Professor e aluno brasileiros criam startups na Nova Zelândia

Sillas Villas Boas e Matheus Vargas são exemplos da filosofia do país de combinar pesquisa com resultados práticos (e lucrativos)

Auckland, Nova Zelândia - No Brasil, ser um acadêmico e um empreendedor parecem opções tão distintas quanto água e óleo.

O professor Sillas Villas-Boas e o estudante de doutorado Matheus Vargas tiveram de viajar para o outro lado do mundo para descobrir que suas pesquisas poderiam não apenas causar impacto prático, mas se tornarem fonte de renda e de desenvolvimento de outras inovações.

Villas-Boas e Vargas desenvolvem projetos em áreas como microbiologia e laticínios na Universidade de Auckland, na Nova ZelândiaEsses estudos, com o apoio da academia, transformaram-se em negócios que trazem receita para os departamentos do professor e do estudante e também para a área de financiamento de pesquisas da universidade.

Além de ajudarem mais startups acadêmicas a se tornarem realidade, Villas-Boas e Vargas perceberam como a ciência pode ser uma opção autossustentável de carreira - e já pensam em mais projetos para desenvolver.

Academia e empreendedorismo

Villas-Boas é professor de Microbiologia Industrial e Médica na Universidade de Auckland há mais de dez anos. Formado em Química pela Universidade de Brasília e em Ciências Biológicas pela Unicamp, ele fez seu mestrado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e seu doutorado em Biotecnologia e Filosofia pela Universidade Técnica da Dinamarca.

“Eu sempre me interessei por pesquisas nas quais os resultados podem ser vistos no curto prazo, e acho que daí vem a minha ligação com o empreendedorismo”, conta.

Villas-Boas encontrou abertura em Auckland para ser não apenas um acadêmico, mas tocar projetos paralelos. Os pesquisadores na Nova Zelândia podem trabalhar em período integral, conciliando sua carreira universitária com a vivência de mercado.

Em 2015, Villas-Boas conheceu a estudante brasileira de doutorado Ninna Granucci. Ela queria a ajuda do professor para abrir uma companhia logo que finalizasse seu PhD.

Os dois se inscreveram para o programa Velocity, da Universidade de Auckland, que apoia o desenvolvimento de startups no ambiente universitário. A iniciativa já incentivou mais de 120 ideias de negócio, que atraíram 220 milhões de dólares americanos em investimentos (na cotação atual, cerca de 750 milhões de reais).

Villas-Boas e Granucci foram finalistas do Velocity e, com isso, conseguiram recursos para desenvolver sua pesquisa e seu empreendimento. Assim nasceu a Green Spot Technologies, que produz frutas e vegetais com alta quantidade de proteína e poucas calorias por meio de fermentação e adição de micróbios específicos.

O negócio já possui uma planta de testes ao sul da cidade de Auckland e defende sua proposta de eficiência ambiental e financeira para produtores de sucos e vinhos, por exemplo.

“O Velocity foi fantástico para transformar nossa ideia em um plano de negócios e estabelecer contatos com os investidores. Como um acadêmico, acho ótimo que a universidade me apoie para dedicar parte do meu tempo às startups”, afirma Villas-Boas.

A Green Spot Technologies se uniu à UniServices, divisão da Universidade de Auckland responsável por desenvolver e comercializar pesquisas internas e externas à instituição há mais de 30 anos. Por meio do University of Auckland Investors Fund, as startups também podem receber investimento em fase pré-seed.

“O corpo de funcionários nos ajuda com mentorias jurídicas e deu financiamento para o começo do negócio. Se eu não tivesse esse apoio, empreender teria sido muito mais difícil”, diz o professor.

Em contrapartida, as receitas geradas pela comercialização das pesquisas são divididas entre os empreendedores, o departamento universitário ao qual eles pertencem e a UniServices. Mesmo após os donos do negócio deixarem a universidade, as patentes continuam gerando ganhos financeiros.

A primeira linha de produtos da Green Spot Technologies foi lançada em fevereiro de 2017. O negócio já fez parcerias com companhias neozelandesas, como a agrícola T&G Foods, e foi finalista dos prêmios NZI Sustainable Business Network Awards 2017 e NZ Innovation Awards 2017.

Já o estudante de doutorado Matheus Vargas teve um caminho diferente do de Villas-Boas: seus estudos na área de agronegócio foram elaborados a portas fechadas, por conta de segredos de pesquisa, e ele não pôde participar de programas de empreendedorismo.

Vargas fez sua graduação em Química nos Estados Unidos, com especialização em Biologia e Física. Ele foi selecionado para uma bolsa de estudos na Universidade de Auckland no último ano da faculdade e se tornou assistente de pesquisa por seis meses. Depois, foi convidado a fazer o doutorado na mesma universidade.

“Eu sempre fui inclinado à ciência aplicada ao empreendedorismo. Quando eu e meus supervisores desenvolvemos nossos projetos de pesquisa, sabíamos que teria essa inclinação”, conta. A equipe resolveu focar na produção de laticínios, setor que vale 7,8 bilhões de dólares neozelandeses (na cotação atual, cerca de 19,5 bilhões de reais) e contribuiu 3,5% ao PIB do país.

O empreendimento, chamado Orbis, permite realizar medições de indicadores importantes no próprio local e em minutos - gerando eficiência de custos e de tempo aos produtos de laticínios. É possível monitorar quando o animal precisa ser inseminado, evitando perdas com os erros nas janelas de fertilidade, e medir níveis de células somáticas, gorduras e proteínas, por exemplo.

Todos os artigos e patentes do pesquisador são atrelados ao seu trabalho na Orbis e na Universidade de Auckland. Ele foi da bolsa de estudos ao salário pago através da operação da startup.

“A quantidade de recursos que temos aqui, inclusive financeiros, permite que orientadores possam nos incentivar a sermos criativos - como faz o próprio Silas [Villas-Boas]. Enquanto isso, a falta de recursos no Brasil faz com que cada projeto de pesquisa tenha de ser muito certeiro. Isso impede a inovação”, argumenta Vargas.

Após quatro anos de estudos, a Orbis finalmente está se apresentando para grandes empresas, fazendeiros e oficiais do governo. A startup também se associou à UniServices e afirma ter conseguido recursos suficientes para levar a ideia adiante.

“Se a Orbis gerar receita, a UniServices também ganha e consegue financiar mais projetos inovadores. Esse ciclo virtuoso parece estar funcionando muito bem.”

Como é empreender na Nova Zelândia

A Nova Zelândia é considerada como a melhor nação para abrir seu próprio negócio. Não é por acaso, na visão dos empreendedores.

“Você pode registrar sua empresa online em poucas horas e operar em alguns dias. Tudo é extremamente transparente e sem burocracia. É difícil ter um processo mais fácil”, afirma Vargas. Para o estudante de doutorado, as leis neozelandesas se desdobram à medida que seu negócio cresce, enquanto a regulação brasileira foca em cobrar o máximo de empreendimentos que mal foram criados.

Além da Orbis, Vargas criou duas startups sem ligação com a Universidade de Auckland, mas que também estão sendo desenvolvidas a portas fechadas.

Uma delas é a Mevira, aplicativo de línguas que ajuda com problemas comuns em viagens. O app está passando por testes no Brasil, na China, nos Estados Unidos e na Nova Zelândia e procura investidores para iniciar seu marketing e lançar um site. A segunda startup trabalha com inteligência artificial e machine learning para analisar preços no mercado de criptomoedas, analisando reações emocionais dos agentes desse mercado, e está em fase ainda mais incipiente.

Como dica aos brasileiros aspirantes a empreender na Nova Zelândia, Vargas recomenda “conhecer bem os canais que farão seu negócio deslanchar”. Villas-Boas vai na mesma linha e diz ser preciso conhecer o ecossistema local, indo dos investidores aos especialistas em seu futuro setor de atuação.

“Você pode tanto entrar em contato direto com essas pessoas quanto adentrar o mundo do empreendedorismo por meio da universidade. Sua escola pode ser uma boa plataforma para lançar a ideia de negócio e uma boa fonte de aprendizado por meio dos programas extracurriculares”, recomenda o professor.

No caso de Villas-Boas e Vargas, essa estratégia conseguiu fazer água e óleo se misturarem.

A jornalista viajou a convite da Education New Zealand, agência de educação internacional do governo da Nova Zelândia.

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