Banco Central: entidade define a taxa Selic para auxiliar no controle da inflação (Leandro Fonseca /Exame)
Redação Exame
Publicado em 17 de maio de 2026 às 10h00.
Com o avanço da regulação de criptoativos no Brasil, o mercado passa por um período crucial em relação aos players que serão os protagonistas desse ecossistema. Ao longo deste ano, as empresas que pretendem fazer parte desse ambiente em rápida expansão terão de atender às exigências impostas pelo Banco Central (BC). Um ponto de atenção é que o maior desafio não está na porta de entrada a esse mercado, mas em sua permanência nele.
Essa análise ganha importância à luz da dimensão alcançada pelo mercado brasileiro no segmento. Segundo o Global Crypto Adoption Index, relatório anual publicado pela empresa americana Chainalysis, o Brasil figura entre os cinco maiores mercados em ativos digitais de todo o mundo, em um ranking que considerou 151 economias.
Dentro do processo regulatório, as empresas têm entre 04 de maio e 29 de outubro para prestarem informações ao BC sobre operações de câmbio e capitais estrangeiros. Após esse prazo, as empresas que não tiverem formalizado o pedido junto ao órgão regulador não poderão operar no país.
Além disso, para obter autorização, as companhias que atuam com compra, venda e troca de criptoativos precisarão comprovar um capital mínimo que varia entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, dependendo da área de atuação. Entretanto, em conversas com alguns players de mercado, tenho identificado um ponto recorrente: a maioria ainda não entendeu o nível de exigência que o regulador trará.
O debate tem se concentrado em algumas regras do processo regulatório, como o capital mínimo, como se este fosse o principal desafio. Essa leitura está equivocada, pois o custo real da regulação não está na entrada, mas na permanência. Compliance contínuo, monitoramento, governança, integração com o sistema financeiro tradicional… tudo isso consome caixa de forma recorrente, indo muito além do investimento inicial.
O que tenho acompanhado nesse momento é um desalinhamento, com muitas empresas se capitalizando para cumprir as exigências do BC, mas sem um modelo para sustentar a operação quando a regulação entrar na prática.
Além disso, essa corrida para se adequar às regras impostas pelo órgão regulador deixou evidente o crescimento dos investimentos em empresas com atuação semelhante em operações cross-border com stablecoins. Esse movimento é muito positivo, pois a infraestrutura precisa de capital. Entretanto, é preciso ter alguns cuidados com o que esses investimentos podem acarretar nos próximos anos.
É que mais empresas atuando sob uma mesma tese e com soluções replicáveis tende à compressão das margens em um ambiente de custos crescentes. Esse cenário não é necessariamente um erro, mas sim um ciclo. Qualquer setor que passa por um processo regulatório como esse normalmente enfrenta um período de excesso. Desse novo ambiente, muitos players vão entrar, mas poucos irão permanecer. E assim o sistema evolui.
No fim, a questão não é se haverá vencedores, mas sim definir quem serão os protagonistas. Pois atuar com cross-border não é apenas mover valores de um lugar para outro. É preciso operar entre sistemas diferentes, com eficiência. Com essa regulação, o mercado tem discutido quem vai construir os trilhos. Mas é preciso pensar além, pois o valor já começa a migrar para quem decide por onde o fluxo passa.
*Claudio Just é CEO da Transfero
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