Dedique-se

Investir é mais complexo do que parece. os investidores de sucesso que conheço também estão inseguros

Quando aceitei ser colunista da EXAME, além do enorme respeito histórico que tenho pela publicação, encarei este espaço como uma oportunidade de compartilhar conhecimentos que adquiri ao longo de mais de 30 anos como investidor e estudante voraz. A ideia é fugir do ruído e focar criar a base de conhecimentos para uma filosofia de investimentos de longo prazo. É um convite a estudarmos juntos. Sobre a atual crise, eis o que sabemos com bom grau de convicção:

1. A economia brasileira está sofrendo um baque muito grande nestes meses. Dado o aumento de desemprego e endividamento, a recuperação deverá ser lenta. Como investidor em bolsa, não conte com vento a favor da economia por alguns trimestres.

2. Os juros deverão permanecer baixos; e o real, fraco. Talvez num nível melhor do que o atual, mas ainda com muita volatilidade. Ter BDRs de empresas americanas (Amazon, Google, Microsoft, Apple etc.) pode ser uma interessante alternativa de diversificação e exposição ao dólar. Vale lembrar que as empresas citadas anteriormente, por exemplo, têm excepcional posição competitiva. Renda fixa funciona mais como proteção do que como apreciação patrimonial. A inflação de muitos investimentos é maior do que o CDI atual de 3,5% ao ano.

3. Não podemos desprezar o brutal volume de estímulos econômicos, principalmente nos países mais desenvolvidos, que terão efeitos importantes sobre diferentes setores da economia e sobre nossos investimentos.

4. Tendências vão se acelerar. Aumento das vendas por e-commerce, crescimento das plataformas independentes de investimentos, maior procura por serviços privados de saúde, software as a service etc.

5. As empresas dominantes em seu setor tenderão em muitos casos a ficar mais fortes ainda, em termos relativos. As empresas líderes geralmente têm balanços mais robustos e marcas mais fortes. Infelizmente, muitos competidores menores terão dificuldade, reforçando ainda mais a posição das companhias líderes. No Brasil, em especial, os fortes costumam ficar mais fortes nas crises.

6. Apesar do desânimo da maioria dos agentes econômicos (com certa dose de razão), veremos uma aceleração enorme da inovação. Acredito profundamente que os empreendedores serão um fator importante para retomarmos o rumo do crescimento. Os jovens inovadores nos mostrarão vários caminhos que não conseguimos ver hoje.

7. O ruído vindo da política vai aumentar. No Brasil, teremos eleições para prefeitos neste ano e presidenciais em 2022. Ruído político geralmente não é bom para a economia e gera volatilidade nos mercados. É importante lembrar que a performance dos próximos três anos é construída hoje. Monte um port-fólio diversificado e com o qual esteja confortável, sabendo que o investidores serão bombardeados por muitos sinais conflitantes nos próximos meses. Vai dar vontade de vender ações, quando é para comprar. E vontade de comprar, quando se deveria vender.

8. Esta não é a hora de ter alavancagem excessiva, portfólios muito complexos ou de querer ficar rico rapidamente. É hora de estudar, voltar aos fundamentos, simplificar e ter calma.

9. Reveja o racional de cada investimento. Se você não escreveu os motivos pelos quais investiu em cada um dos ativos do portfólio, faça isso agora. Se você não sabe por que comprou, é difícil saber por que vender. Se os motivos pelos quais investiu em um ativo ainda são válidos, e você não está alavancado, mantenha o ativo.

10. Transforme este período difícil em um momento de aprendizado. Aprendizado sobre você como investidor (como lida com as diferentes emoções), sobre economia, mercados e empresas nas quais investiu. Sobre como cada empresa será impactada e como está lidando com a crise. Nos momentos de crise, quando muitas vezes nos sentimos fragilizados, questionamos nossa competência em lidar com os desafios. Mas todos os investidores de sucesso que conheço estão inseguros neste momento. Humildade é importante para abrir nossa cabeça, buscar mais informações e crescer. A primeira lição desta crise é: investir é mais complexo do que parece. Quanto maior a dedicação inteligente, maior deve ser o retorno. Ninguém espera poder jogar muito bem tênis treinando 1 hora por semana. Imagino que Roger Federer deva treinar mais de 180 horas por mês. Escolher empresas e ações é tão difícil quanto e requer muito estudo e prática. Monte um plano de aprendizado. Separe um número de horas por semana e busque conteúdo em livros e textos. Assista a entrevistas com os grandes investidores. Warren Buffett, Peter Lynch, Seth Klarman, Jorge Paulo Lemann, Luis Stuhlberger, André Jakurski etc. Quem está investindo há muito tempo e sobreviveu a várias crises deve estar fazendo algo certo. Se for investidor de fundos, busque o máximo possível de informações sobre seu gestor. Analisar a performance durante as crises, o histórico de longo prazo e a composição da carteira (disponível no site da CVM) sempre ajuda. Dedique-se.


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