Quais são os desafios a serem superados após a aprovação das vacinas?

A imunização está aí, mas distribuí-la ainda é um desafio contra a covid-19

AS PANDEMIAS INVARIAVELMENTE ACABAM. Pode parecer um conceito difícil de sintetizar diante da enxurrada que foi 2020. Mas a tão almejada chegada da vacina aponta para um caminho um pouco mais otimista em 2021. Foram mais de 200 imunizantes desenvolvidos por diferentes laboratórios e pesquisadores pelo mundo — que receberam investimentos astronômicos por parte de farmacêuticas e governos —, e agora uma dúzia deles está nas fases finais de testagem, e alguns começam a ser aplicados em caráter emergencial. 

Cansaço? Estafa? Burnout? Faça da pandemia uma oportunidade de reset mental

É notório que o desenvolvimento rápido de uma vacina contra a covid-19 foi parte de uma resposta acelerada contra a pandemia. Dez anos de pesquisa científica e testes clínicos foram realizados em apenas dez meses. A expertise científica permitiu desenvolver vacinas de vírus inativado, como a Coronavac, do laboratório chinês Sinovac, ou vacinas de adenovírus modificado, caso da AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford.

O histórico de pesquisas trouxe também a técnica do RNA mensageiro, presente na vacina do gigante farmacêutico Pfizer, aliado do laboratório alemão BioNTech, que pretende programar as proteínas do corpo humano para combater o coronavírus. É uma vacina inédita, mas fácil de produzir em grande escala, ainda que de difícil armazenagem, pois requer temperatura de -70 °C.

Se o plano seguir como o esperado, até o final de 2021 a humanidade terá produzido uma quantidade suficiente de vacinas para imunizar parte significativa da população, atingir a imunidade coletiva, diminuir os riscos de casos graves da doença, reduzir a incidência dos sintomas mais severos ou mesmo evitar a sobrecarga dos sistemas de saúde ao redor do mundo. A ­covid-19, embora possa levar anos para desaparecer (se é que algum dia ela vai sumir completamente), ficará aos poucos em segundo plano em vez de estar no centro do palco.

Mas, apesar do desenvolvimento acelerado, o ano de 2021 impõe novos desafios para a medicina, os governos e as empresas, que agora precisam encarar como distribuir e aplicar os imunizantes enquanto lutam contra a pandemia — afinal, a segunda onda da doença no Hemisfério Norte e o crescimento de novos casos no Brasil apontam que o combate ao coronavírus ainda deve levar meses, senão o ano todo.

Entender como será a distribuição é crucial. Uma análise feita pela Universidade Northeastern aponta que, se 2 bilhões de doses de vacinas com eficácia acima de 80% forem distribuídas aos 50 países mais ricos, serão prevenidas 33% das mortes. Mas, se as mesmas doses forem destinadas a todos os países proporcionalmente de acordo com a população, a imunização poderá salvar quase duas vezes mais pessoas, com 61% das mortes evitadas. 

É bem provável que a corrida pelas vacinas incorra em problemas diplomáticos. Os Estados Unidos já reservaram 1 bilhão de doses para seus 328 milhões de habitantes (algumas versões dos imunizantes requerem duas doses). Outras nações, como Japão, Reino Unido e Canadá, seguem caminhos semelhantes. Há iniciativas que buscam contornar a preferência dos países ricos e negociar doses para as nações mais pobres, a fim de garantir que uma parcela maior da população seja imunizada e mais vidas possam ser salvas.

A Gavi Alliance, que trabalha com distribuição de vacinas em países em desenvolvimento, em parceria com a Fundação Bill e Melinda Gates, desenvolveu a iniciativa Covax Facility para garantir o acesso global às vacinas e conta com o apoio da ­Unicef, da Organização Mundial da Saúde e de mais de 180 paí­ses, incluindo o Brasil. A meta é fornecer 2 bilhões de doses aos países participantes, sendo 92 nações de renda baixa e média, até o final de 2021.

Infectologistas preveem que programas de imunização bem-sucedidos nos países ricos podem culminar no envio do estoque excedente de vacinas para outras regiões. Uma projeção feita pela consultoria geo­política Eurasia dá boas chances (70%) de que os americanos compartilhem vacinas ou invistam no programa global Covax, reforçando a imagem de internacionalista do presidente eleito Joe Biden.

Chegada de doses da Coronavac ao Brasil: a distribuição da vacina é um dos principais desafios para o ano

Chegada de doses da Coronavac ao Brasil: a distribuição da vacina é um dos principais desafios para o ano (William Moreira/Futura Press/Estadão Conteúdo)

No Brasil sobram incertezas sobre a vacinação. O Programa Nacional de Imunização, originado em 1973, é reconhecido pela capacidade e abrangência, e o Brasil foi, durante anos, uma referência internacional. Para Rosana Richtmann, médica infectologista do Instituto Emílio Ribas, o país é sedutor para as fabricantes de vacinas: tem uma população enorme, bom histórico de aceitação das imunizações e boa cobertura vacinal. “Vislumbro um ano em que o coronavírus ainda será central, mas veremos uma diminuição progressiva da transmissibilidade, conforme vacinamos os principais grupos de risco e os profissionais de saúde”, diz.

“O primeiro semestre será de muito trabalho. Espero que a política não interfira no que tem de ser feito.” A preocupação dos especialistas é direcionada ao comportamento dos governos federal e esta­duais. Com a falta de uma organização centralizada no Ministério da Saúde, há o temor da regionalização da vacina dentro do país, com diferentes articulações políticas — uma espécie de repetição do cenário externo, mas internamente.

 (Arte/Exame)

Para o médico José David Urbaez, consultor de infectologia do Alta Diagnósticos e diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, o manejo da pandemia e da vacinação é uma tarefa complexa. “Se todo o sistema que já temos é bem sedimentado, tem hierarquia técnica, somos capazes de levar adiante essa campanha, mas temos de entrar em sintonia de discurso”, diz. 

Além de adquirir a vacina, é preciso ter recursos como seringas e agulhas, profissionais treinados e salas de vacinação equipadas. A campanha de imunização requer um trabalho extra de angariar informações: será preciso monitorar quem tomou as vacinas, quais doses, de quais lotes, quando e onde. Só assim eventuais efeitos adversos e reações não conhecidas durante os testes preliminares da fase 3 poderão ser acompanhados.

Embora o desenvolvimento tenha sido rápido e as etapas de teste acompanhadas em tempo real, a pesquisadora Elena Caride, gerente do Programa de Vacinas Virais de Bio-Manguinhos/Fiocruz, explica que os testes dos imunizantes seguem até o final de 2022 e 2023, e que a eficácia divulgada até o momento é interina, feita para implementação rápida e para frear a pandemia.

“Não sabemos se a vacina terá efeito esterilizante, que impede que uma pessoa vacinada transmita o vírus”, diz. De acordo com os especialistas, medidas como uso de máscara, distanciamento social e higienização das mãos e de objetos ainda serão realidade em 2021. “Precisamos de uma vacina com eficácia alta. Mas, se tivermos eficácia menor, a cobertura vacinal precisará ser maior. Esse balanço é crítico”, afirma.

Outra dúvida que ronda a vacinação é como será seu desempenho no longo prazo. Por definição, é impossível saber por quanto tempo a imunidade se manterá. “A vacina contra a febre amarela existe desde 1930 e sabemos que boa parte dos vacinados ainda tem anticorpos neutralizantes 40 ou 50 anos depois. 

Mas foram necessários 50 anos para saber disso”, diz o infectologista Carlos Fortaleza, professor na Unesp e membro do Comitê de Contingência da Covid-19 no estado de São Paulo. “O que se sabe é que os indivíduos infectados com o ­Sars-CoV-2 [o vírus da covid-19] vão perdendo imunidade no decorrer dos meses. Há casos de reinfecção. São raros, mas é um alerta de que as vacinas podem não gerar imunidade permanente.”

Além disso, pouco se sabe sobre efeitos duradouros da covid-19 para quem já se recuperou. O ano começa com a vacina, mas ainda continua cercado de incertezas. Distribuir 10 bilhões de doses para 7,8 bilhões de pessoas é apenas o primeiro passo — embora bem-vindo — para o fim da pandemia. 

 (Arte/Exame)

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