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2008 foi o ano do bônus zero para executivos

Uma pesquisa exclusiva EXAME/ Hay Group mostra que um em cada cinco presidentes de empresas no Brasil não ganhou neste ano um único centavo como recompensa pelos resultados de 2008

Edmond, ex-presidente da AmBev e Amaral, da Gafisa (da esq. para a dir.): eles ficaram sem bônus em 2009 (.)

Edmond, ex-presidente da AmBev e Amaral, da Gafisa (da esq. para a dir.): eles ficaram sem bônus em 2009 (.)

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Ana Luiza Herzog , Cristiane Mano

17 de setembro de 2013, 20h29

Pouca gente acompanhou tão de perto e com tanto entusiasmo o crescimento da economia brasileira nos últimos anos quanto os principais executivos de grandes empresas instaladas no país.

À medida que as vendas e os lucros das companhias que comandavam se multiplicavam, eles viam aumentar a bolada que ganhavam como remuneração variável -- numa lógica meritocrática que, a despeito de algumas imperfeições, estabeleceu cada vez mais uma relação entre resultado e recompensa.

Mas o final de 2008 foi marcado pela explosão da crise mundial e as metas e o desempenho da maior parte dos negócios -- que até então só faziam crescer -- foram uma de suas primeiras vítimas. Sem resultado, sem recompensa. Essa é a lógica -- pelo menos no Brasil. O que se viu no primeiro semestre deste ano foi uma temporada de bônus das mais fracas.

O caso mais expressivo é o da fabricante de bebidas AmBev, famosa pela agressividade com que costuma premiar seus executivos pelos resultados atingidos. Se as metas são batidas, os cerca de 200 profissionais que são sócios da empresa -- todos acima de alta gerência -- chegam a ganhar até 18 salários extras por ano.

Desta vez, porém, depois de cinco anos consecutivos em que levaram a recompensa, nenhum deles ganhou sequer um centavo de bônus -- e isso incluiu o carioca Luiz Fernando Edmond, à época presidente da cervejaria. (Desde janeiro deste ano, Edmond está à frente de outra empresa do grupo, a Anheuser-Busch, nos Estados Unidos.)

 Embora as vendas tenham crescido 5,3%, alcançando 13 bilhões de reais, a AmBev ficou aquém das metas estabelecidas um ano antes. O pior resultado foi o do último trimestre de 2008. O lucro nesse período foi de 964 milhões de reais, 14% menor que no mesmo período do ano anterior. "Simplesmente desta vez não deu", diz Carolina Guerra, gerente de remuneração da AmBev.

Edmond e os demais executivos da AmBev não estão sozinhos no time dos sem-bônus neste ano. Um levantamento exclusivo realizado pela consultoria Hay Group com 227 empresas instaladas no Brasil mostra que um em cada cinco presidentes não ganhou absolutamente nada em remuneração variável pelos resultados de 2008.

Entre os diretores, 14% receberam apenas seus salários fixos. Esses mesmos executivos ganharam em média um bônus equivalente a 11 salários no ano passado, no caso dos presidentes, e sete salários, no caso dos diretores.


"Por motivos diferentes, mas de alguma maneira atingidas pela crise que chegou no final do ano passado, as companhias ficaram aquém do que esperavam e isso se refletiu diretamente no bônus dos executivos", afirma Leonardo Salgado, consultor do Hay Group e um dos responsáveis pelo levantamento.

Embora esse grupo seja minoria, ele representa um salto preocupante na série histórica avaliada pelo Hay Group na última década. No ano passado, apenas 1% dos presidentes e 2% dos diretores compuseram o time dos sem-bônus. A mensagem é bastante clara. O clima de euforia predominante até pouco tempo atrás -- e que gerou bônus cada vez mais generosos -- chegou ao fim.

Segundo EXAME apurou com diversos especialistas na área de recursos humanos, executivos como Wilson Amaral, presidente da construtora Gafisa, João Carlos Brega, da Embraco, e Reinoldo Poernbacher, da Klabin, também não distribuíram a recompensa entre seus principais executivos neste ano. Procurados, nenhum deles quis falar sobre o assunto. 

No total, 44% dos presidentes e 41% dos diretores que participaram do levantamento do Hay Group tiveram desempenho abaixo da meta. Ou seja, além do grupo de executivos que ficaram de mãos abanando, outra boa fatia teve de se contentar com uma remuneração variável inferior à que poderia alcançar.

O crescimento desse time resultou numa queda expressiva do bônus médio pago aos executivos -- a primeira nos últimos três anos. A redução no valor médio pago a presidentes foi de 16% e, no caso dos diretores, de 5%. Trata-se de um fenômeno que pôde ser observado também fora do Brasil.

Segundo uma avaliação realizada pela consultoria Hay para o jornal Wall Street Journal, o bônus médio dos presidentes das 200 maiores companhias americanas caiu 10,9% -- enquanto os lucros caíram 5,8%. A remuneração total caiu 3,4%, para uma média de 7,5 milhões de dólares -- a primeira queda em sete anos. Se essa foi a regra, as exceções nos Estados Unidos deixaram a opinião pública em estado de choque.

Recentemente, o procurador-geral de Nova York, Andrew Cuomo, divulgou que um grupo de nove bancos que receberam socorro governamental pagou mais de 32 bilhões de dólares em bônus a seus executivos. Juntos, esses bancos tiveram cerca de 80 bilhões de dólares em prejuízos. Com uma estrutura salarial muito mais modesta, o Brasil não assistiu a escândalos semelhantes.


Os dados do levantamento da Hay no país apontam que as maiores perdas foram protagonizadas por executivos de companhias de capital brasileiro. De acordo com especialistas, trata-se de uma estatística que reflete uma mudança cultural de boa parte das companhias nacionais.

"Existia uma tendência mais benevolente de dar nem que fosse um agrado aos executivos no final do ano, mesmo quando os resultados não eram batidos", afirma Felipe Rebelli, sócio da Towers Perrin. "Agora as companhias se tornaram mais fiéis às regras, seja porque têm capital aberto, seja porque passaram a dividir as decisões com um sócio estratégico."

É o caso da paulista Medial, uma das maiores administradoras de planos de saúde do país, que fez seu IPO em setembro de 2006. \Segundo um executivo próximo à companhia, neste ano pela primeira vez as regras para concessão de bônus foram encaradas com rigor leonino. Com um prejuízo de 162 000 reais em 2008, a remuneração variável dos executivos foi diretamente afetada.

"Levei meu bônus mínimo", afirma Emilio Carazzai, presidente da Medial desde agosto de 2008. (Carazzai não informou o percentual de redução dos bônus em relação ao ano anterior.)

As perdas foram mais radicais nos setores imediatamente afetados pela crise. Um exemplo é o das construtoras. Dependentes de crédito, artigo raro durante a fase aguda da turbulência, elas foram forçadas a pisar no freio. A paulista Gafisa, com vendas de 1,7 bilhão de reais em 2008, é um exemplo.

Seu lucro foi de 110 milhões de reais no ano passado, 16% superior ao registrado no ano anterior. Pode parecer muito, mas foi menos do que as metas preestabelecidas pela administração -- em 2007 o crescimento do lucro foi da ordem de quase 90%, o que ajudou a colocar a régua lá no alto.

Não só Amaral, o presidente, ficou sem bônus como a remuneração total (salário + variáveis de longo prazo) dos cinco principais executivos da Gafisa caiu 30% em relação ao ano anterior. Algo semelhante aconteceu com empresas exportadoras, como a Suzano, presidida por Antonio Maciel Neto.

Com prejuízo de 451 milhões em 2008, ante um lucro de 537 milhões de reais no ano anterior, a fabricante de papel e celulose confirma que os bônus pagos aos executivos em 2009 caíram -- mas não revela o percentual. 


Em geral, os setores dependentes de commodities sofreram em duas pontas -- como mostra o caso da petroquímica Braskem, do grupo Odebrecht. Além da queda na demanda internacional por seus produtos, a alta do petróleo interferiu no preço de sua principal matéria-prima.
 
Conclusão: a Braskem fechou o ano com faturamento de 23 bilhões de reais -- 3% menos que em 2007 -- e prejuízo de 2,5 bilhões de reais, fruto sobretudo da variação cambial. Como resultado, seus executivos receberam cerca de metade do bônus-alvo para este ano.
 
A recompensa só não foi zerada porque está atrelada ao chamado lucro econômico -- produzido por uma empresa após subtrair todas as despesas operacionais, os impostos e o custo do capital empregado para manter a operação.
 
"Foi o pior bônus da história da empresa", afirma Luiz de Mendonça, vice-presidente da divisão de polímeros, a mais importante da Braskem, e que está na companhia desde sua criação, em agosto de 2002.

A crise mundial trouxe um ingrediente novo no que tange à remuneração. Como a turbulência atingiu de maneira mais crítica os países ricos, pela primeira vez na história os resultados das matrizes das grandes multinacionais afetaram em massa negativamente a bolada dos executivos de suas subsidiárias.

A lógica perversa não poupou nem mesmo as operações que deram resultados recordes, como a subsidiária brasileira da fabricante de cosméticos Avon. Seu faturamento na América Latina cresceu 18%, e o lucro operacional, 43%. Nos Estados Unidos, porém, as receitas tiveram retração de 5%.

Por causa disso, a Avon concedeu aos executivos da operação brasileira bônus em média 30% menores do que no ano anterior. (Procurada, a companhia não quis comentar a informação.) Até mesmo os executivos da subsidiária brasileira da montadora Fiat, que registrou os melhores resultados de todos os tempos, receberam bônus menores do que no ano passado.

As vendas da subsidiária cresceram 17%, alcançando 23,9 bilhões de reais, com lucro líquido de 1,8 bilhão de reais. Mesmo assim, seus 13 principais executivos no Brasil, entre os quais o presidente, Cledorvino Belini, receberam cerca de 40% menos bônus do que no ano passado. "Quase metade do valor dos bônus pagos aqui depende dos resultados globais", afirma Marcelo Arantes, diretor de recursos humanos da Fiat no Brasil.


Existem, claro, exceções nesse cenário. Um dos melhores exemplos disso é o Pão de Açúcar, presidido por Claudio Galeazzi. Maior varejista do país, o grupo registrou vendas de 20 bilhões de reais em 2008. Todos os seus 51 principais executivos receberam um bônus de, em média, 15 salários adicionais neste ano.

Diferentemente do que aconteceu com a maioria dos setores, a crise fortaleceu o varejo, que cresceu mais de 9% no ano passado. Para este ano, a companhia vai ampliar o potencial de ganho também de seus gerentes. A partir de agora, eles podem receber até sete salários extras (até então, o máximo eram quatro salários e meio). "Por enquanto estamos otimistas", afirma Claudia Elisa, diretora de recursos humanos do Pão de Açúcar. 

Há indícios de que histórias como a do Pão de Açúcar, porém, se mantenham como exceção também no próximo ano. Na maior parte das empresas, o agressivo rali dos salários esfriou. "Regalias como os bônus de entrada, por exemplo, continuam só para poucas posições", afirma Darcio Crespi, diretor da consultoria de contratação de altos executivos Heidrick & Struggles.

"Aquele clima generalizado arrefeceu, até porque os resultados das empresas em geral não serão muito bons neste ano." A estagnação deve ser sentida também no salário fixo. De acordo com uma pesquisa realizada com 180 empresas no país pela consultoria Towers Perrin, 22% delas congelaram reajustes no salário-base em 2009.

Foi o que fez a subsidiária brasileira da Xerox. A empresa garantiu os resultados no ano passado e pagou bônus cheio a seus executivos. Mas a crise fez com que a matriz americana passasse a acompanhar com mais atenção qualquer passo da subsidiária -- como a contratação de novos profissionais e a concessão de aumentos.

A fabricante de produtos químicos Lanxess, que distribuiu o bônus máximo a seus executivos neste ano, também restringiu o potencial de ganho para 2010. No ano que vem, o paulistano Marcelo Lacerda, presidente da subsidiária, terá um bônus 33% menor -- mesmo se atingir todas as metas de negócios.

Trata-se de um plano de contingência da matriz para reduzir custos de 250 milhões de euros até o final do próximo ano. Parte dessa economia virá do bolso de Lacerda e de outros 39 profissionais seniores da empresa no mundo. "Será um ano difícil, embora já sejam perceptíveis alguns sinais de melhora", afirma ele.

Na lógica implacável da meritocracia, há o momento de dividir os lucros -- e o de partilhar os prejuízos. Infelizmente, para boa parte dos executivos brasileiros 2009 foi o ano de pagar a conta.