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Como Doritos fez o país acreditar que momento marcante do penta foi planejado por um salgadinho

Em entrevista à EXAME, Sâmia Chehab revela os bastidores da teoria da conspiração com Ronaldo Fenômeno que viralizou nas redes e o filtro da PepsiCo para rejeitar eventos gigantes

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 23 de maio de 2026 às 12h57.

Última atualização em 25 de maio de 2026 às 11h03.

No início dos anos 2000, o marketing de massa operava sob uma lógica confortável: contratava-se o maior ídolo do país, comprava-se o intervalo comercial mais caro da televisão e o recado estava dado, sem direito a réplica.

Vinte e quatro anos depois, em um cenário fragmentado onde o público desenvolveu uma espécie de bloqueio automático contra anúncios óbvios, a provocação precisa ser outra.

A marca não deve apenas anunciar na internet; ela precisa virar o meme, a conversa e a própria teoria da conspiração do feed.

Essa estratégia de hackear a nostalgia gerou uma das ações mais comentadas do mercado de bens de consumo antes mesmo do apito inicial do torneio mundial. Ao cruzar o formato de seu principal salgadinho com o corte de cabelo mais controverso da história do futebol brasileiro, a PepsiCo conseguiu derreter as barreiras geracionais e fazer o público acreditar, por alguns dias, que um dos momentos mais marcantes do título de 2002 foi planejado de forma subliminar.

Direto do MMA, o principal ponto de encontro de marketing e negócios de São Paulo, a EXAME conversou com Sâmia Chehab, diretora sênior de marketing da PepsiCo.

A executiva detalhou a engenharia criativa por trás do "Xodó" com Ronaldo Fenômeno, a investida agressiva de Lay's no território do futebol nacional e o rigoroso filtro da companhia para definir por que uma marca deve — ou, mais importante, não deve — entrar em um patrocínio milionário.

“Estratégia é escolha, é marca e personalidade. Uma marca é uma pessoa; você não acorda sendo uma pessoa que gosta de rock e amanhã só gosta de forró. Essa coerência precisa existir, porque o consumidor de hoje não compra apenas o produto, ele consome o conceito”, defende Sâmia.

O formato do mistério: o dia em que o diretor criativo de 2002 recebeu ligações de cobrança

A ideia de conectar Doritos ao maior personagem vivo das Copas do Mundo partiu de uma afinidade de temperamento: tanto o salgadinho quanto o ex-camisa 9 construíram suas histórias com base na ousadia e na irreverência. Mas o grande estalo da agência foi puramente geométrico.

Ao isolar o triângulo, principal assinatura visual do produto, o time de marketing enxergou o encaixe perfeito com o icônico penteado adotado pelo Fenômeno na semifinal do Japão.

A campanha foi desenhada para se comportar como um boato orgânico. A marca plantou a hipótese de que o polêmico corte "Cascão" já era um plano de publicidade para Doritos há mais de duas décadas. A narrativa escalou de forma tão intensa que o próprio Ronaldo e o diretor de criação da campanha original daquela época começaram a receber ligações de amigos e familiares cobrando explicações.

A validação da estratégia veio na Avenida Paulista, onde o ambiente digital ganhou o asfalto. A PepsiCo montou uma estrutura para desafiar o público: quem aceitasse raspar o cabelo exatamente no mesmo formato triangular levava para casa uma camisa autografada pelo craque.

"Nós nos surpreendemos. Acreditamos que as pessoas descobririam a ação de publicidade em poucos dias, mas a conspiração evoluiu tanto que a galera realmente entrou no clima", conta a diretora.

O teste do quadrado: por que o tamanho do evento não garante o sucesso da marca

O movimento pré-torneio de Doritos coincide com um momento de forte expansão de outra potência do portfólio da PepsiCo: a marca Lay's. Como patrocinadora oficial da maior Copa da história em número de seleções, a marca de batatas assume o protagonismo do campo, herdando um território global de futebol e consolidando sua presença no mercado brasileiro, onde divide espaço com o legado de Ruffles.

Essa distribuição de forças expõe uma regra clara dentro da companhia: o tamanho de uma festividade ou transmissão não justifica, por si só, a presença de um produto. Sâmia explica que o marketing moderno pune o oportunismo vazio. Tentar enfiar uma marca em um contexto onde ela não possui fit cultural é o equivalente a "tentar colocar uma bola dentro de um espaço quadrado".

Para evitar que as marcas passem desapercebidas ou soem artificiais, a empresa mapeia e isola territórios específicos para cada persona do portfólio. Se a Copa do Mundo pertence a Lay's e Doritos (que também transita por Rock in Rio e Fórmula 1), o Carnaval é o território exclusivo de Cheetos e seu humor mais ácido e satírico.

Veja a entrevista completa:

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