Empresas B: certificação passa a exigir métricas e auditorias independentes. (Rawpixel/Freepik)
Colunista
Publicado em 1 de abril de 2026 às 14h00.
Março é o mês global das Empresas B. Mais do que uma celebração, este é um momento de reflexão sobre uma pergunta central para o mundo empresarial: é possível conciliar propósito e lucro com consistência, governança e resultados mensuráveis?
Essa discussão ocorre em um contexto de mudança relevante. A certificação Empresa B — coordenada globalmente pelo B Lab e representada no Brasil pelo Sistema B — está passando pela maior revisão de critérios desde sua criação, em 2006. A atualização não é estética. Ela responde a uma transformação do mercado: consumidores, investidores e reguladores deixaram de aceitar declarações genéricas de compromisso socioambiental. Hoje, exigem evidências.
Até recentemente, o modelo de certificação era baseado em pontuação. As empresas respondiam a um questionário e precisavam atingir pelo menos 80 pontos distribuídos entre cinco áreas de impacto: Governança, Trabalhadores, Comunidade, Meio Ambiente e Clientes.
A partir de 2026, essa lógica muda de forma estrutural.
O novo modelo deixa de ser predominantemente baseado em pontuação e passa a exigir requisitos obrigatórios em sete áreas fundamentais: Propósito e Governança de Stakeholders; Trabalho Justo; Justiça, Equidade, Diversidade e Inclusão (JEDI); Direitos Humanos; Ação Climática; Gestão Ambiental e Circularidade; e Assuntos Governamentais e Ação Coletiva.
Além disso, serão introduzidas metas progressivas de melhoria contínua ao longo de um ciclo de cinco anos e auditorias independentes realizadas por terceiros. Na prática, a certificação deixa de ser interpretada como um selo estático e passa a funcionar como um processo permanente de evolução e prestação de contas.
Esse endurecimento de critérios reflete o amadurecimento da agenda ESG. O mercado vive um momento de maior escrutínio sobre práticas empresariais e crescente ceticismo em relação ao chamado greenwashing. Em um ambiente mais transparente e conectado, reputações são construídas — e destruídas — com rapidez. Certificações mais rigorosas ajudam a diferenciar compromissos estruturados de iniciativas superficiais.
Para as empresas, a transição representa desafio e oportunidade.
O desafio está na necessidade de fortalecer governança, revisar políticas internas, aprimorar sistemas de mensuração e incorporar metas claras de evolução. Não se trata apenas de responder a um questionário, mas de estruturar processos e rotinas que resistam a auditorias independentes.
A oportunidade, por outro lado, está em usar esse novo padrão como ferramenta estratégica. Empresas que organizam sua governança, mensuram impactos e integram sustentabilidade à tomada de decisão tendem a reduzir riscos regulatórios, fortalecer sua reputação, melhorar o acesso a capital e se posicionar de forma mais competitiva em cadeias globais de valor.
O “novo B” sinaliza uma mudança importante: a agenda deixa de ser predominantemente declaratória e passa a exigir evidência, consistência e evolução contínua.
Propósito e lucro continuam compatíveis. Mas, daqui em diante, essa compatibilidade precisará ser demonstrada por meio de governança robusta, métricas claras e resultados concretos. O mercado está menos tolerante ao discurso e mais atento à execução.
E essa talvez seja a transformação mais relevante deste novo ciclo.