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Milhares de manifestantes chegam à capital do Peru para protesto contra o governo

É um novo capítulo da crise que se agravou após a queda de Pedro Castillo, que no dia 7 de dezembro tentou dar um autogolpe

 (AFP/AFP)

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Estadão Conteúdo

19 de janeiro de 2023, 16h58

Caravanas com milhares de peruanos chegaram a Lima nas últimas horas, respondendo à convocação para um ato em massa nesta quinta-feira, 19, contra o governo de Dina Boluarte e o Congresso.

É um novo capítulo da crise que se agravou após a queda de Pedro Castillo, que no dia 7 de dezembro tentou dar um autogolpe, mas acabou destituído e detido, desencadeando uma convulsão social que já deixa pelo menos 50 mortos, incluindo 49 civis.

Os manifestantes — em sua maioria grupos indígenas, camponeses e estudantes — viajam para o ato batizado de “Tomada de Lima”, que foi convocado pela Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru. Eles vêm principalmente das regiões de Cusco, Ayacucho, Cajamarca, Puno e Apurimac.

Essas regiões, juntas, deram mais de 70% dos votos para Castillo nas eleições que o levaram ao poder em 2021, retrato das divisões entre a capital e o interior do país.

As forças de segurança foram postas em alerta máximo, e a presidente Boluarte pediu que os protestos não se transformem em atos violentos — apelo repetido pela Defensoria do Povo.

Universidade mais antiga do continente

A Universidade Nacional Maior de San Marcos, cuja fundação em 1551 faz com que seja a mais antiga do continente, tornou-se na madrugada da quarta-feira 18 um albergue para os manifestantes após estudantes ocuparem o campus para “apoiar os povos do interior do país” e fornecer a eles um “lugar para pernoitar”, anunciou o grupo discente.

A San Marcos é considerada o berço histórico do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, cuja ideologia era apresentada como uma continuação das ideias de Karl Marx, Vladimir Lenin e Mao Tsé-tung, mas que na prática evocava o terror. Fundado nos anos 1980, quando o Peru se redemocratizava após 12 anos de ditaduras militares, o grupo foi responsável pela morte de aproximadamente 30 mil pessoas, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação de 2003.

A reitora da universidade, Jerí Ramón, deu o aval para que a polícia desalojasse os manifestantes vindos principalmente de Cusco, no Sul do país. Decidiu-se que o ingresso da Polícia Nacional, similar à Polícia Federal brasileira, não seria imediato, e uma comissão de decanos e representantes estudantis estabeleceria diálogo.

Parte da caravana vinda do Sul deixou o local — segundo a agência de notícias France-Press, 500 pessoas teriam chegado a ocupá-lo —, dirigindo-se à Praça San Martín, no centro da capital peruana, onde há um forte efetivo policial e algumas lojas fecharam suas portas antecipadamente.

Alguns dos que permanecem no centro educacional conversam com a comissão recém-criada e com a Defensoria do Povo. Há também uma equipe de segurança no local.

As principais exigências dos manifestantes são, além da renúncia de Boluarte, eleições imediatas, fechamento do Congresso e a convocação de uma Constituinte. De acordo com o último estudo de opinião realizado pelo Instituto de Estudos Peruanos (IEP), 69% dos peruanos são a favor de uma Assembleia Constituinte, que se encarregaria de redigir uma nova Constituição no Peru.

Viajantes

Na antecipação dos atos, o governo declarou estado de emergência na capital e nas regiões de Cusco, Callao e Puno, onde um massacre na semana passada deixou 19 mortos.

”Não queremos mais mortes, não queremos mais feridos, basta de sangue, basta de famílias enlutadas no Peru”, disse o Ministro do Interior, Vicente Romero, em uma entrevista coletiva após uma reunião de Gabinete na quarta, pedindo que a população tenha confiança nas forças de segurança.

Os primeiros a chegar a Lima, de segunda para terça, foram camponeses da cidade de Andahuaylas, na região de Apurimac, onde foram registrados confrontos violentos em dezembro. Os grupos viajaram principalmente em caminhões e carros e se concentravam na praça Manco Cápac. Movimentos similares foram registrados em Puno, de onde estima-se que tenham partido cerca de 7 mil aimaras, e Cusco, a 1.100 km de distância.

Dezenas de moradores de Cusco pernoitaram em colchonetes no chão de cimento do escritório de 7x8 metros de um grupo esquerdista na Praça Bolognesi, na capital. Na manhã da quarta, dia em que Lima completou 488 anos, foram alimentados por quatro mulheres que cozinharam uma grande quantidade de “aguadito”, sopa feita com os miúdos de frango, verdura, arroz e coentro.

Junto a eles, chegaram também para comer camponeses produtores de coca do Vale dos Ricos Apurimac, Ene e Mantaro, região que hoje abriga metade das plantações do país. Todos os alimentos são doados por grupos afeitos à causa.

”Não temos uma boa educação, não temos bons serviços de saúde. Somos muito esquecidos pelo governo”, disse a camponesa Nélida Aguirre, contestando as acusações de que são financiados pelo narcotráfico como alega o governo. “Viemos para mostrar que os camponeses têm coragem. Amanhã [nesta quinta] Lima será tomada para que eles andem nos nossos sapatos e vejam como os camponeses sofrem.”

O movimento em Lima vem após semanas de protestos na zona rural, às vezes com a queima de prédios do governo, bloqueio de rodovias vitais e ocupação de aeroportos. Recebidos com uma dura resposta policial que despertou críticas internacionais, os atos refletem a crescente desilusão com a jovem democracia de um país que tem em Boluarte sua sexta presidente em menos de cinco anos.

O Peru, onde moram 33 milhões de pessoas, o quinto maior país da América Latina, voltou à democracia há apenas duas décadas, após o regime autoritário de Alberto Fujimori (1990-2000), condenado em 2009 a 25 anos de prisão por crimes de lesa-Humanidade. Mas o sistema atual do país, com base em uma Constituição da era autocrática, está repleto de corrupção e impunidade pelas quais até mesmo os governantes culpam a falta de supervisão e uma cultura de clientelismo.

A princípio, os manifestantes buscavam principalmente a volta de Castillo ou novas eleições o mais rapidamente possível, mas passaram a querer uma nova Constituição e até mesmo, como dizem cartazes, “refundar a nação”. Refletem também a histórica desigualdade interna no país, acentuada nos anos de pandemia: o ex-presidente representa o interior excluído e empobrecido contra a capital, onde mora um terço dos peruanos, e o litoral, onde estão os mais ricos.

Na quarta, duas pessoas morreram devido aos obstáculos na rodovia Panamericana Norte, na altura de Virú, na região de La Liberdad: uma mulher de 51 anos e um bebê prematuro não puderam receber a tempo o atendimento médico que precisavam.

Frente à crise social, a rodada inaugural do campeonato de futebol nacional, o Apertura 2023, foi adiada. O primeiro jogo estava previsto para a tarde de sábado, uma partida entre o Sporting Cristal e o Deportivo Cantolao em Lima. A suspensão vale pelo menos até 23 de janeiro e almeja “prevenir e evitar riscos que afetem a segurança e a integridade física das pessoas”.