Wildlife, a desconhecida startup de games que já vale US$ 1,3 bilhão

Este ano chegaram ao grupo de bilionárias outras quatro startups brasileiras: Loggi, Gympass, QuintoAndar, de aluguéis, e o Ebanx, de pagamentos

Quando se formaram na escola politécnica da Universidade de São Paulo, os irmãos paulistanos Victor e Arthur Lazarte seguiram rumos comuns a jovens engenheiros brasileiros no fim dos anos 2000. Foram trabalhar, respectivamente, em um banco de investimento e em uma consultoria. Mas, pouco tempo depois, eles deixaram o emprego e voltaram para a casa dos pais em São Paulo decididos a abrir uma empresa de jogos para celular. Na casa dos 25 anos, os dois não sabiam sequer programar jogos — e precisaram aprender com vídeos online.

Oito anos e quase 2 bilhões de downloads depois, os irmãos Lazarte assinaram em novembro uma rodada de investimentos que avaliou a empresa fundada por eles em 2011, o estúdio de games Wildlife, em 1,3 bilhão de dólares. O aporte de 60 milhões de dólares, liderado pelo fundo de investimento americano Benchmark, coloca a Wildlife como o mais novo membro de um clube seleto: o de startups “unicórnios”, companhias de capital fechado avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares.

Este ano chegaram ao grupo outras quatro startups brasileiras: a empresa de entregas Loggi, a Gympass, que vende planos de academias, a QuintoAndar, de aluguéis, e o Ebanx, de pagamentos. Antes deles, a 99, de transportes, a Movile, um grupo com empresas tecnológicas, o iFood, de entregas, e a financeira Nubank já haviam sido avaliados em 1 bilhão de dólares, no ano passado.

Enquanto viviam longe dos holofotes, os Lazarte colocaram a Wildlife — que até agosto se chamava TFG, sigla para Top Free Games — entre as dez maiores empresas de games móveis do mundo, chegando a um quadro de 500 funcionários e escritórios em quatro países. “Queremos criar os jogos que vão marcar esta geração”, diz Victor Lazarte, o caçula da dupla e que hoje, aos 33 anos, mora na Califórnia para tocar a expansão global da empresa. Seu irmão Arthur, de 35 anos, fica em São Paulo.

Até o aporte mais recente, a empresa tinha apenas um sócio, Brian Feinstein, do fundo Bessemer Venture Partners, com investimento secundário nos fundadores. Mas o sucesso dos games foi chamando a atenção. E dando origem a histórias curiosas. Lucas Lima, diretor de operações, trabalhava na tradicional consultoria Bain&Co quando foi sondado pela Wildlife. Como ele resistia, Victor pediu que batesse um papo com um “amigo”. No outro lado da linha estava o investidor Jorge Paulo Lemann, do fundo 3G Capital e maior bilionário brasileiro. Lima aceitou, claro. Carlos Saldanha, diretor de animações famosas, como A Era do Gelo, é mentor da dupla. O vice-presidente de realidade virtual do Facebook e ex-Xiaomi e Google, Hugo Barra, também entrou como investidor na rodada de novembro.

Para os próximos anos, a meta é usar o novo aporte para continuar crescendo no ritmo de 80% ao ano, criar um braço para distribuir jogos de outros estúdios menores e, sobretudo, contratar talentos globais para brigar com uma concorrência que fica cada vez mais pesada. Apenas 3% dos clientes da Wildlife estão no Brasil. Além de São Paulo, que é a sede da empresa e maior escritório, a Wildlife tem ainda escritórios em Buenos Aires, na Argentina, Dublin, na Irlanda, e, nos Estados Unidos, nas cidades de São Francisco, Orange County e Palo Alto.

O último jogo lançado, Tennis Clash, foi o mais baixado em mais de 100 países na semana do lançamento. Alguns dos maiores sucessos do portfólio incluem ainda o Sniper 3D, de 2014 — que, até o lançamento do game Fortnite, em 2017, foi o jogo de tiros mais baixado do mundo.

“A Wildlife é bastante reconhecida entre os pares por sua expertise na monetização dos jogos. Em uma viagem que fizemos à China, eles mostraram o que fazem para players gigantes na indústria, e todos ficaram encantados”, diz Hugo Barra, vice-presidente de realidade virtual do Facebook e mentor informal dos fundadores da Wildlife, que conheceu no início da década.

Os jogos da Wildlife são no modelo freemium, gratuitos para jogar, mas com itens pagos dentro do jogo, algo que permite à startup ser lucrativa desde os primeiros anos. A Wildlife teve o mérito de entrar no início da ascensão dos smartphones e cresceu com o mercado de games móveis. “Quando começamos, ninguém pensava em jogos para celular”, diz o diretor de tecnologia, o chileno Michael Mac-Vidar, que deixou um emprego no Vale do Silício para apostar na Wildlife, há sete anos.

Hoje os jogos para smartphones e tablets faturam quase 70 bilhões de dólares ao ano (ou 45% do mercado de games, ante 18% em 2012), segundo a consultoria especializada em games Newzoo. “Mesmo grandes empresas de console, como EA e Sony, vêm lançando versões para mobile”, diz Candice Mudrick, analista da Newzoo.

A história completa dos unicórnios brasileiros, com seus desafios e oportunidades, está na capa da edição 1199 de EXAME, disponível nas bancas e nas versões digitais. 

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