Revista Exame

A série 'The Bear' é o perfeito encontro particular com investidores

Quando iniciávamos um período de corte da Selic, surgiram novas instabilidades. O investidor terá de ter paciência e tolerância à volatilidade

Momentos como o atual carregam essa rara oportunidade de comprar ótimos ativos por preços aviltantes. Além de ouro e dólar como proteção  (Jian Fan//Getty Images)

Momentos como o atual carregam essa rara oportunidade de comprar ótimos ativos por preços aviltantes. Além de ouro e dólar como proteção (Jian Fan//Getty Images)

Publicado em 26 de outubro de 2023 às 06h00.

No mês de agosto, fomos presenteados com o lançamento da segunda temporada da série The Bear. É um espetáculo. Existe ali uma sutileza profunda dos personagens e dos diálogos, além de silêncios implacáveis que falam mais do que os próprios diálogos.

The Bear serve para validar uma teoria antiga: passar do “bom” ao “muito bom” é razoavelmente difícil, mas caminhar do “muito bom” ao “extraordinário” ou “esplêndido” é um negócio completamente diferente. É desse nível de beleza que estamos falando; das obras-primas, dos eventos raros que causam um impacto tremendo.

Foi também no mês de agosto que terminei o livro Escute as Feras, da antropóloga Nastassja Martin, sobrevivente de uma batalha (literal) com um urso siberiano. Se é sincronicidade ou mera coincidência, vai saber… Nastassja ganhou a alcunha de miedka, empregada para designar pessoas “marcadas pelo urso”. Segundo a tradição, uma miedka passa a viver entre os dois mundos, sendo metade humana, metade urso.

Os investidores enfrentam seu encontro particular com o urso também desde agosto

No momento em que a Fitch acendeu o alerta para a perspectiva do rating soberano americano (ainda que a credibilidade das agências de classificação de risco esteja abalada desde 2008 e elas estejam sempre atrasadas, a decisão serviu de catálise para um movimento já latente), as taxas de juro de mercado passaram a subir muito fortemente lá fora.

As explicações para o fenômeno são variadas. Os dados parecem consistentes com um aumento da produtividade da economia americana, o que implica juros reais mais altos, tal como temos visto nos últimos meses. A inflação também tem sido mais persistente do que se supunha. Pressão inflacionária resistente significa juros mais altos.

O déficit público americano está muito grande e não há sinais de convergência no horizonte tangível. Ao contrário, o Bidenomics teima em se afastar da responsabilidade fiscal. E, se Trump voltar, também não teremos um exemplo histórico de austeridade na Casa Branca. O investidor olha para a trajetória da dívida pública nos Estados Unidos e exige mais juros para comprar títulos do Tesouro americano.

Em paralelo, o Fed precisa reduzir seu balanço, e -Jerome Powell faz leilões sistemáticos para empenhar o tal quantitative tightening — coloca títulos no mercado e enxuga a liquidez do sistema.

O resultado de uma grande reacomodação internacional foi a disparada do yield dos Treasuries para seu patamar mais alto desde 2007. Essa é a variável mais importante do mundo, simplesmente porque ela afeta todas as outras. Estamos todos mais pobres. As ações valem menos. Os títulos de renda fixa, os fundos imobiliários, seu Rolex, seu imóvel (ainda que você não esteja vendo todos eles marcados a mercado).

Isso já seria suficientemente brutal — não só o nível é o mais alto desde 2007 como a variação impressiona, sendo a escalada dos yields no trimestre a mais acentua-da desde 2009. Ocorre, no entanto, que entrou o risco de um evento de cauda na conta, conferindo ao bear market contornos um pouco mais dramáticos.

Cenário positivo?

O cenário positivo sugeriria uma acomodação dos -yields a partir dos níveis atuais. A economia americana desaceleraria, a inflação cederia. Começaríamos uma discussão mais intensa de controle fiscal. A volatilidade seria contida, os yields retornariam a patamares mais amigáveis, e os ativos de risco voltariam a subir. Talvez o Fed possa ajudar e reduzir o ritmo de seu quantitative tightening.

Já o cenário negativo enseja duas preocupações mais estruturais e problemáticas. Se não iniciarmos uma discussão de responsabilidade fiscal nos Estados Unidos, logo estaremos debatendo como o mundo vai financiar o Tesouro americano. Essa seria uma mudança tremenda, em que o dólar teria menor representatividade como referência de valor. E o pior: num momento em que as alternativas estão ainda mais enfraquecidas. A Europa flerta com a estagflação. A China cresce muito menos do que o esperado. O Japão ainda adota política fiscal e monetária frouxa, enquanto os demais bancos centrais sobem juros com vigor.

Como se não bastasse, após a atrocidade cometida pelo grupo terrorista Hamas, iniciou-se uma guerra no Oriente Médio. Embora num primeiro momento o conflito não afete a oferta de petróleo, o risco de envolvimento do Irã e, consequentemente, de desdobramentos sobre o escoamento do estreito de Ormuz empurra os preços da commodity para cima. Temos ainda a Arábia como elemento-chave da história e, no limite, precisamos lembrar do interesse histórico dos Estados Unidos no Oriente Médio e da proximidade da Rússia com o Irã. É evidente que a caminhada em direção à Terceira Guerra Mundial representaria um evento extremo e de baixa probabilidade. Contudo, o risco existe, e só a contemplação da hipótese já assusta. Não seria mau comprar um pouco de ouro como a proteção clássica contra o recrudescimento das tensões geopolíticas.

Má notícia

Para o investidor, a má notícia é que o curto prazo promete continuar bastante volátil e sensível. Vínhamos de um ciclo perverso desde julho de 2021, quando a alta das taxas de juro (entre outras coisas) afetou dramaticamente os ativos de risco no Brasil. Quando as coisas pareciam desanuviar e iniciávamos um ciclo de corte da taxa Selic, tivemos de enfrentar de novo o urso — a pessoa física já estava machucada pela última batalha e agora terá de ter um pouco mais de paciência, dilatação do horizonte temporal dos investimentos e tolerância à volatilidade para ganhar dinheiro lá na frente. De alguma forma, somos todos miedkas, ainda marcados e carregando as cicatrizes dos exageros da era dos juros nas mínimas.

A notícia boa é que ativos de qualidade já oferecem valuations muito convidativos, estando atraentes para os investidores de longo prazo e capazes de suportar a dor imposta pela impiedosa marcação a mercado. Momentos como o atual carregam essa rara oportunidade de comprar ótimos ativos por preços aviltantes. Mesmo o juro real de dez anos próximo a 2,30% nos Estados Unidos parece uma excelente pedida para o longo prazo. No Brasil, sempre foi bom historicamente comprar NTN-B (Tesouro IPCA+) pagando algo próximo a 6% de juro real. O Ibovespa a 7x lucros também costuma ser um bom indicador antecedente de elevados retornos prospectivos.

Essas horas separam os meninos dos lobos; ou dos ursos, sei lá. 

Acompanhe tudo sobre:Revista EXAME

Mais de Revista Exame

Dress watches: IWC apresenta três modelos do Portugieser

Swarovski apresenta coleção baseada nos mistérios subaquáticos

Aplicações na adega: o vinho como investimento financeiro

A luta e o recomeço

Mais na Exame