Os 'ares de sucessão' por trás do fim dos fundos multimercados da Gávea
Gestora fundada por Arminio Fraga encerra família Gávea Macro após 23 anos e migra foco para private equity e gestão de patrimônio próprio


Letícia Furlan
Repórter de Mercados
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 14:10.
Última atualização em 5 de agosto de 2026 às 14:31.
A decisão da Gávea Investimentos de encerrar a gestão de recursos de terceiros marca mais do que o fim de uma estratégia de 23 anos. Para analistas, o movimento tem "ares de sucessão". A saída dos principais gestores, somada ao reposicionamento de Arminio Fraga para um papel mais institucional, altera a tese de investimento da casa e ajuda a explicar por que muitos investidores tendem a deixar os fundos.
Agora, a gestora pretende concentrar sua atuação em private equity e na gestão do patrimônio próprio dos sócios, modelo conhecido como single family office.
A decisão ocorre em um momento em que a indústria de fundos multimercados enfrenta uma das janelas mais difíceis de sua história recente, pressionada por juros elevados, forte concorrência de produtos de renda fixa e dificuldade de gestores ativos entregarem retornos acima dos benchmarks.
Mas, para analistas, a mudança da Gávea não deve ser interpretada apenas como um reflexo de desempenho. A saída dos principais nomes da equipe de gestão também altera a tese para os investidores.
“A gente precisa entender que uma gestora de fundos de investimento é personalíssima. Ela é focada em pessoas. E quando as principais pessoas saem, você não fica no fundo esperando para ver, você sai”, afirma Luciana Seabra, analista e planejadora financeira da Indê Investimentos.
Fundada em 2003 por Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e Luiz Henrique Fraga, a Gávea construiu sua reputação como uma das principais casas independentes do país. A gestora ganhou notoriedade por sua leitura macroeconômica e pela capacidade de navegar diferentes ciclos de mercado. Em determinado momento, chegou a ser uma das referências entre investidores institucionais e clientes de alta renda.
Mas os dados mais recentes ajudam a explicar o momento. Segundo levantamento com dados de 3 de agosto de 2026, os fundos da família Gávea Macro apresentavam desempenho inferior aos benchmarks tanto no acumulado do ano quanto nos últimos 12 meses.
Entre os fundos da família Gávea Macro atrelados ao CDI, todos apresentaram desempenho inferior ao benchmark no período analisado. Enquanto o CDI acumulou alta de 8,20% no ano e 14,71% nos últimos 12 meses, o Gávea Macro II Previdenciário avançou 4,62% no ano e 8,14% em 12 meses. Já o Gávea Macro FIF CIC e o Gávea Macro II FIF CIC tiveram alta de aproximadamente 4,49% no ano e 7,45% em 12 meses. O Gávea Macro Plus II apresentou o menor retorno entre os fundos atrelados ao CDI, com valorização de 3,18% no ano e 5,08% nos últimos 12 meses.
O Gávea Macro Dólar, que tem como referência dólar mais juros americanos, acumulou queda de 7,72% no ano e 9,29% em 12 meses, enquanto o benchmark caiu bem menos no mesmo período.
Para Luciana, porém, a análise precisa considerar a janela de tempo. Segundo ela, em uma janela de 10 anos, mais adequada para avaliar fundos multimercados, o desempenho da Gávea ficou próximo ao CDI. Já em uma janela mais curta, de aproximadamente dois anos, os retornos ficaram próximos de 50% do CDI.
“Quem ficou ao menos três anos no fundo, muito provavelmente teve bons resultados”, afirma. Segundo a analista, ao longo da história da casa, a estratégia conseguiu superar o CDI em cerca de 75% das janelas móveis de três anos.
Mudança na equipe
Para Luciana, o principal fator para a retirada da recomendação dos fundos não é apenas o desempenho recente, mas a mudança da equipe responsável pelas decisões de investimento que, segundo a especialista, deve mudar.
Ela destaca a saída de Gabriel Srour, diretor de investimentos da Gávea, que deve fundar sua própria gestora com uma estratégia diferente. Já Arminio Fraga, segundo ela, passa a assumir um papel mais institucional e consultivo, incluindo sua atuação em uma força-tarefa ligada ao Fed, o banco central americano.
A analista avalia que o movimento tem “ares de sucessão” e muda a lógica da análise do fundo. “Vejo a transferência dos fundos para o Bradesco como uma formalidade. Porque, na verdade, os principais quadros saíram”, afirma.
Segundo ela, a Gávea foi transparente ao comunicar que está encerrando a gestão de terceiros, em vez de tentar transmitir uma ideia de continuidade.
“A Gávea foi muito clara. Ela nem tentou passar uma mensagem de que vai ter uma continuidade, o que foi bem honesto”, opina.
A proposta da Gávea é transferir a administração e a gestão dos fundos multimercados para a Bradesco Asset Management, operação que ainda depende da aprovação dos cotistas em assembleia.
A mudança, porém, não significa necessariamente que a estratégia original será mantida. Para Luciana, a avaliação sobre a continuidade dos fundos dependerá de quem será responsável pela gestão dentro do Bradesco.
Multimercados não estão mortos
Apesar da recomendação de saída dos fundos da Gávea, Luciana ressalta que o movimento não representa uma sentença para toda a indústria de multimercados.
“Eu não acredito que os multimercados morreram. Acho que é mais um sinal para o investidor de que estamos passando por uma janela difícil, mas eu continuo acreditando na diversificação”, afirma.
Para ela, esses fundos continuam sendo uma das formas mais simples para investidores acessarem estratégias globais envolvendo moedas, commodities, juros internacionais e temas como inteligência artificial. O ponto, segundo a analista, é escolher melhor os gestores.
E, apesar de abandonar a gestão de multimercados para terceiros, a Gávea não está encerrando suas atividades. A casa pretende concentrar esforços em private equity, área liderada por Luiz Henrique Fraga, e na gestão do próprio patrimônio dos sócios.
O movimento reduz a necessidade de uma estrutura voltada para captação pública, distribuição e acompanhamento constante de investidores de fundos líquidos. Na prática, a Gávea troca um modelo baseado em escala e liquidez por uma estratégia mais concentrada em investimentos de longo prazo.
Saiba antes. Receba o Insight no seu email
Li e concordo com os Termos de Uso e Política de Privacidade

Letícia Furlan
Repórter de MercadosJornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduada pela Fundação Getulio Vargas, foi repórter de negócios, carreira e mercado de trabalho na Editora Abril. Na EXAME, cobre empresas listadas na bolsa e mercado imobiliário.
%3Aformat(webp)&w=1080&q=75)
%3Aformat(webp)&w=1080&q=75)