Chutzpah: uma corrida eleitoral decisiva

O primeiro tunro reforçou a ortodoxia. Mas há espaço para o Brasil ser ousado e oferecer algo além num momento de grande incerteza global?
Que o próximo presidente não embarque em aventuras revolucionárias. Mas que persiga ganhos de produtividade que nos retirem da mediocridade (MirageC/Getty Images)
Que o próximo presidente não embarque em aventuras revolucionárias. Mas que persiga ganhos de produtividade que nos retirem da mediocridade (MirageC/Getty Images)
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Felipe MirandaPublicado em 13/10/2022 às 06:00.

Only Losers Can Win in This Game é o título de um dos livros do Osho, aquele guru famoso. Algo como “Só os perdedores podem vencer este jogo”. Há tempos desisti de ter razão. Prefiro ser feliz. Ou melhor, tentar, perseguir a felicidade.

Você prefere estar certo ou ganhar dinheiro? Ao investidor (e este é meu foco aqui), não caberia abandonar sua postura ideológica, talvez até aceitar perder a eleição, e adotar uma postura pragmática em suas decisões financeiras? O que o ciclo eleitoral reserva para o nosso bolso? Com esse pragmatismo escrevo as linhas a seguir. A ideologia fica para mesas de bar e grupos de Zap.

Lá vamos nós…

Entre julho de 2018 e o final de 2019, o Ibovespa acumulou valorização de 58,93%. Foi o período posterior à eleição do presidente Jair Bolsonaro e o primeiro ano de sua administração. No período entre 2003 e 2007, nosso principal índice de ações subiu 294,69%. Basicamente, era o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A mensagem é mais do que subliminar: há condições de termos um ciclo bastante positivo dos ativos de risco locais independentemente do presidente eleito.

Arrisco ir além: o resultado do primeiro turno parece já contratar condições materiais em prol de uma valorização da nossa bolsa. Esta eleição já oferece um claro beneficiado: o investidor. Talvez ele divida o pódio com o orçamento público e a ortodoxia na gestão da política econômica, mas vamos focar o protagonista desta história.

O grande risco para os mercados locais seria a eleição de um presidente desalinhado à ortodoxia econômica, incapaz de adotar alguma âncora fiscal e propenso a muitas intervenções nas forças de mercado. Dada a distância muito inferior à sugerida pelas pesquisas de intenção de voto entre os dois presidenciáveis e a composição bastante conservadora no Congresso e entre governadores, esse risco passou ou, pelo menos, foi bastante amenizado.

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No Senado, os partidos de direita ou centro-direita (PL, União Brasil, PSD, PP, Republicanos e Podemos) agora têm 300 deputados, representando 58,5% da Câmara. Eleições marcantes de ex-ministros e a destacada posição de Tarcísio em São Paulo mostram uma força marcante do bolsonarismo e da penetração do conservadorismo na própria sociedade.

O apoio declarado e vigoroso do governador Zema também é sintomático. A configuração é bastante importante, porque elimina qualquer risco de ruptura, extremismo ou radicalização. O Congresso é conservador, impedindo qualquer tipo de aventura. Muito provavelmente, teremos de seguir a cartilha da ortodoxia, dentro do velho cercadinho de sempre. Sai o risco de cauda, de caminharmos em direção à Argentina; aumentam as chances de um governo de centro.

O quadro força Lula a fazer alianças, focar o Sudeste e, possivelmente, abraçar em definitivo Henrique Meirelles (aqui, o nome aparece como metonímia; poderia ser outro com perfil semelhante, desde que amigável ao mercado).

Então, talvez até de maneira pitoresca, no caso de uma eleição petista, poderíamos ter um contexto de um ministro da Economia próximo à Faria Lima e ortodoxo, um Congresso conservador e fiscalista e uma figura no executivo capaz de atrair parte do capital estrangeiro, principalmente o europeu, que esteve ausente dos mercados locais nos últimos anos. Conforme resumiu certa vez Rogério Xavier, megagestor da SPX: “Não atire no mensageiro, mas a verdade é que o investidor estrangeiro tem uma imagem boa do Lula”.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro chega muito competitivo ao segundo turno

E, dada a simpatia do mercado pela agenda de Paulo Guedes, sua eventual eleição seria um estímulo importante de curto prazo para os mercados, com destaque para a potencial valorização de estatais. Em resumo, a eleição, como já tem sido nos últimos dias, pode ser um catalisador transformacional para o Brasil. Não só por semanas ou meses, mas por todo um ciclo de quatro anos.

Somos um dos poucos mercados realmente baratos, estamos avançados no combate à inflação porque começamos a subir os juros antecipadamente, somos uma democracia consolidada num momento em que emergem perigosas autocracias, dispomos de energia e comida (enquanto a Índia, por exemplo, está short em energia e comida), gozamos de subpenetração nos portfólios globais. Uma política econômica ortodoxa e com transparência pode ser o trigger que faltava.

A despeito do momento positivo do ciclo e da atratividade dos valuations, será que poderíamos ousar um pouco mais? A maior convicção de uma política econômica mais ortodoxa seria suficiente para os mercados subirem, dado seu nível de preços. Mas, como brasileiros, não haveria espaço para algo além?

Chutzpah, a palavra-título deste texto, tem origem iídiche e se refere à ousadia, a uma certa audácia, até atrevimento. O Brasil reúne condições para, num momento de grande incerteza global, de recessão iminente na Europa e da vivência de uma segunda guerra fria (agora entre Estados Unidos e China), oferecer algo além ao mundo.

Essa combinação de valores da civilização ocidental, numa democracia liberal consolidada, bem posicionada em energia e comida, somada à típica vitalidade iorubá, para usar um termo de Eduardo Giannetti, nos confere uma vantagem única. Talvez um modelo para espraiarmos para um planeta em crise de identidade.

A pluralidade brasileira de povos, raças e crenças que convivem, apesar de um ruído ou outro, de maneira harmônica eleva o país a uma condição extraordinária em termos relativos. Que nosso novo presidente, seja ele quem for, possa, sim, percorrer o caminho da ortodoxia econômica, sem espaço para aventuras revolucionárias. Mas que passe também por algo mais: a necessária perseguição de ganhos de produtividade, estagnada há 16 anos, e que nos retire da mediocridade com a qual convivemos há décadas.