A era dos cisnes verdes

Projeções de que haverá cada vez mais catástrofes decorrentes das mudanças climáticas dominam as discussões econômicas no mundo

Ao longo das últimas décadas, as discussões sobre as mudanças climáticas deixaram de rondar apenas a esfera dos debates científicos para alimentar o repertório de ambientalistas e, mais recentemente, tornaram-se parte indissociável de qualquer debate entre líderes das principais nações do mundo. Diante de eventos climáticos cada vez mais impactantes, como o persistente incêndio na Austrália que desde setembro já consumiu uma área quase do tamanho da Inglaterra e causou 36 mortes, além da destruição de milhares de casas e a morte de milhões de animais, o tema passou a predominar nas conversas de outro grupo: o dos economistas.

No dia 20 de janeiro, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), entidade baseada na Suíça e considerada “o banco central dos bancos centrais”, divulgou um extenso documento no qual alerta que as mudanças climáticas podem ser o gatilho de uma nova crise financeira global. Segundo o BIS, esse risco está associado a eventos não previstos, que a instituição chama de “cisnes verdes” — numa analogia aos “cisnes negros”, o termo foi criado por Nassim Taleb, ensaísta libanês radicado nos Estados Unidos, para se referir a eventos improváveis com grande impacto. “Abordagens tradicionais de gerenciamento de riscos, baseadas na extrapolação de dados históricos e em suposições de normalidade, são amplamente irrelevantes para aferir os riscos futuros relacionados ao clima”, diz o estudo, de coautoria do brasileiro Luiz Awazu Pereira da Silva, ex-diretor de política econômica do Banco Central do Brasil que desde 2015 ocupa o cargo de vice-gerente-geral do BIS.

Riscos sistêmicos para a economia gerados por prejuízos decorrentes de eventos como secas, enchentes e furacões justificam a preocupação. Um estudo da consultoria McKinsey, divulgado neste ano, afirma que até 2030 os 105 países pesquisados, responsáveis por 90% da economia global, deverão enfrentar mudanças ambientais, como aumento de chuvas e de pessoas expostas a calor extremo. A Índia, um dos países mais expostos a elevação da temperatura, pode ter de 2,5% a 4,5% do produto interno bruto em risco dentro de dez anos se o cenário se mantiver. O estudo também alerta que as reservas do setor de seguros são insuficientes para arcar com os prejuízos materiais caso a ocorrência de situações extremas continue a crescer no ritmo atual.

Dados reunidos pela resseguradora Munich RE mostram que o número de catástrofes naturais disparou nas últimas décadas. Em 1980, foram registrados 249 eventos relevantes, entre terremotos, chuvas, furacões e secas. No ano passado, o número chegou a 848. As seguradoras perderam 225 bilhões de dólares com problemas climáticos no biênio 2017-2018, período de maior prejuízo para o setor em 40 anos. A última década foi a mais quente desde o final do século 19, segundo um estudo conduzido pelo serviço meteorológico britânico em parceria com a Nasa, agência espacial americana. Em 2019, a média das temperaturas se manteve 1,05 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais.

As evidências podem não ser suficientes para convencer o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No Fórum Econômico Mundial, realizado de 21 a 24 de janeiro em Davos, na Suíça, Trump criticou o que chamou de “alarmismo ambiental” propagado por “profetas do apocalipse”, em alusão à ativista sueca Greta Thunberg e seu grupo de jovens defensores do meio ambiente. Mas os sinais de que a humanidade está diante de uma escalada de eventos climáticos catastróficos são suficientes para criar temores no mercado financeiro. “Esse tema deixou de ser uma questão de nicho para se tornar um valor fundamental das instituições”, afirmou Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra, banco central britânico, durante painel realizado em Davos. “Até onde enxergo, existe uma reforma fundamental em curso no sistema financeiro.”

Alarmista para uns, realista para outros, a tese de que é preciso se preparar para o pior e, ao mesmo tempo, acelerar a transição para uma economia de baixo carbono começa a mobilizar a ação de diversos bancos centrais. Carney, que deixará o comando do banco central britânico em março, mas seguirá como conselheiro do primeiro-ministro Boris Johnson, lidera um movimento que defende uma atuação mais efetiva por parte dos reguladores financeiros para conter o aquecimento global 2 graus acima dos níveis pré-industriais, como determina o Acordo de Paris. “Uma vez que as mudanças climáticas se tornem um risco real e imediato para o equilíbrio financeiro, pode ser tarde demais para estabilizar o aquecimento da atmosfera em 2 graus”, afirmou o dirigente, em discurso proferido em março de 2019. Para isso, ele propõe a criação de regras e padrões de investimentos que levem em consideração o custo das emissões de carbono, além da destinação dos recursos financeiros geridos pelos bancos centrais, como as reservas internacionais, aos setores de baixa emissão.

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A ideia de usar o poder dos bancos centrais para conter as emissões ganhou um tom de urgência agora, mas já vem sendo discutida há alguns anos. “É uma estratégia incomum, mas que pode funcionar”, afirma Sérgio Werlang, assessor da presidência da Fundação Getulio Vargas e ex-diretor do Banco Central. Em 2017, oito bancos centrais — de Inglaterra, França, Holanda, Alemanha, Finlândia, Singapura, México e China — criaram a Network of Central Banks and Supervisors for Greening the Financial System, uma rede de reguladores cujo objetivo é a troca de informações e práticas que favoreçam a mobilização de capital para setores de baixo carbono. Hoje, 54 instituições fazem parte da iniciativa (o Brasil não é signatário). Quando assumiu o comando do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, ex-chefe do Fundo Monetário Internacional, classificou o combate às mudanças climáticas como uma “missão crítica” do BCE.

As medidas práticas começam a despontar. Desde o ano passado, o Banco da Inglaterra conduz testes de estresse climático com bancos e seguradoras do país. Estão sendo considerados três cenários. O mais severo prevê uma elevação de 4 graus na temperatura global até 2080. Os resultados serão divulgados em 2021. No Brasil, a Febraban, federação que reúne os bancos, e o Banco Central conduzem um projeto semelhante. De forma voluntária, as instituições financeiras estão criando a chamada “régua de sensibilidade climática”, que vai determinar a exposição de cada uma às mudanças climáticas. Segundo Mário Sérgio Vasconcelos, diretor de sustentabilidade da federação, os resultados devem sair em dois ou três anos. “Essa é uma pauta nova para o mercado financeiro, porém permanente e liderada pelo setor privado”, afirma Vasconcelos.

Energia eólica: 3,5 trilhões de dólares ao ano por uma matriz limpa até 2050 | Germano Lüders

Em paralelo, existe um esforço das próprias empresas e instituições financeiras para criar um padrão de divulgação de informações relacionadas a riscos climáticos, algo que vai facilitar a análise de riscos sistêmicos. Em Davos, as quatro maiores empresas de auditoria do mundo, Deloitte, EY (antiga Ernst &Young), KPMG e PwC, assinaram um acordo em que estabelecem um modelo contábil para os dados de impacto climático. A iniciativa foi capitaneada pelo presidente mundial do Bank of America, Brian Moynihan, diretor do International Business Council, conselho ligado ao Fórum Econômico Mundial que reúne cerca de 100 presidentes de empresas de vários setores. A ideia é unificar diversos padrões de relatórios existentes, entre eles o Global Reporting Initiative (GRI), o mais utilizado atualmente, e o TCFD — sigla em inglês para força-tarefa sobre divulgação de informações financeiras ligadas ao clima, iniciativa presidida por Michael Bloomberg, pré-candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, criada em 2015 pelo Financial Stability Board, órgão internacional que monitora o sistema financeiro.

No Brasil, há duas ações para a disseminação do TCFD, uma liderada pela Febraban e outra pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que reúne 60 grandes grupos empresariais, entre eles a fabricante de bebidas Ambev, as de cosméticos Natura e O Boticário, e os bancos Bradesco e Itaú. “É um passo importante para regulamentar as emissões de carbono”, afirma Marina Grossi, presidente do CEBDS.

Risco de imagem

Com essas mudanças, a expectativa é que o dinheiro migre espontaneamente dos setores intensivos em carbono para os menos intensivos. “Há uma preocupação crescente do setor financeiro não só com os riscos materiais das mudanças climáticas mas também com os riscos de imagem”, afirma Ronaldo Seroa da Motta, professor de economia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Um exemplo emblemático está no anúncio feito neste ano por Larry Fink, presidente do conselho e principal executivo da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, com uma carteira de mais de 6 trilhões de dólares. Fink comprometeu-se a deixar investimentos com alto índice de emissões, como a cadeia do carvão.

Incêndio na Austrália: uma área equivalente à da Inglaterra já foi consumida pelo fogo | Sam Mooy/Getty Images

Fazer essa migração de capital exigirá grandes esforços. A Agência Internacional de Energia estima que adotar globalmente uma matriz energética limpa demandará 3,5 trilhões de dólares por ano até 2050. Carney e Lagarde defendem que os bancos centrais deem um empurrãozinho ao comprar os chamados green bonds, títulos vinculados a atividades de baixo carbono. A ideia é polêmica. “Bancos centrais não têm legitimidade democrática para isso”, disse Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, banco central da Alemanha, na abertura de um simpósio sobre mudanças climáticas em outubro. Diante de impasses como esse, só há uma certeza: a conta de todo jeito vai chegar — e, ao que parece, não vai demorar muito. 

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