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Menos boi, mais floresta: a receita para a pecuária sustentável na Amazônia

Em Jacundá, no Pará, a EXAME visitou um projeto de crédito de carbono que incentiva pecuaristas a manter a floresta em pé e recupera áreas de pastagem degradadas

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Floresta Amazônica: vista panorâmica das áreas preservadas do produtor Adão Ribeiro, em Jacundá (PA) (Mariana Grilli/Exame)

Floresta Amazônica: vista panorâmica das áreas preservadas do produtor Adão Ribeiro, em Jacundá (PA) (Mariana Grilli/Exame)

Em terra de boi, quem tem carbono é rei. Essa tem sido a tese do empresário rural Adão Ribeiro, que, no interior do Pará, está colocando em prática a transição da pecuária na Amazônia. Em Jacundá, a 440 quilômetros da capital Belém, o pecuarista se juntou a um projeto que incentiva a permanência da floresta em pé para geração de créditos de carbono, principalmente em áreas que, pelo Código Florestal, poderiam ser desmatadas e utilizadas, por exemplo, para plantio de mais soja e criação de gado. Segundo dados do MapBiomas, o bioma amazônico possui 420,3 milhões de hectares, sendo 78,8% de floresta e 14,6% do território dedicado à agropecuária — cuja maior parte é ocupada pela pastagem.

Filho de lavrador em Minas Gerais, com experiência em manejo florestal na Bahia e anos de pecuária no Pará, Ribeiro presencia, ao longo da vida, a modernização da agropecuária. Ele é considerado uma das referências em gestão de negócios na região. Tanto na vida pública, depois de ser prefeito por dois mandatos consecutivos, quanto na administração privada das fazendas que possui para pecuá­ria e grãos. Ele convida a EXAME para um sobrevoo para apresentar seus 21.000 hectares de floresta preservada em meio à Amazônia, e que agora são fruto de renda. De cima do helicóptero, conduzido pela filha do piloto, Amazile Soares, ele aponta orgulhoso para as Áreas de Preservação Permanente, Reserva Legal e o mar verde de mata nativa da Floresta Amazônica, excedente ao exigido pela legislação brasileira do Código Florestal. “Você sabe se a mata é primária ou se já teve desmatamento alguma vez pelo tamanho da copa das árvores”, diz Ribeiro, ressaltando que, quanto mais frondosas, há mais tempo tendem a estar intocadas.

“Eu já estou falando para os meus vizinhos. Para que desmatar, abrir mais área para gado? É possível ter renda com a floresta em pé, e precisamos da natureza para todos os negócios aqui”, afirma. Ele defende a possibilidade de continuar no ramo da pecuária, desde que os criadores entendam a realidade da Amazônia, com a preservação da floresta e a recuperação de áreas que já foram degradadas. Só que, para isso, é preciso investimento. Um estudo da Fundação Getulio Vargas mostra que o custo médio de recuperação de pastagens na Amazônia varia de 1.330 a 1.904 reais por hectare.

Para Ribeiro, o equilíbrio entre não desmatar, gerar renda com a floresta e desenvolver negócios locais está no mercado de carbono. Ele e mais dois produtores da região do sudeste paraense já estão comercializando créditos pagos em dólar. O valor varia de acordo com o mercado voluntário, chegando atualmente a cerca de 50 dólares. Ou seja, a cada tonelada de carbono evitada, mensurada e comprovada, créditos são gerados, e os produtores são remunerados. Para bem da verdade, o ex-prefeito de Jacundá só acreditou que isso fosse possível quando conversou com outro produtor do entorno de Marabá, no Pará.

Raio X do carbono: árvores são mensuradas para cálculo de carbono, e informações ficam mantidas em sistema blockchain com acesso via QR Code

Amazônia não precisa ser o Cerrado

Pecuarista de terceira geração, filho de madeireiro, Bruno Machado fechou a serralheria da família e assumiu os negócios com uma mentalidade contemporânea, própria da sucessão familiar. “Não precisamos fazer aqui [na Amazônia] o que fizeram no cerrado. Podemos ter uma pecuária sustentável, com as áreas já abertas e expandir os negócios para uma floresta que agora é rentável”, diz o empresário rural. “Está dando mais dinheiro do que a pecuária.” Ao andar em meio às árvores, debaixo das copas que anteriormente haviam sido vistas de cima, o jovem produtor diz que não acredita mais na pecuária do passado, pois o futuro “é produzir com compromisso ambiental, gerando mais receita por meio da conservação da floresta nativa”.

Desde a infância, Machado ouve do pai que a floresta é rentável, mas agora ele encontrou uma forma de trabalhar aliada às árvores. “Deixamos de abrir área para pecuária, conforme permite a lei”, afirma. A ideia é incluir mais áreas no projeto da brCarbon, startup que une os produtores aos ganhos com o mercado de carbono. Fundada em novembro de 2020, em Piracicaba, São Paulo, a empresa integra o portfólio da Amaz, aceleradora que aportou 200.000 reais na climate tech para ações de conservação florestal, restauração ecológica, e agropecuária e extrativismo sustentável. Atualmente, são 30.000 hectares preservados no Acre, Amazonas, Pará e Mato Grosso, que poderiam ser legalmente desmatados. Diego Serrano, um dos fundadores da brCarbon, conta que até 2025 a empresa quer atuar nos nove estados da Amazônia Legal, conservando 500.000 hectares.

A mensuração tanto de árvores vivas quanto de troncos mortos é feita para calcular as emissões de CO2 e gerar o crédito. As informações são enviadas para uma plataforma com blockchain e acesso via QR Code. “Na nova agropecuária, o carbono entra na conta da produtividade”, diz Serrano. Na ponta do lápis, o crédito advindo de áreas de restauração é mais valorizado. Um importante passo para a economia vibrante da floresta em pé.

A repórter viajou a convite da brCarbon

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