Mais do que estilo, a moda tem de trazer sustentabilidade

Com pedidos dos consumidores de transparência sobre as práticas sustentáveis e sociais das marcas de roupas, a moda fica nua

Em 2013, o edifício Rana Plaza em Bangladesh despencou, matando 1.134 funcionários, ferindo 2.500 pessoas e trazendo à tona os trabalhos análogos à escravidão de diversos fornecedores de marcas de moda globais. De lá para cá, consumidores demandam (ainda mais) por transparência das empresas em questões que vão desde a sustentabilidade das matérias-primas para a confecção de roupas até o compromisso social. “Com esses temas recebendo atenção mais do que nunca, as empresas têm uma escolha: assisti-los e seguir ou agir e liderar”, comenta Mariana Santiloni, manager of client services da consultoria de tendências de consumo e produtos, WGSN.

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Exemplos de empresas de moda que cruzam ambos os caminhos da sustentabilidade e de projetos sociais têm surgido. Nascida na Europa há quase dois séculos, durante a Revolução Industrial, a C&A chegou ao Brasil numa época em que se começava a falar sobre sustentabilidade, quatro anos após a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, de 1972.

Passados quase 50 anos desde o encontro, a ONU informa que a indústria da moda é responsável por mais emissão de carbono do que o transporte aéreo e o marítimo juntos. Desde sua fixação nos trópicos, a marca de fast fashion já lançou diversas iniciativas sustentáveis, desde coleções de jeans que utilizam apenas 7,4 litros de água na lavanderia até uma parceria com a empresa de moda circular Enjoei e a coleta de mais de 25 toneladas de roupas usadas para doação e reciclagem.

 “O fato de sermos uma empresa grande nos dá um poder de influência grande também”, diz Paulo Correa, CEO da C&A. Ao desenvolver tecnologias com fornecedores, e desde 2017 divulgá-las para outras empresas, a varejista gera uma capacitação para que os fornecedores possam prestar os mesmos serviços para outras marcas. Correa menciona ainda o fato de a C&A ter ficado em primeiro lugar no Índice de Transparência da Moda do Fashion Revolution por três anos consecutivos, desde que foi lançado, em 2018, como um modelo para outras marcas se engajarem para atingir uma boa colocação.

A influência de uma marca grande sobre as demais se aplica à Farm. Para Taciana Abreu, head de marketing da marca e head de sustentabilidade do Grupo Soma, “ao buscar, por exemplo, um jeans sustentável, é preciso olhar para toda a cadeia produtiva, desde o produtor de algodão até a lavanderia”. Com maior transparência das marcas sobre fornecedores e tecnologias, a concorrência entre elas pode se dar de forma a minimizar o prejuízo ao ambiente.

Outro ponto que une essas marcas é o índice de transparência, que causou uma das viradas de chave para a empresa carioca. Com estampas inspiradas na fauna e na flora brasileiras, a Farm, que desde 2015 já flertava com iniciativas sociais e sustentáveis, começou a olhar para o lado mais ambiental. Em 2018, fez contratações exclusivas para sustentabilidade. No mesmo ano teve início o projeto de reflorestamento. Para 2021, a proposta é plantar 1.000 árvores por dia. A marca pretende ainda zerar as emissões de carbono seguindo as metas da ONU até 2050.

A preocupação com o ambiente, além de ter sido reforçada pela pandemia, ganha engajamento principalmente da geração Z, afirma  Mariana Santiloni, da WGSN. Porém, para além da sustentabilidade das peças, as marcas também são cobradas por posicionamentos sociais. Inicialmente voltado para a educação, o Instituto C&A atua hoje em mais de 80 projetos realizados por entidades, ONGs e organizações em todo o país, com foco no empoderamento de mulheres, no afroempreendedorismo e em pessoas trans ­— sempre por meio da indústria da moda.

 A Oriba é outra marca que abraça a responsabilidade social. Com itens masculinos que vão de camisetas e calças a mochilas, e em breve cuecas e roupas fitness, a cada peça da marca vendida um kit escolar é destinado à instituição Obra do Berço, na zona sul de São Paulo. A marca surgiu quando três amigos, Paulinho Moreira, Rodrigo Ootani e Marcelo Collis, decidiram mudar de carreira e investir em projetos que fizessem mudanças positivas na sociedade. “Sabíamos que não seríamos uma ONG, mas que queríamos atuar com uma causa”, comenta Moreira. Desde o lançamento, em 2014, eles já abriram duas lojas em São Paulo, doaram mais de 100.000 kits escolares e 110.000 máscaras para regiões periféricas da cidade.

 A atuação ambiental da marca passa pelo produto. “Queremos ser a maior marca de moda básica feita de algodão orgânico do Brasil”, diz Moreira. Ele e os sócios da Oriba sabem que sustentabilidade começa em casa — e estão bastante empenhados nessa lição. 

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