Quem empreende sempre tem uma nova batalha para lutar, diz Nathalia Arcuri

No Dia do Empreendedorismo Feminino, mulheres representam quase 50% de empreendedores do Brasil, mas continuam lidando com preconceitos e acúmulo de jornada

Depois de pagar a faculdade de publicidade com dificuldade, Ana Fontes, já formada e especializada em marketing e relações internacionais, ouviu do chefe que não seria promovida por ser mulher. O desejo de empreender da alagoana surgiu como uma necessidade após muitas experiências em empresas. Nas primeiras tentativas, a realidade mostrou que o mundo do empreendedorismo não seria mais fácil para mulheres do que o corporativo. Ironicamente, Fontes decidiu que as barreiras de gênero seriam o foco do seu negócio e criou em 2010, a Rede Mulher Empreendedora, que começou apenas como um espaço para compartilhamento de conteúdo e divulgação de empresas fundadas e administradas por mulheres.

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Foi com as tentativas e erros de Fontes que, hoje, a RME é uma das maiores plataformas de apoio ao empreendedorismo feminino, e oferece cursos de aperfeiçoamento para promover a educação, desenvolver habilidades e fomentar o relacionamento entre as empreendedoras. A rede conta com mais 700 voluntárias e 750 mil integrantes, além de ser signatária dos princípios de empoderamento da ONU Mulheres. Em 2019, Fontes desenvolveu, em parceria com o Google, o programa de capacitação “Ela Pode”. O projeto contou com investimento de US$ 1 milhão de dólares e pretende capacitar 135 mil mulheres até o final de 2020. A fundadora da RME foi considerada uma das vinte mulheres mais poderosas do Brasil pela revista Forbes no ano passado.

“O primeiro grande desafio foi entender o ambiente empreendedor, as regras do jogo e quais eram as dificuldades em fazer parte desse sistema que ainda é majoritariamente masculino. Leva um tempo para entender esse processo. O segundo maior desafio foi decidir qual é o tipo de negócio que eu iria abrir e o problema real da sociedade que eu iria resolver”, explica Fontes sobre a decisão de empreender.

Para a especialista em finanças e dona do canal Me Poupe!, Nathalia Arcuri, a capacidade de errar e tentar de novo é uma das habilidades necessárias para empreendedoras. “Quem empreende sempre tem uma nova batalha para lutar. A minha dica para mulheres é para elas não quererem ser sempre perfeitas. A mulher muitas vezes exige muito de si, ela espera estar pronta para começar um negócio, espera saber vender para começar a vender, espera o produto estar impecável para ir à rua vender”, afirma.

Números e preconceito

Segundo o relatório anual do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizado pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IQB) e pelo Sebrae, o Brasil tem aproximadamente 30 milhões de mulheres empreendedoras, ou seja, esse número representa cerca de 48,7% de todo o mercado empreendedor. Apesar da quantidade equivalente, as mulheres relatam situações recorrentes de preconceito na hora de abrir um negócio, situação que é lembrada para ser combatida nesta quinta-feira, 19 de novembro, considerado o Dia do Empreendedorismo Feminino.

Vanessa Winter é fundadora da Academia do Zero Ao Topo e Embaixadora da Plataforma MEB, Mulheres Empreendedoras Brasil. Ela conta episódios em que foi desqualificada da função por ser mulher. “Há alguns anos, tive uma loja de móveis com meu ex-marido e me lembro de muitas vezes ouvir: ‘Podemos conversar com o seu marido para fecharmos negócio?’. Sem contar as vezes em que falavam diretamente com ele, sendo que a decisão final geralmente era minha, ele apenas me auxiliava”, conta a empreendedora.

Mesmo os relatos de quem não passou por uma situação direta de preconceito ainda são receosos. “Acredito que meu grande desafio como mulher empreendedora foi me ver dentro de um universo predominantemente masculino e demonstrar minha capacidade e qualidade profissional em um ambiente predisposto a me julgar pelo meu gênero. Fui privilegiada por, até hoje, nunca ter passado por uma situação preconceituosa ou discriminatória nas empresas em que fui CEO ou sócia, mas a insegurança, incerteza e pressão constante andavam ao meu lado por muito tempo por ser a única mulher em minha posição. Ser mulher empreendedora é ter que se provar diariamente, estar sempre em uma zona de julgamento e desconfiança”, relata Tatiana Vecchi, CMO & CHRO da LAR.app, administradora digital de condomínios.

A MEB é outra rede de apoio a empreendedoras que começou como um grupo no Facebook e reúne mais de 27 mil mulheres de todo o país. As embaixadoras organizam lives com orientações para as empreendedoras e trocam dicas e indicações, fomentando o networking e incentivando mulheres a profissionalizarem seus negócios.

“A gente que é mulher, dona de casa, mãe, e empresária tem uma sobrecarga. E quando temos os depoimentos de outras, que não estamos sozinhas, que tudo bem não ser Super mãe, Super dona de casa e Super tudo, que largar a louça pro marido lavar, ou tentar ser o mais prática possível com a comida e dividir as tarefas de casa é normal, que trabalhar enquanto o filho dorme também é normal, ou fazer live enquanto está amamentando, isso ajuda a seguir em frente. Apoiamos umas às outras diariamente”, comenta Winter.

O acúmulo das tarefas domésticas, de responsabilidades com os filhos e a vida profissional é outra desvantagem que recai sobre as mulheres no empreendedorismo em relação aos homens. Uma pesquisa encomendada pela startup Me Poupe! feita em parceria com a Toluna, fornecedora líder de insights do consumidor sob demanda, aponta que 33% das mulheres afirmam cuidar sozinhas da casa enquanto tocam o próprio negócio. Entre os homens, o número é exatamente o oposto, 33% afirmam ter ajuda com as rotinas do dia a dia para poderem focar nos empreendimentos.

De acordo com outra pesquisa da RME, esse cenário foi intensificado desde o início da pandemia. O levantamento mostra que 17% das mulheres afirmaram ter aumentado a dificuldade em conciliar trabalho e família. Entre os homens, esse número foi de 8%.

“Desde 2010, já vemos um aumento no número de mulheres fundando startups e empreendendo. Mesmo assim, ainda temos muitos desafios para a liderança feminina. É importante colocarmos foco em iniciativas que ajudem a quebrar essas barreiras. Quando falamos em empreendedorismo feminino, já pensamos na construção de empresas e negócios, no entanto, vai muito além disso. O empreendedorismo empodera, traz visibilidade e possibilidade de falarmos sobre diversidade e transformação social, trazendo uma nova perspectiva de vida.”, conclui Diane Zehil, venture capital specialist da ACE Startups e fellow do Emerging VC Fellows.

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Redes de apoio e representatividade

Redes como a MBE e a RME são plataformas de apoio profissional e pessoal às mulheres. As plataformas reúnem empreendedoras e criam uma malha de contatos e oportunidades. Para Nathalia Arcuri, as iniciativas são essenciais no incentivo ao empreendedorismo feminino. “Para mudar o cenário de desigualdade de gênero tanto mundo corporativo quanto no do empreendedorismo, é preciso apoiar empreendedoras e criar redes de segurança que passem confiança”, afirma a especialista em finanças.

A dona da startup Me Poupe! também fala sobre a importância da representatividade. “Nós temos poucos ícones femininos para seguir no empreendedorismo, então é importante mostrar para as mulheres que, sim, existem mulheres que também saíram do nada e que hoje empregam milhares de pessoas, têm empresas extremamente saudáveis e sustentáveis, que geram lucro, renda e empregos. Nesse momento elas têm em quem se espelhar. O primeiro ponto é criar identificação entre mulheres que querem empreender e mulheres empreendedoras que alcançaram patamares que antes eram alcançados só por homens”, finaliza Arcuri.

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