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O sonho americano está cada vez mais distante

Para a maioria dos americanos, cresce a percepção de que a vida está mais dura e os degraus para ascender socialmente estão mais difíceis de escalar

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Formandos da Universidade Estadual do Arizona, uma das maiores do país: o custo de um curso universitário cresce muito acima da inflação e se torna proibitivo para parcelas da sociedade que mais precisam de educação (Brooks Kraft/Corbis/Latinstock)

Formandos da Universidade Estadual do Arizona, uma das maiores do país: o custo de um curso universitário cresce muito acima da inflação e se torna proibitivo para parcelas da sociedade que mais precisam de educação (Brooks Kraft/Corbis/Latinstock)

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Daniel Barros

Publicado em 11 de julho de 2014 às, 23h13.

São Paulo - O mito do excepcionalismo americano — a ideia de que se uma pessoa trabalhar duro e seguir as regras do jogo conseguirá enriquecer — sempre levou milhões de imigrantes aos Estados Unidos. Mas foi apenas no começo do século 20 que esse fenômeno ganhou uma expressão definitiva.

Mais exatamente na década de 30, quando o historiador James Truslow Adams, autor do livro A Epopeia Americana, cunhou o termo “sonho americano”. A partir daí, a expressão se espalhou com a ajuda do cinema e despertou admiração por todos os cantos do mundo.

Antes de completar 100 anos, porém, a noção de que os Estados Unidos são um país de extraordinária mobilidade social está sendo colocada em dúvida — pelos próprios americanos. Para um número cada vez maior deles, o sonho parece mais distante. Em 2008, 54% dos americanos se consideravam de classe média.

Hoje, o percentual é de 44%. Já a fatia dos que se dizem de baixa renda aumentou de 25% para 40%. Como se trata de uma pesquisa sobre percepção, vale sempre a pena questionar se a classe média nos Estados Unidos está mesmo encolhendo — ou se os americanos estão, em bom português, apenas reclamando de barriga cheia. 

Tomando como base quem está bem no meio da pirâmide social americana, a situação pode ser descrita como desanimadora. Desde 1999, a renda do lar americano que divide a população entre uma metade mais rica e outra mais pobre caiu. A chamada mediana da renda saiu de 56 000 dólares anuais para 51 000, quase um retorno ao patamar de 1995.

Isso quer dizer que a vida piorou? Hoje, um americano precisa trabalhar menos horas do que na década de 70 para comprar uma série de produtos — de carros e roupas a telefones e brinquedos. O problema são os custos com saúde, educação e moradia.

O gasto privado com saúde por pessoa subiu 75% em termos reais nos últimos 20 anos, e o preço pago para mandar os filhos para a universidade está 70% maior.

O alto custo do ensino superior impõe uma barreira de entrada nas universidades. Isso é agravado pela baixa poupança das famílias. Na década de 60, elas poupavam uma média de 10% da renda. Hoje, a média beira 4%.

O resultado é que os Estados Unidos são um dos poucos países do mundo em que o índice de jovens que completaram a faculdade é menor na faixa etária de 25 a 34 anos do que na de 55 a 64 anos, de acordo com um estudo do economista Robert Gordon, da Universidade Northwestern, em Massachusetts.

Em resumo, a ordem natural está sendo subvertida: os filhos estão estudando menos do que seus pais. “O fenômeno que se convencionou chamar de encolhimento da classe média significa uma dificuldade crescente das famílias em alcançar a segurança econômica”, diz Melissa Kearney, professora de economia da Universidade de Maryland e diretora do projeto de desenvolvimento econômico inclusivo da ONG Brookings. 

Bolso cheio ou vazio?

Comparada a si mesma, a classe média americana retrocedeu algumas casas nas últimas décadas. Mas, confrontados com o desempenho da classe média do Canadá, os americanos simplesmente perderam o reinado. Estudos recentes apontam que a renda da classe média americana, antes a maior do mundo, foi igualada pela canadense em 2010, o ano dos dados mais recentes.

Estima-se que, desde então, os canadenses tenham passado a dianteira. “Os dados mostram que alcançar o sonho americano não está tão fácil quanto a esmagadora maioria das pessoas pensava”, diz Erin Currier, diretora de estudos sobre mobilidade econômica da Pew Charitable Trusts, uma das principais ONGs do país. 

Não há dúvidas de que o empobrecimento daqueles no meio da pirâmide tem relação com a crise econômica iniciada pela quebra do banco de investimento Lehman Brothers em 2008. Mas engana-se quem põe toda a culpa nessa fase difícil da economia americana. Há fatores estruturais por trás do aperto. A crise apenas colocou uma lupa sobre eles.

“Há 30 anos as mudanças tecnológicas e a emergência das cadeias globais vêm tirando empregos de qualificação intermediá­ria dos Estados Unidos”, diz o economista Otaviano Canuto, especialista em desenvolvimento econômico do Banco Mundial. O chamado trabalhador de colarinho azul, que geralmente tinha apenas o ensino médio e fazia atividades repetitivas na indústria, perdeu o emprego.

Os economistas americanos chamam esse processo de “polarização” no mercado de trabalho. Com menos oportunidades no meio da pirâmide social, os trabalhadores foram deslocados — uma minoria conseguiu migrar para a camada de cima, enquanto a maioria foi brigar pelos piores empregos. E isso fez aumentar as distâncias.

De 1979 a 2012, a diferença de renda anual entre uma família em que o provedor tem o ensino médio completo e outra em que o provedor tem diploma universitário aumentou 28 000 dólares. Essa é a conclusão de um levantamento feito pelo economista David Autor, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Olhando para a frente, a maioria dos economistas espera um aprofundamento desse processo em andamento no mercado de trabalho. É verdade que os custos de produção estão aumentando na China e que algumas empresas americanas estão retornando suas operações para os Estados Unidos, graças principalmente à redução dos custos de energia.

Mas seria irrealista esperar um aumento acelerado dos empregos na indústria. As novas fábricas em solo americano são, em geral, altamente automatizadas, com robôs e sistemas de software de última geração. É por isso que a estratégia mais apontada para retirar a pressão sobre a classe média é melhorar o acesso à educação. 

Justiça seja feita, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tem dado atenção especial a esse tema. Sua campanha de reeleição foi pautada pela discussão sobre a desigualdade social.

Em um pronunciamento ao Congresso em janeiro, Obama reconheceu que há muitos americanos com poucas chances de ascender socialmente e que isso é um grave problema. Mas até agora as medidas do governo para incentivar a mobilidade ainda são consideradas incipientes.

A discussão americana, é verdade, se insere num debate mais amplo. O mundo passa por um momento de transição tecnológica que muitos comparam, com certo exagero, ao da Revolução Industrial.

E o passado mostra que avanços na tecnologia podem causar uma reviravolta no mercado de trabalho numa perspectiva mais imediata — mas acabam, no médio prazo, sendo uma força poderosa para criar novos e melhores empregos.

Resgatar o mito do sonho americano, portanto, é completamente possível, ainda mais para um país que mantém há muitas décadas a dianteira tecnológica. Mas a tarefa exigirá bem mais do que discursos.

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