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Como a racionalidade exerce papel em nosso comportamento financeiro?

A racionalidade está ligada à sobrevivência. Vale para a vida, para os investimentos, e parece valer para o novo governo

"O instinto de sobrevivência do novo governo pode ser suficiente para despertar maior interesse pelos ativos financeiros locais" (Daniel Grizelj/Getty Images)

"O instinto de sobrevivência do novo governo pode ser suficiente para despertar maior interesse pelos ativos financeiros locais" (Daniel Grizelj/Getty Images)

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Da Redação

Publicado em 19 de janeiro de 2023, 06h00.

“Todo mundo tem um plano até levar o primeiro soco na cara.” Bom resumo do filósofo Mike Tyson. A ideia da racionalidade também é um pouco assim. Todo mundo é racional — desde que não seja sobre os próprios problemas ou sobre as ameaças reais. O estudo do comportamento supostamente racional ocupa, claro, vários campos da ciência.

Na Teoria Econômica, essa história começa com a ideia das “expectativas rígidas”. Sua projeção para um preço ou um fenômeno amanhã seria basicamente o seu valor anterior.

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Depois, percebemos que as pessoas se moldam aos acontecimentos e incorporam informações novas.

Fomos então para as “expectativas adaptativas”. Os agentes econômicos adaptam prognósticos conforme os erros de medições anteriores.

Aí, veio toda aquela turma de Chicago, com destaque para John Muth e sua inveja da física, tentando aproximar a economia das ciências naturais, para torná-la mais formal e matematizada, o que lhe conferiria mais respeito na Academia aos afastar-se da soft science.

Chegamos às “expectativas racionais”, em que seríamos seres capazes de cálculos matemáticos quase como robôs, incorporaríamos toda a informação disponível e não incorreríamos em erros sistemáticos.

Nunca encontrei esse tal Homo economicus na rua. Suspeito que Herbert Simon também não. Ele trouxe a noção da racionalidade limitada. Ganhou Prêmio Nobel e tudo. Seríamos, sim, seres racionais, mas não essa máquina impecável de coletar, absorver, armazenar e processar informações. Teríamos nossos limites. Afinal, somos humanos.

Daniel Kahneman (outro Nobel) e Amos Tversky foram além em sua Prospect Theory, base das chamadas Finanças Comportamentais: a observação das decisões humanas mostra como não somente temos limites à racionalidade mas também somos uma máquina programada, sob determinadas circunstâncias, para cometer erros sistemáticos, por causa de nossos vieses cognitivos. Temos uma inclinação programática na direção de certos erros.

Entre suas descobertas está a noção de que, na prática, o investidor não se mostra avesso a risco, como a teoria neoclássica gosta de supor, mas, sim, avesso a perdas. Ele é avesso a risco para situações de ganhos potenciais e disposto a risco em situações de perigo/perda, o que, inclusive, contraria o preceito de racionalidade estrita, alinhada à ideia de estabilidade das preferências.

Então veio um sujeito muito esperto, chamado Gerd Gigerenzer, com uma proposta diferente, crítica às Finanças Comportamentais. Se você está em plenas condições de saúde, dificilmente vai topar ser cobaia de um novo tipo de tratamento para o câncer de pâncreas. Já se você está com uma doença terminal, muito provavelmente estará mais disposto à experimentação.

A racionalidade há de se encontrar com preceitos biológicos e deve necessariamente se ligar à sobrevivência. Breve parêntese: curioso como a racionalidade ecológica se liga ao objetivismo da filósofa Ayn Rand. Para ela, racionalidade é sobrevivência. Pronto, chegamos aonde queríamos.

Depois de uma primeira semana muito ruim, em que o governo eleito parecia não ter aprendido nada com os erros do passado, fazendo ecoar o princípio da contraindução de Mário Henrique Simonsen (“vamos insistir no que já deu errado até que isso dê certo”), há sinais de alguma acomodação.

Os mecanismos de pesos e contrapesos, ainda que aos trancos e barrancos, entram em ação, seja no sentido de preservação da nossa democracia, seja em prol de menos radicalismo na política econômica.

Houve uma reação institucional coordenada aos atos de vandalismo em Brasília, sem que o risco de ruptura pudesse escalar. Depois de falas assustadoras, os ministros controlaram o ímpeto e não houve novas ofensas à austeridade fiscal (ou à aritmética elementar das contas públicas).

Os responsáveis pela área econômica discursam de maneira ponderada e já se fala com objetividade sobre a necessidade de ajuste fiscal. De maneira natural e pouco percebida, acontece uma tácita acomodação entre os agentes econômicos e o governo, numa curva de aprendizado recíproca e dialética. Um precisa do outro.

Mudança de ideologia? Não é o caso. Prevalece o instinto de sobrevivência. Insistir na direção errada seria inviabilizar o novo governo aos três meses de vida.

Os juros caminhariam para além de 15%, o dólar buscaria os 7 reais rapidamente. Não há hipótese de uma boa política social diante dessas variáveis. A inflação viria a galope, com a perda do valor da moeda. O juro estratosférico levaria à recessão e ao desemprego.

Capotaríamos na reta, num momento em que o mundo melhora e oferece uma oportunidade ao Brasil. O mundo, que quer commodity e comida (coisas que nós temos), precisa reorganizar todo seu supply chain, dando lugar ao friend shore ou near shore.

O Ocidente precisa se reindustrializar. O interesse do capital internacional pelo novo governo do Brasil é real. O capitalismo woke se encanta pelas discussões de meio ambiente, igualdade de gênero e racial. Boa parte dos fundos europeus se excita ao ouvir sobre a Amazônia — mais do que um clichê, é uma realidade.

O instinto de sobrevivência do governo pode ser suficiente para despertar maior interesse sobre os ativos financeiros locais. Nosso juro real é um dos maiores do mundo, e a bolsa negocia em valuations semelhantes àqueles das crises do subprime em 2008 e do ápice da pandemia de covid-19 em 2020 — em todos os casos, se mostrou um grande acerto comprar ações depois de 18 meses.

As idas e vindas já demonstradas nas primeiras semanas do ano devem ser a dinâmica à frente. Algo mais próximo à mediocridade do que propriamente de um Brasil mais eficiente, de um equilíbrio macro pautado por juros baixos, maior participação do setor privado e perseguição aos ganhos de produtividade.

Não há como perder de vista a natureza das coisas: ainda temos sinalizações de uma maior participação do Estado na economia e mais dirigismo. O bom e velho maratonista chamado CDI nos faz um convite oportuno, enquanto o dólar mantém sua essência de um bom hedge à posição comprada em bolsa. Não nos esqueçamos: no final do dia, a grande meta é sobreviver.


(Arte/Exame)

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