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“O retorno não é mais só financeiro, é climático”, diz presidente do BNDES

Gustavo Montezano afirma que a COP26 se tornou uma feira de negócios. Mecanismo de transferência de recursos para a economia verde ainda é dúvida

Gustavo Montezano, presidente do BNDES: "A economia como um todo terá de se adaptar, e quem não fizer terá dificuldade de colocar seus produtos no mercado” (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Gustavo Montezano, presidente do BNDES: "A economia como um todo terá de se adaptar, e quem não fizer terá dificuldade de colocar seus produtos no mercado” (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

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Rodrigo Caetano

12 de novembro de 2021, 04h36

De Glasgow, Escócia

O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, ficou surpreso com o que encontrou na COP26, a Conferência do Clima da ONU, que é realizada em Glasgow, Escócia, nesta semana. “Está parecendo mais uma feira de negócios do que um evento científico”, disse Montezano à EXAME. “Há muita oportunidade de inovação e crescimento na economia verde.”

Montezano entende que o papel dos bancos de desenvolvimento é fundamental nessa transição econômica. Para ele, embora o setor privado deva suportar a maior parte dos investimentos, estimados em trilhões de dólares, há uma parte que cabe ao setor público. Ela está no direcionamento de políticas públicas e no capital de maior risco.

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“A transição se dará com esforços conjuntos entre público e privado”, diz ele. “O retorno não é mais só financeiro, é climático. O que estamos vendo é como uma mudança da força gravitacional. A economia como um todo terá de se adaptar, e quem não fizer terá dificuldade de colocar seus produtos no mercado.”

O presidente do BNDES se refere não apenas a produtos da nova economia. Mesmo setores da velha economia, como mineração, terão de encontrar maneiras de produzir com menor impacto, ou serão alijados do mercado. A estratégia pensada para o banco de desenvolvimento é direcionar seus recursos para projetos de descarbonização, em qualquer setor.

Durante a COP26, o BNDES anunciou um fundo de 500 milhões de reais para reflorestamento. Esses recursos serão direcionados para projetos de conservação e estarão atrelados a créditos de carbono. “Não é doação, haverá um ativo”, diz Montezano.

Financiamento estrangeiro

Os bancos de desenvolvimento, de maneira geral, podem funcionar, ainda, como canalizadores de recursos dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento. Esse é um papel que o BNDES, sob o comando de Montezano, espera desempenhar. “Os bancos de desenvolvimento surgiram no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial. Com a economia verde, eles retomam essa importância de impacto”, afirma.

Uma das principais discussões na conferência se dá em torno da promessa dos países ricos de repassar recursos para financiar a transição econômica nos países pobres. No Acordo de Paris, assinado em 2015, o combinado era que haveria um repasse de 100 bilhões de dólares ao ano, a partir de 2020. Isso não aconteceu.

Há dois pontos de divergência. Os países ricos querem garantias de que o dinheiro disponibilizado será, de fato, usado em ações climáticas. Os países em desenvolvimento afirmam que esses 100 bilhões não dão nem para o começo -- uma estimativa conservadora aponta em 700 bilhões de dólares por ano o custo da transição. É nesse contexto que um banco como o BNDES emprestaria sua credibilidade para viabilizar esse repasse.

A questão é que o Brasil, segundo o próprio ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, que é chefe da delegação brasileira na COP26, deve ir para o fim da fila desses recursos. Haveria a possibilidade, então, do BNDES atuar junto a outros países, mais pobres que o Brasil? “No momento, nossa prioridade é o desenvolvimento interno. Talvez em 15 anos”, afirma Montezano. “O que não podemos mais é associar florestas e biodiversidade com pobreza. O mundo quer floresta, e elas geram riqueza.”

EXAME na COP

Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC) é um tratado internacional com o objetivo de estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera.

Uma das principais tarefas da COP é revisar as comunicações nacionais e os inventários de emissões apresentados por todos os países-membros e, com base nessas informações, avaliar os progressos feitos e as medidas a ser tomadas.

Para além disto, líderes empresariais, sociedade civil e mais, se unem para discutir suas participações no tema. Neste cenário, a EXAME atua como parceira oficial da Rede Brasil do Pacto Global, da Organização das Nações Unidas.

Leia a cobertura completa da EXAME sobre a COP26