Revista Exame

O empreendedor serial

Como o carioca Marcos Wettreich se transformou num dos maiores criadores de novos negocios do brasil

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Da Redação

Publicado em 18 de fevereiro de 2011 às 12h01.

Quando criança, o carioca Marcos Wettreich queria ser cientista. Achava que assim poderia construir pernas mecânicas e olhos biônicos, tal como faziam os personagens de seu seriado predileto de TV, Cyborg, o Homem de Seis Milhões de Dólares. Wettreich não se tornou cientista, embora tenha feito engenharia eletrônica e conseguido uma bolsa -- nunca aproveitada -- para se especializar em bioengenharia no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Hoje, aos 39 anos, é um empresário de sucesso -- e certamente já ganhou mais de 6 milhões de dólares, embora se recuse a falar sobre o patrimônio que acumulou até agora. Mais que bem-sucedido, Wettreich faz parte de uma categoria especial de homens de negócios: os empreendedores seriais, cujo maior talento é criar empresas, fazê-las crescer e, então, partir para um novo projeto.

Esse tipo raro de empreendedor -- que não se contenta em permanecer com um único negócio, mesmo que esteja crescendo e seja lucrativo -- popularizou-se na década de 90, especialmente no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Por lá, a cultura já arraigada do empreendedorismo foi turbinada com o florescimento da indústria da tecnologia e com o então dinheiro fácil dos investidores de risco. Caso emblemático é o do chinês Pehong Chen, nascido em Taiwan em 1957 e radicado nos Estados Unidos. Ele fundou a Gain Technology em 1989 com 4 000 dólares e a vendeu três anos depois por 100 milhões. Chen até tentou se aposentar, mas não agüentou. Já milionário, participou da fundação da Siebel, que se tornou uma das maiores desenvolvedoras mundiais de softwares de CRM, e da BroadVision, de softwares de comércio eletrônico.

Sem nunca ter viajado para fora do Brasil até os 25 anos, Wettreich foi um dos empreendedores que reproduziu o fenômeno no país. Aos 22 anos, decidiu abrir com quatro amigos da faculdade a Saga, uma empresa de softwares. Desde então, já encarou cinco empreitadas diferentes (veja quadro na pág. seguinte). Foi do zero -- pois teve de pedir 2 000 dólares a um amigo para entrar no primeiro negócio -- aos milhões de lucro. (Sua segunda empresa, a Mantel, chegou a lucrar cerca de 3,5 milhões de dólares por ano.) Acumulou também alguns milhões de dívidas, conseguiu sócios poderosos, abriu, fechou e vendeu empresas. Atualmente, Wettreich é presidente e sócio minoritário de uma das empresas que criou: o iBest, provedor de acesso e de conteúdo à internet, controlado pela Brasil Telecom, companhia de telefonia fixa da Região Centro-Oeste do país. É também acionista e membro do conselho da Neoris, consultoria internacional em tecnologia da informação que entrou no Brasil ao comprar a MLab, outra cria de Wettreich. Atualmente, a Neoris, controlada pelo grupo mexicano Cemex, opera em oito países. Seu faturamento chegou a 150 milhões de dólares em 2002.

Mas por que esse tipo de empreendedor está sempre perseguindo novas oportunidades? Muito provavelmente porque é portador de uma espécie de hipermetropia que permite identificá-las. Enxerga as tendências antes dos outros. "Wettreich tem uma capacidade muito grande de entender o que o mercado gosta, quer ou precisa", afirma a italiana Carla Cico, presidente da Brasil Telecom.

Graças a essa característica, Wettreich criou, tocou e transformou praticamente todos os seus negócios. Foi assim que, em 1996, surgiu a MLab, uma desenvolvedora de projetos de marketing para internet. Depois de acompanhar pelos jornais as críticas ferozes a um escritório de advocacia que havia mandado e-mails a internautas oferecendo seus serviços, decidiu abrir a empresa. Muita gente, na ocasião, achava um absurdo que a internet fosse utilizada comercialmente. "Não entendi aquilo, porque estava convicto do uso corporativo que a internet teria no futuro e percebi que as empresas precisariam de profissionais para fazer isso", diz. Resultado: cinco anos depois, Wettreich venderia o controle acionário da MLab à Neoris por 35 milhões de dólares.

Muito dessa visão não está ligado a conhecimentos teóricos ou a análises aprofundadas. Como boa parte dos empreendedores, Wettreich é intuitivo. A história da criação da Saga, sua primeira empresa, é um exemplo disso. "Foi uma oportunidade que me atraiu meio instintivamente, sem pensar, mesmo porque eu não tinha nenhum preparo naquela época", diz ele. Na ocasião, Wettreich já havia desistido de estudar nos Estados Unidos. Depois de assistir a uma palestra sobre bioengenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluiu que não haveria campo de trabalho quando voltasse para o Brasil. Os laços familiares também o impediram de optar por uma eventual carreira no exterior. Wettreich perdeu o pai aos 5 anos de idade. A mãe, uma arquiteta polonesa que veio para o Brasil em 1938 antevendo o início da Segunda Guerra Mundial, chegou a trabalhar em três empregos para criar Wettreich e sua irmã caçula. Em 1998, já com os frutos de seus primeiros negócios, decidiu financiar uma aposentadoria confortável para a mãe.

Nascido numa família judaica, Wet-treich passou uma infância modesta. A falta do empurrão inicial -- o famoso "paitrocínio" -- foi compensada por várias de suas características pessoais. "Ele é o cara que pula do bungee jump, que se joga no negócio sem olhar para trás", diz o carioca Alexandre Ribenboim, com quem Wettreich fundou a MLab. Na ocasião da abertura de sua segunda empresa, a realizadora de eventos corporativos Mantel, Wettreich não precisou empregar os 17 000 dólares que havia recebido pela venda da Saga. Conseguiu patrocínio da Amplus (na época, empresa líder de equipamentos de rede de computadores), da Itautec e da Microsoft para realizar o primeiro grande evento de redes de computadores no país. Wettreich tinha, então, apenas 26 anos. Na ocasião, ele só conhecia um executivo da Amplus, ex-concorrente da época da Saga, com quem se encontrava em simpósios. Na Microsoft e na Itautec, usou de obstinação, poder de convencimento e talento de vendedor. Primeiro, para ser recebido e, segundo, para alcançar seu objetivo. Resultado: as três empresas compraram a idéia e depositaram o valor do patrocínio do primeiro evento da Mantel na conta bancária pessoal de Wettreich.

"Acho que ele conseguiria vender qualquer coisa para qualquer pessoa", diz Carla Cico, da Brasil Telecom. "Consegue transmitir entusiasmo pelos projetos em que está envolvido." Essa característica, aliás, faz parte do repertório pessoal de Wettreich desde criança. Aos 12 anos, deixou a mãe apavorada ao mostrar que uma de suas coleções tinha 13 moedas de ouro. "Foi um trabalhão explicar para ela que eu não tinha feito nada errado, que só havia feito trocas com os colegas", diz Wettreich. Na adolescência, conseguiu vender sua coleção de maços de cigarros por uma quantia da qual só se lembra que incluía uma nota de 100 dólares.

A exemplo da maioria dos empreendedores seriais, dinheiro parece não ser a principal motivação para a quantidade de negócios e para o empenho que Wettreich deposita em suas empreitadas. "Esses empreendedores são movidos pela realização de criar algo em que possam exercer controle, definir os rumos", diz Carlos Pessoa Filho, do Instituto Empreendedor Endeavor, organização não-governamental de apoio ao empreendedorismo. Mais que o dinheiro, Wettreich parece apreciar os feitos do intelecto. "Nunca planejei minha carreira, não sonhava ficar rico. Fui fazendo as coisas, mas hoje tenho a clareza de que o que mais gosto de fazer é criar. Criar empresas, marcas, produtos, meus filhos", diz Wettreich, casado há quatro anos e pai de gêmeos de 1 ano.

Pode parecer discurso, mas o histórico profissional de Wettreich comprova suas motivações. Em 1995, a Mantel faturava cerca de 8 milhões de dólares. Sua rentabilidade chegava a 45%, valor que Wettreich dividia entre sua conta bancária e o reinvestimento no negócio. Nada mal para um jovem de 33 anos. Mesmo assim, mergulhou em um novo projeto: a editora MantelMedia. Foi aí que Wettreich experimentou a sensação amargada por muitos empreendedores: o fracasso. Em seis meses a MantelMedia lançou quatro revistas especializadas em tecnologia da informação e telecomunicações. A idéia era que as publicações promovessem os eventos da Mantel e também sua consultoria de tecnologia, a MLab. A promoção ocorreu. A revista Internet World chegou a vender 100 000 exemplares por mês. O custo, porém, foi alto. As dívidas da editora chegaram a 2,5 milhões de dólares. O final foi a venda de um dos títulos e a interrupção dos outros três. Wettreich só conseguiu se livrar dos papagaios quando convenceu a GP Investimentos e o fundo Latinvest a entrar como sócios, respectivamente, do iBest e da MLab.

Wettreich é visto como superdotado por vários amigos. Desde a 3a série estudou como bolsista em escolas particulares. Durante três anos da faculdade de engenharia na PUC do Rio de Janeiro, tirou notas que lhe deram a média mais alta da classe: 9,4. Também fez fama de workaholic. Chegava a trabalhar 75 horas por semana entre 1997 e 1999, época em que dirigia quatro empresas e enfrentou dificuldades financeiras. Hoje, está mais relaxado. Trabalha cerca de 60 horas semanais. Consegue jogar basquete e assistir a pelo menos um filme por dia. Desde a crise na MantelMedia, porém, continua a enfrentar seguidas noites de insônia à base de Lexotan.

Apesar do tino para marketing -- reconhecido por sócios e até mesmo por ex-funcionários que não se deram bem com ele --, Wettreich é pouco afeito a controles, especialmente os financeiros. "Uma das minhas deficiências é não ter muita paciência para compor valores", diz. A gestão de pessoas seria outro ponto fraco de Wettreich. "O Marcos é muito duro com quem não corresponde às expectativas", diz o sócio Ribenboim. Sua dificuldade em delegar também é conhecida e, provavelmente, uma das causas de suas longas jornadas de trabalho. "No começo sofria mais, acompanhava tudo de muito perto", diz Wettreich. "Mas acho que estou amadurecendo." Wettreich, ao que parece, vem aprendendo muito durante seus quase 20 anos como empreendedor. E a disposição para o aprendizado, como a história ensina, é um dos pontos fundamentais para o sucesso. "Acredito que meu melhor negócio é sempre o próximo", diz ele.

UM NEGÓCIO ATRÁS DO OUTRO
O primeiro emprego do carioca Marcos Wettreich foi um estágio de seis
meses em uma fabricante de computadores única empresa em que trabalhou
sem ser sócio. Conheça a história dos negócios criados por ele
1985
Aos 22 anos, pega 2 000 dólares emprestados de um amigo para fundar a Saga
empresa de desenvolvimento de redes locais de computadores. Os sócios
são quatro colegas da faculdade
1987
Metade da Saga é vendida a um grupo francês por cerca de 500 000 dólares
(400 000 são investidos na empresa e 100 000 são divididos entre os cinco
sócios). Dois anos depois, Wettreich sairia do negócio com 17 000 dólares
1990
Funda a Mantel, empresa de eventos corporativos do setor de tecnologia.
A Mantel chega a faturar 8 milhões de dólares ao ano. Detalhe: o lucro líquido
girava em torno de 45% da receita
1995
Abre a editora MantelMedia e começa a publicar quatro revistas relacionadas
a tecnologia e telecomunicações. A meta é difundir os assuntos ligados à
tecnologia e, claro, promover os eventos da Mantel
Cria o Prêmio iBest para eleger os melhores sites da recém-lançada internet
brasileira. O site iBest consegue popularidade e, portanto, publicidade
e torna-se uma das marcas mais importantes da internet no país
1996
Funda a MLab, empresa de consultoria de projetos de marketing baseados na
internet. A empresa começa desenvolvendo sites corporativos numa sala de
30 metros quadrados no centro do Rio de Janeiro
1997
Pela primeira vez, Wettreich chega ao final do ano sem lucro devido às perdas
geradas pela editora
1999
Com cerca de 3 milhões de dólares em dívidas, consegue aporte de capital
da GP Investimentos para o iBest. Com o dinheiro, leva o prêmio para Espanha
e México no ano seguinte. Vende também parte da MLab para o fundo Latinvest
2001
Vende a MLab por 35 milhões de dólares para a Neoris, empresa controlada
pelo grupo mexicano Cemex. Wettreich permanece como o maior acionista depois
da Cemex. Vende 13% do iBest à Brasil Telecom por um valor estimado em 13
milhões de reais. O iBest é transformado em provedor de acesso e de conteúdo
gratuito à internet
2002
Fecha as operações do Prêmio iBest no México e na Espanha, inviabilizadas
pelo estouro da tecnobolha. Wettreich vende o controle da iBest Company
à Brasil Telecom por 50 milhões de reais, sendo que 35 milhões entram como
investimento na empresa. Permanece como sócio minoritário e presidente do
provedor

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