Adult man doing online shopping during a leisure day at home. Young man buying clothes online
Repórter de Projetos Especiais
Publicado em 23 de outubro de 2026 às 13h26.
Última atualização em 23 de outubro de 2026 às 14h39.
O próximo cliente de uma loja virtual pode não chegar pelo Google, pelas redes sociais ou por um anúncio. Ele pode descobrir o produto em uma conversa com a inteligência artificial.
Esse caminho ainda é pouco utilizado, mas cresce rapidamente: as visitas a sites de varejo originadas por IA aumentaram 203% entre junho de 2025 e maio de 2026.
O dado é de um relatório do BTG Pactual, baseado em informações da Similarweb. Apesar do salto, a tecnologia ainda respondia por apenas 0,4% das visitas. Nos marketplaces, porém, já eram 46,8 milhões de acessos mensais, em média, crescimento de 237% no período comparável.
A novidade aponta para uma possível mudança no comércio eletrônico: em vez de procurar produtos diretamente nas lojas, o consumidor começa a recorrer a assistentes digitais para decidir o que comprar.
Uma pesquisa da Worldpanel by Numerator, divulgada em setembro, mostra como esse comportamento começa a aparecer no Brasil. Entre os consumidores entrevistados que recorrem à IA para apoiar compras, 20,9% procuram informações sobre produtos e 17,8% querem descobrir quais são as melhores marcas.
Outros 17,2% usam a tecnologia para entender os critérios de escolha, enquanto 14,7% buscam preço ou custo-benefício. Os percentuais não representam a população brasileira como um todo.
A mudança interessa especialmente aos marketplaces. Se a IA passa a recomendar quais produtos merecem atenção, parte da disputa pelo consumidor pode acontecer antes de ele acessar uma loja.
É nesse cenário que ganha força o chamado comércio agêntico, no qual sistemas de inteligência artificial podem pesquisar, comparar ofertas e até executar etapas de uma compra. Por enquanto, o crescimento do tráfego indica uma tendência, não uma substituição dos canais tradicionais.
Do outro lado da compra, a inteligência artificial já ajuda a montar vitrines e administrar operações. Segundo o Relatório de Impacto do Mercado Livre, metade das pequenas e médias empresas (PMEs) que vendem na plataforma utilizou ferramentas de IA pela primeira vez em 2025.
O uso mais comum foi melhorar imagens de produtos, citado por 90%. A produção de vídeos apareceu em 30% e o apoio ao atendimento, às avaliações e às devoluções, em 20%.
A adoção também chega às finanças. O MAGO, assistente de IA do Mercado Pago, alcançou mais de 5 milhões de empreendedores brasileiros em 2026, segundo a empresa. A ferramenta permite analisar vendas, organizar pagamentos e realizar Pix e transferências por conversa, mediante confirmação do usuário.
Um levantamento da edrone com 993 lojas online reforça a presença da tecnologia nas operações: 89,4% utilizavam ao menos uma funcionalidade de IA. Entre as que adotaram um gerador de e-mails com inteligência artificial, a receita média era 9,9% maior. A comparação não comprova, porém, que a tecnologia tenha causado o resultado.
Os números mostram duas mudanças acontecendo ao mesmo tempo. Enquanto consumidores começam a usar IA para escolher o que comprar, vendedores recorrem à tecnologia para apresentar produtos e administrar negócios.
A disputa no e-commerce passa a envolver não apenas quem oferece o melhor preço, mas também quem consegue aparecer nas recomendações feitas por máquinas.
Essa e outras transformações do comércio eletrônico foi uma das discussões que marcaram o Mercado Livre Experience 2026, realizado em São Paulo, entre 24 e 25 de setembro.
Mercado Livre Experience 2026 reuniu especialistas, vendedores e criadores para discutir tendências do comércio eletrônico.Durante o evento, o avanço da inteligência artificial dividiu espaço com outras tendências que estão mudando a relação entre consumidores e vendedores, como o comércio pelas redes sociais, as transmissões ao vivo e os vídeos curtos. Para Roberta Donato, vice-presidente de marketplace do Mercado Livre, a multiplicação desses canais exige que as plataformas encontrem novas maneiras de aproximar produtos e consumidores. É nesse ponto que a inteligência artificial ganha importância.
“A tecnologia tem nos ajudado muito a avançar com soluções cada vez mais personalizadas”, afirma a executiva.
Segundo ela, o Mercado Livre utiliza dados sobre o comportamento dos consumidores para recomendar produtos de acordo com seus interesses e diferentes momentos de vida.
Para os vendedores, a tecnologia ajuda a reduzir o trabalho necessário para colocar produtos à venda. Ferramentas de IA permitem melhorar e ambientar fotografias, facilitar o cadastro de mercadorias e automatizar tarefas. A plataforma também investe em assistentes virtuais capazes de orientar lojistas e apoiar a gestão dos negócios.
Mas a transformação digital também depende de investimentos fora das telas. Segundo Donato, o Mercado Livre vai chegar a 72 centros logísticos de grande porte em 2026, expansão de 79% em relação ao ano anterior. A estrutura permite que pequenos vendedores alcancem consumidores de outras regiões do país, sem precisar construir uma rede própria de distribuição.
O movimento mostra que o futuro do comércio eletrônico não depende de uma única tecnologia. A inteligência artificial pode ajudar o consumidor a encontrar o produto certo e o vendedor a administrar melhor seu negócio. Mas, para que a compra se concretize, a mercadoria ainda precisa chegar ao destino.