Demitido na crise, chef fatura R$ 320 mil com delivery de batatas

Vall Coutinho trabalhava em um restaurante que fechou as portas. Desempregado, abriu o próprio delivery a partir de sua especialidade: batatas recheadas

São Paulo – Quase 14 milhões de brasileiros estão desempregados – inclusive aqueles com alta qualificação e muita experiência no mercado. E, para muitos, a saída para obter uma fonte de renda é abrir um negócio que reflita seus conhecimentos.

Foi o caso do empreendedor carioca Vall Coutinho. O chef, com 20 anos de carreira gastronômica, ficou desempregado quando o restaurante em que trabalhava fechou as portas de repente. Então, resolveu ouvir o conselho de amigos e investiu em uma especialidade sua: a batata rostie, ou suíça.

Assim nasceu a Batata do Vall: um delivery que, no ano passado, vendeu mais de 7 mil batatas e faturou 320 mil reais. Para 2017, a meta chegar a 500 mil reais de faturamento – e expandir a operação para além do Rio de Janeiro por meio de batatas congeladas.

Desemprego e negócio em casa

A carreira de Vall foi movimentada: ele começou como chef no interior de São Paulo, trabalhando em hotéis fazenda e depois em eventos. Chegou a abrir negócios próprios, como uma cantina e uma empresa de eventos, mas a rotina de único dono o exauriu.

“Faz onze anos que eu voltei para o Rio de Janeiro. Comecei trabalhando em um hotel e outros dois restaurantes em Petrópolis. Fui para a cidade do Rio e, além de ser consultor para eventos que envolviam culinária, comecei a trabalhar com baixa gastronomia: cozinhei em quatro bares diferentes”, conta Coutinho.

No último restaurante em que Vall trabalhou, com capacidade para 400 pessoas, o dono resolveu fechar as portas de repente. O empreendedor lembra que ficou muito frustrado com a decisão.

“Tinha desenvolvido muitas coisas lá, mas o patrão reclamava que o dinheiro no vinha apenas alguns meses depois de abrir. A manutenção de um restaurante é dura, pede muita dedicação e investimento. O retorno não vem assim que você abre”, afirma. “Vi que o projeto era só financeiro e me decepcionei. Se você vai trabalhar com comida, o primeiro objetivo nunca será ganhar dinheiro.”

A frustração o levou ao empreendedorismo. “O restaurante fechou as portas e eu fiquei parado. Fui pensando em outras possibilidades e colegas me deram a ideia de vender minhas batatas rostie. Resolvi apostar nisso”, conta.

Esse era um prato que Coutinho sempre oferecia nos locais em que trabalhava – mas muitos viam as batatas suíças cozidas apenas como acompanhamento. “Nos restaurantes, trabalhava com elas de forma mais básica. Nos bares eu consegui colocar a batata já recheada. Mas não tinha a diversidade de recheios que eu faço hoje, na minha própria empresa.”

Coutinho decidiu que não cometeria o mesmo erro dos seus negócios anteriores: teria um parceiro na empreitada. Seu filho Vito Laselva, que trabalhava na área de tecnologia da informação de uma multinacional, resolveu ajudar o pai no novo negócio.

Enquanto Coutinho assumiu a produção, Laselva ficou com a administração e o financeiro do delivery, batizado de Batata do Vall – que faz entregas de batatas rostie recheadas de sabores como calabresa, camarão, carne seca e frango com cream cheese.

Batata rostie recheada de carne seca do delivery Batata do Vall Batata rostie recheada de carne seca do delivery Batata do Vall

Batata rostie recheada de carne seca do delivery Batata do Vall (Batata do Vall/Divulgação)

Para começar, em março de 2016, os dois usaram o limite de crédito de Laselva, que era de 1,5 mil reais. “Começamos em casa, com nosso fogão e nossa geladeira. Usamos o dinheiro para comprar matéria-prima, recipientes e frigideiras. Nunca havia trabalhado com delivery antes”, conta Coutinho.

A divulgação começou por meio de uma página criada no Facebook. Nas primeiras semanas, os empreendedores vendiam cinco batatas por dia na semana útil e dez batatas por dia nos fins de semana e feriados. Em três meses, o investimento inicial se pagou e o negócio começou a gerar lucro.

Os empreendedores receberam um convite do aplicativo de delivery iFood para entrar na plataforma. Para isso, Coutinho se registrou como microempreendedor individual (MEI) e oficializou a empresa.

“Descobrimos um outro universo. Mudamos toda nossa metodologia de compra de matéria-prima, armazenamento e entrega. Ainda fazíamos em casa, mas passamos a vender 80, 90 batatas recheadas por dia. De um motoboy, pulamos para cinco”, diz Coutinho.

O crescimento foi acompanhado por uma consultoria do Sebrae, para estruturar melhor o serviço de delivery. “Fizemos um trabalho de consultoria financeira e de marketing em novembro de 2016. Foi muito positivo: se nós não tivéssemos tido essa experiência, nossa consolidação teria sido muito mais difícil”, afirma o empreendedor.

No acumulado de 2016, a Batata do Vall faturou 320 mil reais.

Crescimento

Com as maiores vendas, o prédio residencial em que Coutinho e Laselva moravam determinou que não dava para continuar com o negócio no apartamento. Pai e filho acharam uma loja, em dezembro do mesmo ano, e refizeram o fluxo de trabalho no novo local.

“Com a nova estrutura, conseguimos investir mais na apresentação e no sabor, padronizando as entregas”, afirma Coutinho. Laselva saiu do seu emprego em TI para se dedicar 100% ao negócio, junto com o pai.

Janeiro de 2017 marcou a inauguração da loja da Batata do Vall. O cardápio expandiu de oito para doze sabores. As batatas são vendidas nos tamanhos individual (400g, de 19 a 27 reais) e família (800g, até 52 reais). O ticket médio varia de 36 a 39 reais.

No mesmo mês, o negócio também entregou uma encomenda de 800 batatas congeladas para São Paulo. A filha de Coutinho, Ana Carolina Laselva, mora em São Paulo e assumiu a operação no estado.

“Tivemos de dar uma parada nas entregas de batatas congeladas, por conta de falta de estruturação para esse crescimento: elas pedem outros equipamentos de armazenamento e condicionamento”, afirma Coutinho.

A ideia é, no segundo semestre deste ano, começar a oferecer as batatas congeladas por delivery. Para isso, irão procurar um novo local, mais espaçoso. “Nossa loja atual suporta o delivery, mas não a operação de batatas congeladas. Precisamos de mais espaço para crescer”, afirma Coutinho.

Hoje, o empreendimento comercializa cerca de mil batatas recheadas por mês. Em 2017, já vendeu de 7 a 8 mil batatas – o mesmo resultado apresentado em todo o ano passado. A meta para este ano é chegar a 500 mil reais de faturamento.

Em 2018, a Batata do Vall começará a fornecer suas batatas congeladas também para eventos e abrirá uma segunda unidade no Rio de Janeiro. “Em um plano de mais longo prazo ainda, queremos estruturar franquias”, completa Coutinho.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.