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Na Amazônia, pecuaristas querem consórcio com cacau para evitar desmatamento

Iniciativa privada e ONG se unem para alavancar a produtividade do gado a partir do manejo em comunhão com com o fruto, inclusive para incentivar a indústria de chocolates finos

Alaion Rosa: pecuarista quer deixar o desmatamento no passado (Célio Cavalcante Filho/JBS/Divulgação)

Alaion Rosa: pecuarista quer deixar o desmatamento no passado (Célio Cavalcante Filho/JBS/Divulgação)

Mariana Grilli
Mariana Grilli

Repórter de Agro

Publicado em 26 de outubro de 2023 às 06h00.

À beira da rodovia Transamazônica, o município de Novo Repartimento, no Pará, é um exemplo da complexidade fundiária na Amazônia Legal: a cidade abriga um território indígena, duas Unidades de Conservação e 40 assentamentos rurais — entre eles o Tuerê, o segundo maior da América Latina. São 250.000 hectares no sudoeste paraense para 4.000 famílias, entre área de moradia, produção agropecuária e reserva ambiental. Ao caminhar por ali, é possível avistar, de um lado, o pasto e, do outro, a lavoura de cacau. A cena resume a aptidão do local: a comunhão entre pecuária e floresta — ou entre a carne e o chocolate.

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Explicar essa combinação remonta à década de 1970, quando houve a concessão de terras públicas no Centro-Oeste e no Norte. Criar gado foi uma das poucas atividades financeiras viáveis quando tudo era mato. A outra saída era a venda do cacau, que perdeu relevância em meados de 1980 por causa da praga vassoura-de-bruxa. De lá para cá, a ciência evoluiu, e as duas atividades seguiram como sinônimos da economia para a agricultura familiar na Amazônia. Agora é possível produzir mais e de forma mais sustentável.

Entre os assentados do Tuerê está Alaion Rosa, pecuarista que recebeu a EXAME Agro em sua propriedade de 50 hectares. Aos 31 anos, ele faz parte da geração que quer ampliar a produtividade e deixar no passado o desmatamento. “Não vou abrir mais área nem sair daqui. Então, precisamos de algum apoio, como essa ideia de criar melhor o gado e tirar o sustento também do cacau”, diz.

A busca pela assistência técnica

Deixar de criar gado está fora de cogitação: a pecuária é alternativa para o consumo próprio e significa dinheiro rápido com a venda dos animais, caso a situação financeira aperte. No passado, terra improdutiva era abandonada. Hoje é possível incrementar a qualidade nutritiva do pasto e permanecer no mesmo local. E foi essa lógica que levou Alaion a entrar para um grupo de pecuaristas assistidos pela ONG internacional Solidaridad, que atua com assistência técnica para disseminar alternativas de incremento à produtividade por meio da agricultura de baixo carbono.

Segundo a ONG, entre 2016 e 2021, um financiamento da Noruega e da Holanda possibilitou reduzir em 64% o desmatamento no município e no entorno — e quem aderiu ao manejo sustentável teve 30% de aumento de renda. Baseado nestes resultados, Alaion partiu para um sistema rotacionado de pecuária intensiva em 6 hectares, com o qual melhorou o tratamento animal com suplementação no pasto, água limpa e mais conforto térmico. Com a lavoura de cacau, ele percebeu incremento da renda e confirmou os benefícios ambientais.

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Paulo Lima, gerente dos programas de cacau e pecuária na Solidaridad, explica que na pecuária extensiva é possível criar duas cabeças de gado por hectare com um ganho de peso médio de 250 gramas por dia por animal. No modelo intensivo, manejam-se oito cabeças por hectare, a um incremento de 600 gramas a cada 24 horas.

O investimento para implementar todo o sistema de rotação parte de 7.500 reais por hectare, custo absorvido pela ONG, que conta com o aporte de 25 milhões de reais do Fundo JBS pela Amazônia.

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Para Andrea Azevedo, diretora de sustentabilidade do Fundo JBS, a parceria é eficiente por injetar recursos em quem conhece a rea­lidade local e as necessidades do pecuarista de pequeno porte. “É aqui, neste pasto, que começa o processo de cria [do gado]. Precisamos pensar soluções conjuntas para que esse pequeno produtor também seja incluído na cadeia, de forma justa, com uma produtividade que independa de novas aberturas de área”, diz.

Em relação ao cacau, Azevedo salienta que a cultura tem índices comprovados de captura de gases de efeito estufa, provendo balanceamento à emissão de metano da pecuária. “Um cacau produzido no terroir ideal e com práticas de agricultura de baixo carbono tem sido cada vez mais valorizado na produção de chocolates finos”, afirma Lima, da Solidaridad.

A repórter viajou a convite do Fundo JBS pela Amazônia.

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