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Novo parque híbrido promete ser a vanguarda da geração de energia renovável do Brasil

Construído numa parceria de privados e públicos, o marco regulatório das usinas híbridas tem potencial de mudar o setor energético

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Novo parque híbrido promete ser a vanguarda da geração de energia renovável do Brasil

Construído numa parceria de privados e públicos, o marco regulatório das usinas híbridas tem potencial de mudar o setor energético

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Por André Martins

Publicado em 26/11/2023, às 06:06.

Última atualização em 30/11/2023, às 10:19.

Entre Pernambuco e Piauí

CURRAL NOVO, PIAUÍ — No sertão nordestino, na fronteira entre o Piauí e Pernambuco, um novo parque da Auren Energia, empresa oriunda da integração dos ativos de energia da Votorantim S.A e do CPP Investments e que atua como geradora de energias renováveis e comercializadora, que começou a operar na sexta-feira, 24, promete ser a vanguarda da energia renovável. Batizado de Sol do Piauí, ele opera durante o dia para captar energia solar e durante a noite como eólico. O conceito não é novo, mas a regulamentação, sim. Em um trabalho conjunto entre a iniciativa privada e de autarquias públicas, como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o projeto, que começou a ser articulado em 2018, gerará as primeiras cargas de energia sob a nova regulação.

Ao todo, foram investidos 255 milhões de reais na estrutura. O projeto funcionará no modelo de parque associado, no qual a estrutura da nova usina solar com capacidade inicial para gerar 48,1 MegaWatts (MW) será instalada em um terreno ao lado do já existente parque eólico Ventos do Piauí I, com uma subestação de transmissão compartilhada. A energia do projeto solar irá complementar a produção do projeto eólico, cuja geração é mais intensa no período noturno por causa da característica dos ventos na região.

Antes da regulamentação, empresas instalavam parques solares e eólicos em terrenos próximos, mas não compartilhavam a mesma linha de transmissão, por falta de regras. Por isso, a grande novidade do novo projeto é utilizar a estrutura de transmissão já instalada, o que economiza recursos das empresas, além de resultar em uma complementaridade temporal entre as diferentes fontes de geração elétrica.

"Com o parque associado, diminuímos a variação de energia entregue no ponto de transmissão, porque essas fontes de energia são sazonais durante o ano", explica Henrique Barbosa, gerente de operação e manutenção de parques eólicos da Auren, enquanto dirige o carro que leva a equipe da EXAME até as instalações fotovoltaicas.

Na prática, a hibridização permite que fora das "safra dos ventos", período entre junho e setembro no qual os ventos são mais fortes na região, o parque consiga manter constante a geração de energia, pela complementação da geração solar. Além disso, empresas terão diminuição de custo pela otimização da utilização do sistema de transmissão. Por exemplo, será mais barato instalar um parque solar utilizando a mesma linha de transmissão e subestação do eólico já em funcionamento. Antes da regulamentação, a implementação era “individualista”, cada fonte tinha seu rito processual para entrar em operação.

"A combinação de fontes de energia com diferentes perfis de produção horária possibilita a otimização e utilização da capacidade ociosa do sistema de transmissão de energia. Para a matriz elétrica brasileira é muito importante e para nós, como companhia, é essencial para entregar valor para o nosso cliente. Sofremos menos com a sazonalidade", diz Barbosa enquanto o carro se próxima da instalação solar preparada para entrar em operação.

A EXAME visitou com exclusividade a operação perto do lançamento. De Araripina, cidade em Pernambuco com 85.000 habitantes, onde a maioria dos funcionários da empresa moram, foram mais de 88 km até chegar ao parque em Curral Novo, município de apenas 5.000 habitantes no Piauí. Entre pequenos vilarejos com igrejas, academias e bares, e uma longa estrada de terra, se passaram mais de uma hora.

O tempo fechado com ventos fortes e ameaça de chuva durante a visita ao parque — considerado raro para a região —, frustrou a ideia de observar a luz do sol refletindo nos painéis solares. Mas alegrou a população local, que enfrenta forte seca nos últimos meses. "Acho que essa foi uma das piores secas dos últimos 26 anos", diz Maria Juscilene Silva Lima Cardoso, de 49 anos, produtora rural com uma pequena propriedade na Serra do Inácio, a 20 minutos de carro de Curral Novo.

A instalação do parque eólico, desde 2018, provocou um impacto na região. Além da geração de empregos diretos e indiretos, a empresa buscou levar energia elétrica para as escolas dos vilarejos mais remotos, realizou melhorias em casas próximas ao parque — para diminuir os efeitos dos ruídos provocados pelas gigantes estruturas eólicas — e lançou programas de empreendedorismo e para boas práticas no campo.

Um exemplo é o restaurante Sabor Sertanejo, administrado por Eliane Delmondes, empresária e produtora local. Depois da chegada da Auren e de outras empresas do setor de energia, o negócio prosperou. Ela abriu uma nova unidade em outra região, começou participar de licitações públicas, além de fechar contratos de fornecimento de alimentação com as empresas da região.

Em contrapartida, artigos publicados pelo Observatório da Energia Eólica, rede de pesquisadores de universidades públicas de cinco estados brasileiros, alertam que, em conjunto com o avanço dos parques eólicos e solares é necessário um plano de benefícios sociais para a população que vive nos arredores dessas estruturas, uma vez que os impactos negativos passam pela emissão de ruído com consequências para a saúde humana.

"Essa obra trouxe e traz muitos benefícios para a região onde ela está instalada no estado do Piauí, que é muito pobre, mas com duas potencialidades hoje muito valorizadas: a irradiação solar e a energia dos ventos", diz Sandoval de Araújo Feitosa Neto, diretor-geral da Aneel, em entrevista exclusiva à EXAME.

Casa de Maria Juscilene Silva Lima Cardoso, de 49 anos, na Serra do Inácio, a 20 minutos de carro de Curral Novo: Propriedade rural fica em volta do parque

Casa de Maria Juscilene Silva Lima Cardoso, de 49 anos, na Serra do Inácio, a 20 minutos de carro de Curral Novo: Propriedade rural fica em volta do parque eólico - Crédito: André Martins/EXAME

Papel da Aneel e o potencial do setor

Em 2021, a Aneel aprovou a regulamentação para o funcionamento de usinas híbridas e associadas. O normativo trouxe as definições e as regras para a outorga — a permissão de operação — desses empreendimentos e para a contratação do uso dos sistemas de transmissão, além de definir a forma de tarifação dessas usinas e da aplicação dos descontos legais nas tarifas.

"A energia gerada no parque híbrido da Auren é equivalente a uma cidade de 80.000 habitantes. Apenas para entender a dimensão, esse parque poderia gerar energia elétrica para a terceira maior cidade do estado do Piauí, Picos, com 83.000 habitantes", explica o diretor-geral da Aneel.

Segundo dados técnicos do setor, o Brasil tem capacidade de produzir de 22 a 25 GigaWatts (GW) de energia eólica. A região Nordeste é responsável por 90% da produção nacional. Em 2022, o Brasil foi o terceiro país no mundo que instalou mais parques eólicos — e o sexto maior gerador de energia eólica do mundo.

No caso da energia solar fotovoltaica, em 2022, a produção representou 4,4% da matriz energética brasileira, um salto em relação à 2021, quando era de 2,5%. Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam que a representatividade da fonte na matriz brasileira pode saltar dos atuais 4% para até 15% até 2050 em geração centralizada.

A regulamentação que une essas duas fontes de geração de energia com potencial no Brasil, e possibilita a melhor utilização do espaço físico e economia de recursos das empresas por utilizar uma estrutura já existente, representa um avanço do Brasil no desafio da expansão desse de energias renováveis. O plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2031, lançado em 2022, destaca que as fontes eólicas e solar vão se tornar as principais matrizes enérgicas do país nos próximos anos.

Estima-se que a capacidade instalada de geração elétrica brasileira atinja o nível de renovabilidade de 83% em 2031. Hoje, é de 47,4%, segundo o Balanço Energético Nacional 2023. "Você gera mais energia elétrica em um único local, agrupando o potencial energético do Brasil. Já temos dois grandes parques em operações e esperamos avançar mais", afirma Sandoval.

A Auren foi a primeira empresa a ter aprovação da Aneel para implementação do novo modelo, além de participar do processo de estudos para a definição do marco legal dos parques híbridos. Em março deste ano, a Neoenergia utilizou a nova regra e inaugurar um parque associado. Sua estrutura é formada por 15 parques eólicos e 136 aerogeradores com capacidade instalada de 471,2 Megawatts (MW). Além disso, conta com 228.000 painéis solares com potência instalada de 149,2 megawatts-pico.

No início dos anos 2010, esse tipo de usina elétrica era utilizada apenas em regiões com sistemas pequenos, como ilhas. Porém, nos últimos anos, países como Índia, Austrália, Estados Unidos, Reino Unido e China estudaram e começaram a explorar a hibridização. Eles, inclusive, são citados nos estudos da Empresa de Pesquisa Energética para o desenvolvimento das regras brasileiras para a hibridização. A geração hibrida é vista pelos países como uma forma de cumprimento das metas de expansão de energias renováveis com melhor utilização das terras.

O gráfico mostra o comportamento da geração de energia do parque híbrido durante diferentes períodos do dia. A barra em azul é a geração eólica, a amarela é a solar e a área verde é a junção das duas. A linha em vermelho é a capacidade total da usina. Na amostra de janeiro, com a diminuição dos ventos, e consequentemente, a menor geração de energia eólica, o parque consegue utilizar a capacidade capacidade ociosa do sistema de transmissão. Essa é a "mágica" da hibridização.

Impacto dos parques híbridos para Auren 

Em entrevista à EXAME, o CEO da Auren, Fábio Zanfelice, afirma que a hibridização de seus outros parques eólicos, localizados na região do Piauí, é a prioridade da companhia. Novos projetos, revela, já devem nascer com essa possibilidade. "Vamos continuar a hibridização dos outros parques eólicos. E qualquer outro projeto que venhamos a desenvolver também será considerado para instalações hibridas. É inegável o grande benefício desse modelo de operação", diz.

Sobre o impacto que esse tipo de projeto pode trazer para os resultados da empresa, Zanfelice comenta que a redução do custo de operação e manutenção, além da geração estável durante o dia e o ano traz benefícios financeiros para a Auren.

"A precificação de energia no Brasil é diferente a cada hora, o que possibilita o cálculo do custo marginal de operação do sistema. Qualquer diferença que nós temos entre a compra e a venda de energia para os nossos clientes, ou a gente recebe, a gente paga, baseado nesse preço de curto prazo. Então, conseguir construir uma base onde a geração é a mais estável possível, possibilita mitigar o risco de exposição entre o preço da geração e o que você está vendendo para o cliente", explica.

No terceiro trimestre, a Auren teve receita líquida de R$ 1,6 bilhão, um aumento de 5,7% em relação ao terceiro trimestre de 2022. O Ebitda ajustado, lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, foi de R$ 453,2 milhões, 46,4% superior ao mesmo período do ano anterior. Nos nove primeiros meses de 2023, a receita líquida da Auren atingiu R$ 4,5 bilhões, o que representa um crescimento de 4,9% em relação ao reportado no mesmo período do ano anterior.

"Nós construímos um projeto que está com retorno dentro do que o acionista espera, com a qualidade. E dentro do portfólio da Auren, mais do que o próprio resultado financeiro, essas adjacências que eu citei são importantes para a diversificação da geração da companhia", conclui Zanfelice.

*O repórter viajou a convite da Auren

Fábio Zanfelice, CEO da Auren

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