano em telecomunicações, tecnologia e mídia

Conheça o castelo na França exclusivo para convidados da Moët & Chandon

Mais na Exame