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Os dois caminhos da América Latina

Num ano em que as maiores nações latino-americanas elegem governantes, políticos de direita e de esquerda tentam convencer o eleitor de que trazem mudança
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LOURIVAL SANT’ANNA, DA CIDADE DO MÉXICO

Publicado em 20/08/2018 às 17:13.

Última atualização em 20/08/2018 às 19:23.

Da Cidade do México a Santiago, no Chile, a América Latina vive uma transição política em 2018. Seis das mais importantes nações da região -— incluindo o Brasil — realizam ou já realizaram eleições recentemente para escolher os novos chefes de Estado que comandarão seus países nos próximos anos. Entre os cinco que já elegeram novos presidentes, três optaram por candidatos de partidos de direita ou centro-direita. Um dos exemplos recentes é a Colômbia. O novo presidente, Iván Duque -— que assumiu o cargo em 7 de agosto —, derrotou o opositor Gustavo Petro, primeiro candidato esquerdista a chegar ao segundo turno no país. Com 42 anos, Duque é o governante mais jovem que a Colômbia já teve. E, apesar de ter sido eleito pelo partido do ex-presidente Álvaro Uribe, ele é um nome novo na política.

Já o México seguiu um caminho distinto. O presidente eleito na segunda maior economia latino-americana depois do Brasil foi o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, do partido Morena. Sua vitória rompeu o controle do Partido Revolucionário Institucional, que esteve no poder entre 1929 e 2000 e retornou em 2012. Quando assumir a Presidência em 1o de dezembro, Obrador será o primeiro governante de esquerda desde 1988, quando Carlos Salinas de Gortari iniciou o atual ciclo de políticas liberais.

Diante desses resultados, analistas políticos e observadores internacionais se questionam se a América Latina vive uma onda liberal, em que os eleitores optam por candidatos de direita ou centro-direita -— como ocorreu no Chile, no Paraguai, no Peru e na Argentina desde 2015 —, ou se os partidos de esquerda e centro-esquerda, que foram a força dominante na década passada, vão se fortalecer novamente, a exemplo do México e da Costa Rica. Não existe resposta simples para essa questão. A própria noção de que possa haver uma onda, seja de que lado for, é problemática. Cada eleição em cada país é decidida por motivos específicos, como carisma, estrutura partidária, índices de criminalidade, corrupção, serviços públicos, desemprego, crescimento econômico, e assim por diante.

No caso do México, uma das maiores razões para a ascensão de Obrador é o desgaste do atual presidente, Enrique Peña Nieto, algo que é consequência de três questões internas. A primeira: Peña Nieto havia prometido reduzir a violência à metade. Depois de cair, o número de homicídios voltou a subir, e agora supera os níveis anteriores, de quase 30 000 por ano. Em segundo lugar, seu governo foi abalado por escândalos de corrupção, um deles envolvendo sua mulher, Angélica Rivera, acusada de ter comprado uma casa de 7 milhões de dólares de um empresário que tem negócios com o Estado. A gota d’água foi o aumento do preço da gasolina em janeiro do ano passado. Peña Nieto havia prometido que o preço cairia após a quebra do monopólio da estatal Pemex. Essa reforma trouxe investimentos de 153 bilhões de dólares ao México. Mas, com a retirada dos subsídios, o preço do combustível subiu.

Já na Colômbia dois medos se confrontaram no segundo turno das eleições, em junho. De um lado, a esquerda associou o candidato da direita, Iván Duque, com os grupos paramilitares criados nos anos 90 para enfrentar a guerrilha, com a morte de inocentes e com o risco do fim dos acordos de paz. Já a direita vinculou a imagem de Gustavo Petro, ex-guerrilheiro do grupo M-19, ao “castro-chavismo” e propagou a ideia de que, se ele fosse eleito, a Colômbia “viraria uma Venezuela”. No fim, prevaleceu a preferência da maioria dos colombianos pela direita. A eleição de Duque significa a continui-dade de políticas favoráveis à iniciativa privada. Petro falava em maior intervenção do Estado e em deslocar a ênfase da extração de petróleo e gás para a agricultura, incluindo a distribuição de terras improdutivas.

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Um dos países que mais representam os pêndulos eleitorais na América Latina é o Chile. A socialista Michelle Bachelet presidiu o país de 2006 a 2010. Foi sucedida por Sebastián Piñera, na época um líder da direita. Bachelet voltou em 2014. E Piñera elegeu-se novamente no segundo turno, em dezembro, assumindo o governo em março deste ano. Mas esta última eleição não foi um déjà vu. Primeiro, porque o candidato de Bachelet, Alejandro Guiller, recebeu 22% dos votos e quase não passou para o segundo turno. A eleição marcou o surgimento de uma terceira força: a Frente Ampla, mais à esquerda, cuja candidata, Beatriz Sánchez, obteve 20% dos votos.

Além disso, o Piñera que venceu desta vez não é o mesmo que governou antes. Na campanha, ele procurou se mover para o centro, adotando políticas social-democratas, o tradicional campo da Concertação, uma aliança dos socialistas com os comunistas que foi desfeita no segundo governo Bachelet. “Certamente este é um Piñera distinto, com mais experiência, mais político, com um Congresso mais contrário, mais fragmentado”, diz Luis Felipe Zárate, pesquisador e analista da Defacto Intelligence, uma empresa de pesquisa de mercado de Santiago. “Ele tem de negociar muito mais.” No Chile, na Colômbia ou no México, os latino-americanos estão optando por presidentes que representem mudanças, seja à direita, seja à esquerda. É um sentimento que também deve influenciar o resultado eleitoral no Brasil.