Revista Exame
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O Brasil na velocidade do 5g

As operadoras de telefonia investem pesado na internet móvel super-rápida e querem conectar robôs e drones nas empresas

Alberto Griselli, CEO da TIM Brasil: “Hoje, 7% dos clientes TIM no Brasil já utilizam 5G” (Leandro Fonseca/Exame)

Alberto Griselli, CEO da TIM Brasil: “Hoje, 7% dos clientes TIM no Brasil já utilizam 5G” (Leandro Fonseca/Exame)

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Leo Branco

15 de dezembro de 2022, 06h00

Uma das principais apostas das empresas de telecomunicações no mundo, a tecnologia 5G deve mostrar a que veio definitivamente no Brasil em 2023. Implantado a partir de julho de 2022, em Brasília, o sinal 5G já está nas 27 capitais desde outubro. Até o fim de 2023, estará em mais 26 cidades acima de 500.000 habitantes, de acordo com o cronograma de autorização do sinal feito pela Anatel, a Agência Nacional de Telecomunicações. Praticamente um terço da população brasileira estará em áreas cobertas pelo espectro do 5G. É um avanço veloz na comparação com o visto em tecnologias anteriores. No 4G, por exemplo, praticamente dez anos correram entre o leilão dessas faixas e o momento de o sinal estar em pleno funcionamento nas principais localidades do país. 

Do ponto de vista da demanda dos consumidores, a tecnologia 5G promete fazer parte do dia a dia dos brasileiros em 2023. O número de telefones celulares habilitados com a tecnologia deve multiplicar por seis nos próximos 12 meses, para 25 milhões de unidades, de acordo com projeção da consultoria Teleco. “Será o maior ritmo de expansão dessa tecnologia até agora”, diz Eduardo Tude, fundador da Teleco e um dos principais especialistas em telecom do Brasil. E, num universo de 261 milhões de celulares atualmente habilitados para funcionar no Brasil, o 5G ainda terá muito espaço para expansão para além de 2023.

Em boa medida o apetite pelo 5G ocorre em razão de frustrações dos consumidores com as tecnologias anteriores. Lançado no Brasil às vésperas da Copa do Mundo do Brasil, em 2014, boa parte do apelo comercial com o sinal 4G era permitir uma experiência virtual satisfatória, como mandar fotos e filmes para redes sociais ou fazer chamadas por vídeo, mesmo em regiões com muita gente disputando o mesmo sinal — a exemplo de um estádio de futebol.

Quase dez anos depois, essa ainda é uma realidade distante de muitos brasileiros. As três principais operadoras (Vivo, TIM e Claro) estão presentes em mais de 90% das 5.570 cidades do país com sinal 4G. As estatísticas contam só uma parte da história. Áreas rurais, por exemplo, costumam ter sinais muito fracos ou inexistentes. Por isso, só 74% dos domicílios rurais do país têm acesso à internet — boa parte dela via satélite. Nas zonas urbanas, o acesso é desigual. Áreas periféricas ou grandes eventos, como jogos em estádios ou festivais de música, costumam conviver com apagões frequentes do sinal. 

A promessa do 5G é colocar o congestionamento definitivamente para trás. Os dados do 5G navegam por vias separadas das demais tecnologias. Ou seja, um pico no uso do 3G ou do 4G pouco ou nada afeta o funcionamento do 5G. Por isso, a promessa é de uma velocidade de 10 a 20 gigabytes por segundo, até dez vezes mais rápida do que a usual nos celulares 4G.

Mais do que melhorar a experiência da pessoa física, o 5G promete trazer uma mudança de paradigma nos negócios das operadoras de telefonia. De 1973, ano do primeiro telefonema via celular realizado no mundo, até agora, a telefonia sem fio ajudou sobretudo pessoas a interagir mais e melhor entre si. O trânsito de dados corporativos, como o decorrente do funcionamento de data centers, depende de investimentos pesados em infraestrutura de redes — quilômetros de fibra óptica, servidores e por aí vai. “Boa parte desse fluxo de dados deve migrar para o 5G daqui para a frente”, diz Alberto Griselli, CEO da TIM Brasil, braço da operadora italiana no país.

“A grande novidade do 5G é a possibilidade­ de o sinal mobile atender ao mundo corporativo.” Na conta de Griselli está o fato de a velocidade do 5G permitir a conexão de milhões de dispositivos eletrônicos capazes de conversar uns com os outros — a chamada internet das coisas. “Empresas que até agora dependiam de estruturas próprias de conexão poderão recorrer ao 5G para implantar novos processos e ganhar produtividade”, diz.

Aqui e ali os primeiros sinais da revolução prometida pelo 5G na produtividade das empresas já começam a aparecer. Na operação da Brasil Terminal Portuário (BTP), maior terminal de contêineres do Porto de Santos, uma rede de 5G particular, instalada pela TIM e pela fabricante de infraestrutura de telecom Nokia ao longo de 2022, já permite a boa parte dos 1.400 funcionários conduzir a movimentação dos guindastes e dos contêineres através de uma central de monitoramento a alguns metros do cais. Antes, o vaivém das máquinas precisava ser feito in loco, em processos sem escala e com risco de acidentes. “A tecnologia tem o poder de tornar o setor portuário mais eficiente, seguro e sustentável”, diz ­Ricardo Arten, CEO da BTP.

Na esteira da instalação de antenas 5G em todos os bairros da capital paulista, num processo concluído em agosto de 2022, a TIM foi contratada pelo Hospital Sírio-Libanês para, junto com a consultoria Deloitte, montar uma ambulância conectada. Nas últimas semanas, uma das unidades móveis de pronto atendimento do hospital dedicada aos casos de infarto roda por São Paulo com um médico generalista conectado a um grupo de especialistas na retaguarda — seja no próprio hospital, seja em outros endereços. A ideia é que o médico no local mande vídeos, fotos e evidências do paciente em tempo real para os especialistas a fim de tomar uma decisão imediata. 

Uma das maiores apostas de Griselli para o uso do 5G é no agronegócio. O Brasil é um país continental com vastas extensões do território sem nenhuma conexão à internet — a TIM promete ser a primeira operadora a cobrir os 5.570 municípios do país com algum sinal de internet até o fim de 2022. No campo, o interesse de empresas pelo 5G pode empurrar o sinal de alta velocidade a regiões até agora pouco ou nada conectadas. E, de quebra, servir de alavanca para a inclusão digital de milhões de brasileiros.

Nas contas da TIM, projetos de redes privadas de 5G da operadora já cobrem 12 milhões de hectares no Brasil — algo como 0,1% do território nacional. Entre os pioneiros está a São Martinho, dona de usinas de cana-de-açúcar no interior paulista em que drones para monitorar pragas já são operados à distância em razão de as fazendas terem a rede 5G. “O benefício fica também para os funcionários e as famílias deles, que também aproveitam a internet de altíssima velocidade”, diz.

A importância do 5G para o negócio das telefônicas fica evidente no volume previsto de investimentos. Em 2021, por causa do leilão do 5G, o setor investiu 38,5 bilhões de reais no Brasil, algo como 10% acima de 2020, segundo a Conexis, associação do setor. O resultado foi uma proliferação de antenas 5G pelo Brasil — 3.460 delas da TIM, 1.902 da Claro e 1.829 da Vivo, segundo dados da Anatel. Atualmente, 7% das estações repetidoras de internet móvel no país já são preparadas para a internet de altíssima velocidade. Daqui para a frente, o 5G vai seguir estimulando uma onda de recursos ao setor. Na Vivo, líder do mercado de telefonia móvel, a projeção é de 18 bilhões de reais de janeiro de 2022 a dezembro de 2023.

Em outubro, a companhia tinha 500 bairros com sinal 5G em 27 cidades. Na TIM, de um total de 14 bilhões de reais deslocados pela empresa no período de 2022 a 2024, cerca de 90% irão para a instalação de antenas e demais estruturas de apoio para levar o sinal às localidades autorizadas pela Anatel. A expansão na oferta do 5G, aliada à inclusão de clientes oriundos da Oi na base de clientes (TIM, Vivo e Claro pagaram 15,9 bilhões de reais em abril para ficar com os 40 milhões de clientes da Oi, telecom em recuperação judicial), tem colaborado para resultados expressivos na TIM. A receita líquida da operadora no terceiro trimestre de 2022, de 5,6 bilhões de reais, é 24,4% superior à vista no mesmo período de 2021.

A aposta pesada da operadora no 5G reflete o otimismo de quem entende­ do assunto sobre o potencial da nova tecnologia. Vide o resultado de uma pesquisa recente do IEEE, instituto global de engenheiros eletrônicos, com mais de 10.000 associados — incluindo gente do Brasil. Para 66% dos entrevistados por aqui, o 5G será o grande destaque de tecnologia em 2023 e deverá contribuir para a expansão de outras tecnologias também citadas como destaque no próximo ano, como metaverso (abordado por 62%), realidade aumentada (38%) e computação em nuvem (36%). A dúvida, agora, é se o avanço da tecnologia 5G em 2023 vai, de fato, conseguir suprir a expectativa elevada posta em cima dela. 


0 BIG BANG DO 5G

Para Alberto Griselli, CEO da TIM, o impacto da internet móvel de altíssima velocidade será o aumento da produtividade das empresas 

Embarcação de contêineres no Porto de Santos: rede 5G permite movimentar guindastes à distância (Germano Lüders/Exame)

O italiano Alberto Griselli é um dos maiores entusiastas da tecnologia 5G no Brasil. Em fevereiro de 2022, Griselli assumiu o posto de CEO da TIM Brasil, braço da operadora de telecomunicações italiana, após três anos como principal executivo de finanças da empresa. A chegada à cadeira principal da telecom coincide com uma fase de otimismo por ali com as possibilidades do 5G. Até 2024, a companhia deve investir 14 bilhões de reais, a maioria disso no avanço do sinal da internet móvel de altíssima velocidade em grandes centros urbanos. Na entrevista a seguir, Griselli explica por que a nova tecnologia vai mudar o modelo de negócios das empresas de telecomunicações.

O que muda para as empresas de telecomunicações com a chegada do 5G?

Todas as tecnologias celulares até agora [2G, 3G, 4G] sempre tiveram como principal público o consumidor. Hoje temos mais ou menos 7 bilhões de pessoas conectadas com celular. Com o 5G abre-se a possibilidade de objetos serem conectados, a internet das coisas. Hoje já há 14 bilhões de conexões entre coisas no mundo. Esse número devetrá chegar a 30 bilhões em 2028. É um crescimento absurdo. O 5G vai permitir a conexão de pessoas e de empresas de uma maneira muito diferente daquela que existia até a tecnologia 4G.

E qual é o impacto disso para as empresas de telecomunicações?

A grande novidade do 5G é o mundo corporativo. O tempo de latência no 5G é muito menor do que o usual nas tecnologias anteriores. Por isso, o 5G permite gerenciar uma quantidade de sensores por área muito maior que o 4G. Isso abre muitas possibilidades para as empresas utilizarem a tecnologia para automatizar processos críticos, que dependem de uma precisão difícil de ser obtida com as tecnologias anteriores. Tudo isso permite melhorar alguma parte do processo produtivo, ou aumentar a qualidade e fazer mais com menos custo, o que tem um impacto direto no bottom line, no lucro. 

A TIM Brasil já sentiu esse benefício?

O negócio corporativo é ainda pequeno, mas está crescendo muito rapidamente. Já estamos com 5G em 12 milhões de hectares do Brasil, muito em razão de projetos para empresas do agro. O book value dos projetos corporativos da TIM Brasil já atinge centenas de milhões de reais. Em 2023, vamos colocar mais antenas ligadas ao nosso negócio B2B do que no B2C, ao consumidor final. Hoje o B2B é algo muito pequeno, menos de 10% da nossa receita, mas pode crescer e chegar a 40% no médio prazo. 

Como uma empresa de telecom ganha dinheiro com 5G para empresas?

A gente hoje ganha uma margem sobre a instalação de redes para esses clientes. Depois temos uma segunda camada, que é a conectividade. Ou seja, esses sistemas precisam se comunicar entre si. A terceira camada é o gerenciamento dessa infraestrutura, o que nós fazemos também. A quarta camada são os casos de uso, as aplicações práticas, em que juntamos empresas parceiras para criar soluções que aumentem a produtividade das empresas. 

Como está a adoção do 5G no Brasil na comparação com o exterior?

Fizemos aqui uma expansão que chamamos de cobertura all in: cobrimos a cidade inteira, sem exceção, de uma vez só. Em São Paulo, temos cobertura nos Jardins e também em Engenheiro Marsilac, o bairro mais afastado. Isso já se reflete nas vendas: 80% dos aparelhos vendidos nas lojas da TIM já estão habilitados para 5G. O que estamos percebendo é um número significativo de pessoas trocando celulares 4G por modelos 5G. A esta altura, estávamos esperando ter 2% dos clientes TIM no Brasil já utilizando 5G no dia a dia. Hoje, 7% dos clientes TIM no Brasil já utilizam 5G.

Por que esse avanço acima das expectativas?

O Brasil tem uma situação particular porque estamos chegando depois de outros países nessa tecnologia. Na Europa foi feito anos atrás, quando a tecnologia era mais cara. O fato de ter sido feito agora o leilão (realizado pelo governo federal ao longo de 2021 e 2022) e de não ter sido arrecadatório de impostos ao governo facilitou. Na Europa e no Chile o leilão foi arrecadatório. Aí, de fato, o custo por cliente fica mais alto e isso impacta a capacidade de investimento das operadoras e a velocidade das conexões. Em vários países da Europa com leilão arrecadatório o desenvolvimento do 5G está indo aquém do esperado, está devagarzinho. Aqui a cobrança do governo foi por cobertura. Hoje há uma antena para cada 100.000 clientes. No ano que vem será uma antena para cada 50.000. E nós da TIM estamos colocando mais do que o pedido pelo regulador. Para além das questões regulatórias, o Brasil tem outros pontos fortes. Dadas as dimensões continentais do país, hoje o mobile tem papel central.No agronegócio, por exemplo, é mais eficaz chegar lá com a tecnologia 5G. Em países mais desenvolvidos, pode haver mais infraestrutura fixa na comparação com a móvel. No Brasil, não. E, por isso, o país tem boas condições para fazer o negócio do 5G crescer.