“Governo precisa ouvir mais os especialistas", diz José Scheinkman

O economista José Scheinkman, de Princeton, avalia o que as escolhas do Nobel de 2020 dizem sobre o mundo
 (Hélvio Romero/Estadão Conteúdo)
(Hélvio Romero/Estadão Conteúdo)
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Fabiane Stefano

Publicado em 22/10/2020 às 05:50.

Última atualização em 11/02/2021 às 15:20.

Em 2012, o economista brasileiro José Alexandre Scheinkman chefiava a seção de ciên­cias econômicas da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, entidade­ cujos membros atuam gratuitamente como “conselheiros da nação” em diferentes áreas­ do conhecimento. Após o mandato de três anos, o brasileiro foi sucedido pelo colega americano Paul Milgrom, professor na Universidade Stanford, especialista em teoria dos leilões, que ganhou o Nobel de Economia deste ano em parceria com Robert Wilson. A pandemia mexeu com a economia e os negócios no mundo todo. Venha aprender com quem conhece na EXAME Research.

Scheinkman e Milgrom interagiam bastante nesse período, embora tenham interesses acadêmicos diferentes (o brasileiro tem estudos que vão de economia matemática a inovação). Apesar dessa proximidade com Milgrom, Scheinkman torcia secretamente por Wilson na corrida pelo Nobel de Economia. “Foi um alívio ver Bob Wilson ganhar o prêmio”, diz. O Nobel de Economia só é agraciado em vida — e Wilson já tem 83 anos. Nesta entrevista à EXAME, Scheinkman fala sobre como teoria econômica de boa qualidade impacta os países e os negócios. E o risco de se distanciar dela, sobretudo no Brasil. “Não falta conhecimento econômico no país, mas os governos precisam escutar mais.”

Neste ano, o Nobel de Economia foi concedido a Robert Wilson e Paul Milgrom por descobertas na teoria dos leilões. Qual é a importância dessa teoria para os países e para os negócios?
Os economistas vêm estudando as aplicações dos leilões há bastante tempo, sobretudo porque eles ajudam a determinar o valor de algo que não se sabe exatamente quanto vale. Wilson e Milgrom contribuíram de forma muito relevante sobre como evitar um fenômeno muito comum nos leilões, a chamada “maldição do vencedor”. Muitas vezes, o ganhador é o sujeito mais otimista, que fez uma oferta mais agressiva, mas também é o que corre mais risco de se decepcionar com o resultado daquela operação. Wilson, em particular, foi pioneiro em demonstrar que a maldição do vencedor acaba inibindo as propostas num leilão e atraindo menos concorrentes.

E como se resolve esse dilema na prática?
A imagem que vem à mente de um leilão é da disputa lance a lance, o “quem dá mais ganha”. Em leilões de áreas de exploração de petróleo ou de uma concessão de telefonia, por exemplo, o que acontece é que cada competidor apresenta uma cartinha com sua oferta. É aí que entra o temor de pagar um valor superior ao que o ativo vale de fato (mas ainda sem saber qual ele é). Wilson e, mais tarde, Milgrom demonstraram que modalidades como os leilões de segunda opção, em que o vencedor paga o segundo melhor preço ofertado, geram resultados melhores para quem vende. Parece contraintuitivo, mas nas disputas com segunda opção a tendência é que todos os concorrentes façam ofertas melhores.

Quando Wilson e Milgrom começaram a estudar esse tema, não havia tantas aplicações como hoje...
Essas questões foram ficando mais importantes ao longo do tempo e ganharam mais atenção. É um pouco o que ocorreu com o Alvin Roth, também ganhador do Prêmio Nobel de Economia, em 2002. Roth estudou formas de alocar recursos de modo eficiente em mercados nos quais o preço não é o fator determinante. Isso vale para vagas em universidades e doação de órgãos. Na prática, as teorias que ele formulou ajudaram a aumentar o número de transplantes de rim mundo afora.

O senhor mencionou teorias econômicas que ajudaram a melhorar o funcionamento dos países, dos negócios e da sociedade. No caso do Brasil, há muita disfunção na economia. Falta aplicar teoria econômica de boa qualidade no Brasil?
O progresso em economia nos últimos anos é resultado de avanços em teoria, novos métodos empíricos e novas bases de dados. A política econômica é melhor quando se aproveita dos avanços nessas três frentes. A política de metas de inflação implementada na gestão de Armínio Fraga no Banco Central e continuada até hoje é um exemplo de sucesso. Outro bom exemplo, de novo no BC, é a melhoria da competição em meios de pagamento com a instituição do Pix. O  desenho do Bolsa Família reflete também avanços em métodos empíricos e em bases de dados. A reforma tributária na PEC 233/08 é outro bom exemplo, embora nesse caso encontre muitas resistências, e propostas absurdas foram feitas para substituir um projeto bem informado pela teoria e evidência em economia. Há outros casos em que poderíamos melhorar muito se fossem levados em conta os novos métodos empíricos e bases de dados. A política educacional é um exemplo. Não falta conhecimento no Brasil, o Ricardo Paes de Barros é um grande especialista, mas os governos precisam escutar mais.

Robert Wilson e Paul Milgrom, ganhadores do Nobel de Economia: teoria dos leilões para aprimorar os negócios (Kate Munsch/Reuters)

A produtividade da economia brasileira é um tema que o senhor estuda há bastante tempo. Não avançamos nada?
Esse é um dos problemas cruciais que o Brasil enfrenta há muitos anos. O Brasil não está conseguindo nem acompanhar o crescimento do conhecimento dos países da fronteira, muito menos chegar mais perto dos desenvolvidos, como o Japão chegou depois da Segunda Guerra Mundial, como a Coreia e Taiwan chegaram nos anos 1980-1990, e como hoje estão chegando a China e a Índia. Em 1980, os trabalhadores brasileiros e coreanos produziam um terço do que os trabalhadores americanos produziam. Hoje, um corea­no produz em média 63%, ante 23% de um brasileiro. Não estamos estagnados, estamos andando para trás. Isso é uma receita para continuar no estado relativamente baixo de desenvolvimento. Todos os países que se tornaram mais prósperos no mundo foram aqueles que conseguiram ter uma produtividade maior do que os países avançados. Essa é a única maneira de tornar o Brasil mais próspero, mas eu não vejo no governo atual as medidas necessárias para tentar melhorar esse problema.

Que medidas os governos no Brasil têm tomado que prejudicam a produtividade do país?
Veja nosso sistema tributário. Ele é ruim mesmo, sob todos os aspectos — a menos que o objetivo seja aumentar a informalidade e o litígio tributário. Quando decidiu atacar a informalidade, o Brasil criou o Simples Nacional, que era fazer com que os antigos informais pagassem impostos a taxas muito mais baixas do que as demais empresas formais. Só que o Simples motiva que elas fiquem pequenas. Se um negócio chega a um certo tamanho, perde aquele tra­ta­mento preferencial. E as empresas pequenas são menos eficientes. É um exemplo de como uma decisão puramente tributária tem ­efeito na produtividade.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, defende a criação de um imposto sobre transações digitais, ao estilo da CPMF. Como o senhor avalia essa ideia?
Isso é altamente distorcivo, porque leva a uma coisa que o mundo inteiro tenta evitar: o imposto sobre o imposto. E esse imposto digital também é regressivo, o que é muito ruim. Além disso, ele ignora que há hoje uma revolução tecnológica que está sendo movida pelo pagamento digital. Isso está mudando a maneira como o crédito é dado, como as pessoas compram e vendem, além de promover outros serviços que antes não eram possíveis, como delivery, transporte por aplicativo… Isso tudo depende dessa revolução digital. Há três problemas muito comuns com os impostos: distorcer a maneira como as pessoas se organizam financeiramente, ser regressivos ou impactar o crescimento da economia. A CPMF é a única proposta de imposto que contempla esses três pontos. É triplamente ruim.

Só reformas estruturantes são capazes de fazer o Brasil dar um salto de desenvolvimento?
A quantidade de impostos que o Estado brasileiro recolhe em relação a seu nível de desenvolvimento é bastante grande, coisa de 35% a 40%. Um país como esse deveria ser capaz de dar à sua população serviços básicos, como água e esgoto. É uma vergonha que o Brasil tenha um nível de saneamento mais baixo do que o de países mais pobres e que arrecadam menos. No restante do mundo, os Estados fazem mais com menos. Eles intervêm melhor na distribuição de renda, dão serviços básicos. Sem uma ­reforma do Estado brasileiro, é díficil avançar na agenda da produtividade.

A relação do brasileiro com o Estado, em muitos casos, é de extrema dependência. Isso dificulta mudanças profundas?
Existe um argumento pseudoeconômico que diz que você pode ter menos impostos e mais serviços. Aqui nos Estados Unidos, esse é um experimento republicano fracassado. No Brasil, há uma tentação em relação a ideias mirabolantes de gerar receita, como imposto sobre riqueza ou vendendo 1 trilhão de ­reais de terreno, como diz o ministro da Economia no Brasil. Essas soluções fáceis sempre existiram, e os políticos adoram. No mundo inteiro, governos populistas sempre tiveram uma grande dificuldade de resolver os problemas fundamentais por causa disso. Se você der uma solução que faz sentido e outra fácil e absurda, normalmente os políticos vão escolher a segunda. Já políticos bons, como Barack Obama, Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso, conseguiram convencer a população de que as coisas não se resolvem de uma maneira simples e de que, de vez em quando, precisamos de alguma medida dura.

A reputação do Brasil globalmente piorou no governo de Jair Bolsonaro, sobretudo na área ambiental. Qual é o risco para o país?
O Brasil tem muita capacidade de contribuir para a solução dos problemas do meio ambiente — produzimos uma das energias mais limpas do mundo, por exemplo. São essas frentes que a gente deveria estar liderando. Mas, ao contrário, aparece esse discurso negacionista, que gera uma imagem muito ruim do país no exterior e nos custa muito em termos de investimento.Algumas empresas brasileiras descobriram isso e estão corretamente tentando tomar atitudes que contribuam para que o Brasil passe a ser reconhecido como um país que se preocupa com o meio ambiente. O que acontece agora é que a grande maioria dos fundos de investimento trabalha com o chamado “dinheiro delegado”. O sujeito que está tomando a decisão de investimento não é o dono do dinheiro. São os donos que definem regras para o investimento, como não investir em coisas que trazem dano ao ambiente, e o gestor tem de investir de acordo com o dono do dinheiro. O mesmo serve para empresas que buscam financiamento no exterior: elas precisam se alinhar com os desejos dos investidores lá fora — o que inclui ter uma visão mais sustentável. Elas fazem isso, mas são atrapalhadas pelo governo, e aí têm de trabalhar duas vezes: fazendo a coisa certa e mostrando que não estão fazendo a errada.

O presidente americano, Donald Trump, tem atacado o governo chinês em várias frentes: da pandemia ao comércio internacional. Como o senhor avalia essa relação de forças?
Uma das coisas que vários economistas já escreveram é que, ao olhar as tarifas que ­foram colocadas nos Estados Unidos e as que foram colocadas na China como retaliação, as chinesas eram muito melhores tanto do ponto de vista político — pois atingiam determinada população a que Trump estava tentando agradar — quanto do aspecto econômico, para ter menos impacto na própria economia chinesa. As tarifas que Trump impôs aos chineses maximizaram o custo para a economia americana, uma coisa profundamente estúpida. Há uma diferença de inteligência entre o governo chinês e o governo americano. Isso não quer dizer que na China todas as decisões sejam boas. Várias companhias americanas de tecnologia, por exemplo, têm dificuldade ou são proibidas de atuar na China. Não dá para usar o ­Google ou o Gmail por lá. Com uma VPN [rede virtual privada], é possível burlar essa regras, mas isso não vai tornar o Google ou o Facebook um sucesso na China. No entanto, essas limitações trazem dificuldades para a economia chinesa atuar. Recentemente, o governo chinês fez “vista grossa” para que milhões de cidadãos acessassem o ­YouTube, o Google e o Instagram. Durou algumas semanas essa experiência silenciosa. Mas o governo chinês é mais maleável. Quando você é mais inteligente, tende a aceitar os custos dos benefícios. Quem pensa que pode ter benefício sem custo, em geral, são pessoas com uma inteligência bastante limitada.

Presidente Jair Bolsonaro: para Scheinkman, o discurso negacionista na área climática e ambiental custa muito ao Brasil (Marcos Corrêa/Exame)

As pesquisas apontam que o democrata Joe Biden tem chance de se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos. Como o senhor avalia essa mudança para o Brasil e para o mundo?
O mundo inteiro está cansado de toda essa volatilidade associada ao presidente Donald Trump. A maioria dos governos populistas do mundo está tentando se separar um pouquinho de Trump, porque a última coisa que você quer é ser identificado como alguém que estava alinhado a um sujeito que perdeu as eleições. Até mesmo os republicanos aqui nos Estados Unidos. Mas o governo brasileiro parece não ter en­tendido essa questão. A verdade é que o populismo nunca resolve os problemas. Então ele vai e volta. Eu não vou ficar surpreso se lugares como México, Itália, Polônia, ­Hungria e Brasil, que têm governos populistas, comecem a se cansar do populismo. Há lugares onde o populismo se casa com o autoritarismo, como na Venezuela, não é claro quando aquilo vai acabar, não é? Mas nos países que guardam certa estrutura democrática o populismo acaba cansando e as pessoas desistem.