Inflação nas alturas, FMI e nova ministra: como a crise da Argentina ficou pior

Embate entre o presidente Alberto Fernández e a vice Cristina Kirchner escancara desafios da Argentina enquanto país sofre para reduzir inflação
Loja em Buenos Aires: inflação argentina supera 60% e pode ser acentuada com crise global (Tomas Cuesta/Getty Images)
Loja em Buenos Aires: inflação argentina supera 60% e pode ser acentuada com crise global (Tomas Cuesta/Getty Images)
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Carolina Riveira

Publicado em 05/07/2022 às 16:09.

Última atualização em 05/07/2022 às 18:10.

Quando o agora ex-ministro da Economia argentino Martín Guzmán assumiu o cargo, em dezembro de 2019, tinha sobretudo uma missão: renegociar a astronômica dívida externa da Argentina e evitar um novo calote.

Passados dois anos, o objetivo poderia ser considerado atingido. As duas frentes da dívida externa foram renegociadas, com credores privados em 2020 e com o Fundo Monetário Internacional (FMI) neste ano, em condições vistas como favoráveis aos argentinos.

Não foi o suficiente. Após embates crescentes com o grupo da vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner, Guzmán terminou renunciando ao cargo no fim de semana e levando com ele o que sobrava de confiança na autonomia do presidente Alberto Fernández.

A nova ministra da Economia, Silvina Batakis, tomou posse já na segunda-feira, 4, com as bençãos de Kirchner. Batakis chega ao cargo com a inflação argentina em 60%, e previsões de que possa superar 80% (ou até 100%) ainda neste ano, enquanto juros seguem acima de 50% e o peso argentino tem valor em baixa recorde frente ao dólar.

Fernández e Batakis, nova ministra da Economia: desafios crescentes para o governo argentino (Tomas Cuesta/Getty Images)

Na prática, o tango no alto escalão não deve trazer tantas mudanças. Guzmán já era um economista visto como de esquerda e menos ortodoxo, ainda que alvo de críticas da base do kirchnerismo.

Mas, acima de tudo, a troca é símbolo de uma nova era na Casa Rosada — com Fernández cada vez mais isolado e Kirchner acentuando o "fogo amigo" contra seu ex-aliado.

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"O que fica dessa queda do Guzmán é uma mensagem sobre a autonomia política do Fernández, e como a capacidade de liderar do presidente sai prejudicada", diz Marina Pera, pesquisadora de risco político na consultoria Control Risks.

“Cristina conseguiu tirar um aliado político importante do presidente, e colocar uma pessoa mais próxima a ela. Nesse cabo de guerra entre os dois, ela saiu ganhando.”

A incerteza cresce com a crise no governo e a troca de ministros. A diferença entre o câmbio oficial e o chamado dólar "blue", vendido no mercado paralelo, supera 100% nesta semana. Um dólar é negociado a mais de 250 pesos na prática (enquanto o oficial está perto de 130 pesos).

Fim da aliança

Guzmán havia chegado ao cargo na esteira da eleição do presidente Fernández, que venceu em 2019 o então mandatário Maurício Macri, de direita. A Argentina estava em recessão desde 2017 e, por essa época, a dívida externa começava a ficar “insustentável”, nas palavras do FMI, com a incerteza sobre o tema paralisando todo o restante da pauta econômica do país.

O último dos grandes calotes argentinos havia sido em 2001, com reflexos até hoje, e repetir esse cenário seria devastador para a economia.

Guzmán: ex-ministro da Economia deixou o cargo após renegociar dívida com FMI e credores privados (Juan Mabromata - Pool/Getty Images)

A renegociação, no entanto, não era pouca coisa: a dívida com os credores privados era de US$ 65 bilhões, e o empréstimo contraído por Macri com o FMI, de quase US$ 45 bilhões, o maior da história do fundo. No fim, a reestruturação liderada por Guzmán foi vista como relativamente positiva para os argentinos porque manteve parte da capacidade de investimento, exigindo cortes de gastos menos rigorosos no curto prazo.

“Mas, apesar de ser um acordo relativamente flexível, ainda é o FMI”, resume o internacionalista argentino Bruno Binetti, pesquisador no think-tank estadunidense Inter-American Dialogue e na London School of Economics.

“Segue tendo metas, redução de déficit fiscal, redução de subsídios, coisas que, para o kirchnerismo, eram demasiado ortodoxas para sua visão de economia", diz. "Até certo momento, Guzmán parecia ter tanto o apoio de Cristina quanto do presidente Fernández. Isso terminou depois do acordo com o FMI."

Fernández na berlinda

Chefe de gabinete do ex-presidente falecido Nestor Kirchner, Fernández havia sido escolhido em 2019 como o candidato da esquerda — ou do “peronismo”, dentro do espectro do país — em virtude dos problemas judiciais que cercavam Cristina. Com uma base importante de cerca de um terço de votos fidelizados, Cristina deu lugar a Fernández e saiu como vice na chapa.

Passada a lua de mel, no entanto, a disputa entre a ala de Fernández e a ala de Cristina no governo começou a se intensificar sobretudo a partir do ano passado.

Cristina Kirchner e Alberto Fernández: os dois mandatários do governo mal se falam atualmente (Natacha Pisarenko - Pool/Getty Images)

Em novembro de 2021, a derrota da esquerda nas eleições legislativas escancarou as feridas. A Frente de Todos, coalizão do governo, ficou atrás da Juntos por el Cambio (da direita, com nomes como o ex-presidente Macri), ainda que tenha conseguido reduzir a dimensão da derrota na reta final.

Desde então, o discurso de Cristina, explica Binetti, da London School of Economics, é de que se seguissem com Guzmán e colocassem em prática o que foi firmado com o FMI, o peronismo perderia as eleições seguintes. (Fernández diz que quer disputar a reeleição em 2023, mas não está claro se terá força para tal, e Cristina pode voltar ao páreo.)

Além disso, Cristina, que domina parte da base do governo no Congresso, não deu apoio à ratificação do que o governo Fernández negociou com o FMI, abrindo de vez o racha.

Para além da dívida, o governo Fernández, liderado por Guzmán na economia, até tentou emplacar propostas de campanha, como um sistema tributário progressivo que cobrasse mais dos mais ricos. As pautas pouco conseguiram avançar.

“A reestruturação da dívida era o principal mandato de Guzmán, que inclusive ficou até um pouco isolado de outros temas regulatórios”, diz Gabriel Brasil, analista de Argentina da Control Risks.

“Mas, embora tenha conseguido fechar os acordos, as trajetórias da Argentina para cumpri-los desde então têm sido muito conturbadas. Guzmán vinha tendo muita dificuldade em cumprir algumas condicionantes, como a redução do déficit, porque são medidas impopulares e que não tinham apoio da coalizão inteira do governo, notadamente por parte de Cristina.”

Economia sem rumo

Em meio às desavenças no governo, a encruzilhada que se tornou a inflação inercial na Argentina piora ainda mais com a crise global, que tem feito mesmo países com inflação baixa, como os EUA, registrarem alta recorde nos preços.

A economia argentina teve crescimento alto em 2021, com o PIB subindo 10,3%. Mas parte da retomada foi sobretudo um rebote da queda brusca da pandemia, de quase 10% em 2020.

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Para 2022, a expectativa é de crescimento de 3,6%, segundo projeção da OCDE, mas o país precisará de avanços sustentados para honrar a dívida nos próximos anos, o que pode ser difícil se uma recessão global se confirmar.

Peso argentino: inflação no país pode chegar a 80% neste ano se a situação não melhorar (Tomas Cuesta/Getty Images)

Entre custo de vida subindo diariamente, dívida e pandemia, os índices de pobreza chegaram a 40% na Argentina.

"Nesse sentido, é mais do que o acordo com o FMI em si. O que custou o respaldo a Guzmán foi sua resistência em adotar medidas que Cristina e seu grupo consideram necessárias para conter as demandas de sua base de apoio, somada ao fracasso da política anti-inflacionária, que terminou fragilizando sua posição junto a Alberto Fernández", afirma o internacionalista Matheus de Oliveira Pereira, professor da PUC-SP e da Unaerp e especialista em temas de Argentina e América Latina.

São desafios crescentes que a nova ministra Silvina Batakis terá de equacionar.

Entre as principais dúvidas estão o quanto a ministra vai dobrar a aposta em práticas como congelamento de preços e mais restrições para a saída de capitais ao exterior, em tentativas de atenuar a inflação. A crise de energia do país também é um dos principais pontos no radar: chegou a faltar diesel na Argentina com o avanço nos preços internacionais, ao mesmo tempo que a importação tem reduzido as reservas em dólar do país. Especula-se, também, o quanto os subsídios de energia serão mantidos.

Caminhoneiros bloqueiam estrada em Buenos Aires: protestos em meio à alta dos combustíveis (Gustavo Garello/Getty Images)

Tudo isso terá de ser decidido em um governo que ainda está, politicamente, muito longe de se entender. Após a renúncia de Guzmán no sábado, 2, as notícias nos bastidores apontam que Fernández relutou até o último momento para contatar Cristina e buscar uma solução para o Ministério da Economia.

“O principal desafio a ser encarado pelo presidente é a recomposição da unidade no governo. Ele [Fernández] e Cristina praticamente não se falam mais diretamente, a ponte entre eles vem sendo feita por políticos e lideranças sociais”, afirma Oliveira.

“Embora Fernández seja o presidente, Cristina é muito mais relevante em termos eleitorais. E com a oposição dela, o governo é inviável — como ficou claro na gestão da economia.”

Antes de sair, Guzmán afirmou em uma longa carta pública a Fernández que seria "primordial trabalhar em um acordo político” para que seu substituto tivesse “gestão centralizada dos instrumentos de política macroeconômica”.

Nesse cenário, o relativo consenso entre a cada vez mais forte base do kirchnerismo sobre o nome de Batakis pode ser visto como um efeito estabilizador. Mas faltando um ano para as próximas eleições presidenciais, as pressões ao cambaleante governo de Alberto Fernández virão de todos os lados. O longo drama argentino segue muito longe de uma solução.

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