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O dilema da sociedade: como separar negócio e amizade no empreendedorismo

Acordos claros, remunerações bem definidas e comunicação transparente são algumas dicas para fazer com que a amizade e o desejo de empreender em conjunto sejam mantidos simultaneamente, destaca a especialista em finanças Paula Bazzo

Amizade e sociedade: como manter as boas relações no empreendedorismo (Klaus Vedfelt/Getty Images)

Amizade e sociedade: como manter as boas relações no empreendedorismo (Klaus Vedfelt/Getty Images)

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Da Redação

12 de agosto de 2021, 13h45

Por Paula Bazzo, planejadora financeira

Como é comum dois amigos ou amigas se darem bem e decidirem fazer da amizade o início de uma empresa. Uma parceria que normalmente começa com muitas cláusulas invisíveis, tomada pela expectativa da nova aventura empresarial, das descobertas que a empreitada desvela e do carinho de anos de convivência e histórias. Passados os tempos iniciais, a tristeza: além da ruptura de sociedade, a mágoa e o término de um grande vínculo!

Naturalmente que isso não é regra, mas teria umas quatro ou cinco histórias semelhantes para contar que me vêm em mente sem esforço. Já mediei conversas para evitar a ruptura dolorosa, ainda que inevitável. Inclusive, com pesar, divido com você que já estive neste lugar de término de uma sociedade e despedida da amizade.

Mas o que é que o tema amizade e sociedade estão fazendo em uma coluna de finanças? É que muitas vezes são divergências de objetivos empresariais, esforço de trabalho desproporcional de uma das partes, aporte diferente de capital entre ambos (às vezes um entra com capital financeiro e outro com capital intelectual), discordância do modo de distribuição de lucros e a falta de diálogo transparente sobre tudo isso (geralmente com a “desculpa” de que não quer se indispor com a pessoa querida) que vai minando progressivamente a relação.

E aqui estão alguns conselhos de como minimizar esses atritos:

1) Distinga formatos de remuneração para os diferentes papéis que cada parte desempenha:

1. Administrativos: Não é incomum vermos uma das partes da sociedade ter habilidades administrativas, enquanto a outra tem tendências comerciais ou de pesquisa e desenvolvimento. Fato é que o trabalho administrativo desde a gestão de fluxo de caixa, gestão de pessoal, documentações contábeis e fiscais, entre outras, demandam bastante tempo. Portanto é justo que exista um pró-labore de acordo com a função que cada um irá desempenhar.

2. Operacionais: Alguns tipos de empresa pressupõem o envolvimento na entrega do produto ou serviço que se comercializa. Um exemplo são empresas de consultoria em que alguém tem que realizar a consultoria propriamente dita e entregar os relatórios ao final do processo. Uma forma de evitar a sobrecarga de um em relação ao outro é remunerar por entrega executada, da mesma forma que você pagaria alguém caso terceirizasse a execução.

3.   Distribuição de lucros: Apesar da possibilidade de remuneração via pró-labore e via execução do serviço/produto, uma das principais formas de remunerar os sócios é através da distribuição de lucros. Aqui entra a proporção de participação de cada um na sociedade, de acordo com critérios acertado entre as partes, sejam financeiros ou não.

Perceba, então, que não é porque há sócios que todos terão os mesmos ganhos. É possível ter recompensas diferentes a depender do maior ou menor envolvimento. Combinar isso antes de começar é um excelente passo para a parceria prosperar.

2) Escreva a condição de saída da sociedade no momento da união

Já parou para pensar que, quando acontece um casamento, é preciso informar o regime de separação (comunhão universal, parcial, separação total) antes da união ser formalizada? E, mesmo que um casal se una sem a formalidade de um registro civil, há o entendimento de que essa união se enquadra em um regime parcial. Ou seja, mesmo que não exista um contrato formalizando, existe uma responsabilidade jurídica na união estável.

Algo semelhante ocorre na criação de um negócio. Existe a constituição de uma empresa por vias legais, mas há também aquilo que se chama “sociedade de fato”, que apesar de não estar formalmente constituída pode, sim, caracterizar sociedade mediante comprovações.

Faço essa premissa porque isso terá implicações no momento de uma dissolução de sociedade empresarial.

Assim como ocorre no casamento, mesmo que não se tenha a intenção de separação, é mais simples deixar as regras claras quando a relação é harmônica, a comunicação é objetiva e as emoções não estão dominando a razão.

Estabelecer qual o tempo mínimo de permanência para que se tenha direito ao capital investido, como poderia ocorrer uma eventual venda de participação, quais os prazos de pagamento do capital de saída são alguns exemplos que podem ser acordados.

3)  Seja transparente na comunicação (e expectativas)

Não parta do pressuposto que seu sócio sabe qual a sua expectativa pelo simples fato de ser seu amigo. A máxima: “o óbvio precisa ser dito” é preciosa! Uma relação de sociedade empresarial não deveria estar pautada em comunicações subjetivas. Se algum direcionamento de negócio está incoerente, de seu ponto de vista, não adianta “dar um gelo” no “amiguinho”. Exponha os fatos que te fazem sentir desconfortáveis, qual a sua sugestão de direcionamento e dialoguem a respeito de alternativas. Visões diferentes são saudáveis se há espaço para falar delas e objetivos e valores comuns. Uma coisa é estarem alinhados ao mesmo objetivo, mas quererem percorrer caminhos diferentes para chegar lá! Outra é ter objetivos diferentes e não conversarem sobre isso.

E uma dica: se já para iniciar um negócio existir um sentimento de que “é melhor não falar sobre isso ainda”, pois é um assunto espinhoso, já está aí um sinal de um ponto sensível na parceria. Como será no dia em que as decisões forem mais tensas?

Se você não sabe por onde começar essa conversa com seu amigo-sócio atual, que tal mandar este texto e propor um papo sobre isso? Um presente para seu amigo e para seu negócio!

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